OBVIOUS

T.r.a.i.ç.ã.o, com Lena Mattar


mensagem final dos artigos da Obvious

 egundo o dicionário Aurélio, a palavra traição significa o ato de trair alguém, a infidelidade, a perda completa da lealdade que resulta de uma ação traiçoeira. Se você já se encontrou em uma situação semelhante a essa, seja bem-vinda ao clube das pessoas que sabem muito bem a dor de perder a confiança em alguém importante. Sim, perder a confiança. Essa outra palavra também não demorou a aparecer aqui, já que quando falamos sobre traição, o contraponto da confiança aparece rápido e sem pedir licença. Afinal, assim como o sol não nasce se a noite não ceder o espaço, a traição não acontece se a confiança não for quebrada… E se o comum é que sejamos pegas de surpresa quando traídas por terceiros, pior ainda é lidar com o abismo da traição que acontece de nós para nós mesmas. Será que essa é a única forma inevitável entre todas as outras possíveis? Sinceramente, eu ainda não encontrei essa resposta e é por isso que eu convido você a aceitar a missão de encontrá-la comigo nesse episódio. Bom dia, Obvious. Eu sou Marcela Ceribelli, CEO e diretora criativa da Obvious e hoje converso sobre as diferentes formas de traição que enfrentamos ao longo da vida, com a especialista em comunicação gastronômica, Lena Mattar.

Marcela Ceribelli: Lena, muito bom dia. Obrigada por ter topado o nosso convite para bater esse papo matinal super leve.

Lena Mattar: Bom dia, obrigada pelo convite, é um prazer estar aqui.

Marcela Ceribelli: Lena, eu já te conheço de alguns projetos, mas queria que você se apresentasse, quem é a Lena Mattar?

Lena Mattar: Eu sou a Lena, trabalho com comunicação gastronômica, tenho uma empresa que presta serviços variados de comunicação, divulgação, assessoria, produção de conteúdo para restaurantes e chefes e eu tenho um canal meu, uma Newsletter onde eu produzo o meu conteúdo e as minhas receitas.

Marcela Ceribelli: Eu indico demais a Newsletter, amo. Bom, como o meu conhecimento sobre você vinha de chocolate, quando a Andreza, roteirista do programa, trouxe o seu nome eu achei que fosse para um episódio sobre comida. Lena, qual a sua relação com traição e por que isso é uma pauta hoje entre nós?

Lena Mattar: Bom, quando falamos em traição a primeira coisa que as pessoas pensam é traição amorosa, infidelidade, mas não é o meu caso. Eu tenho uma história de traição entre amigas, hoje em dia eu falo com muito mais facilidade. Eu cheguei a montar uma empresa com a minha melhor amiga da época, um belo dia, anos depois descobrimos que ela fazia uso do dinheiro da empresa para fins pessoais, então foi um baque muito grande, eu fiquei um bom tempo, emocionalmente, respirando com a ajuda de aparelhos.

Marcela Ceribelli: Bom, acho que esse é o segundo baque para quem está ouvindo a gente, esse papo não vai ser só sobre traição amorosa. Eu tenho traição amorosa, profissional, de amizade. Na minha vida foram três grandes traições que eu senti a dor que você citou, ela é meio física, né?

Lena Mattar: Ela é física. Acho que a traição tem graus diferentes, chega em um determinado nível em que ela nos abala tanto que ficamos sem chão, deprimidos, abalados, acho que é uma dor física sim, eu passei anos tendo pesadelos.

Marcela Ceribelli: Quando você fala de ficar sem chão é porque a lealdade que você deposita na pessoa é uma base que você tem, temos poucos pilares que nos levantam. Para ser uma traição, precisa ser uma pessoa em que confiamos a coisa mais valiosa que temos, então ela tem que ter acesso à nossa vulnerabilidade, intimidade, tinham acesso ao que não damos acesso para todo mundo. Todos temos um lugar mais íntimo e quando temos uma pessoa traiçoeira na nossa vida, parece que perdemos a base do que acreditávamos, mas a traição pode se dar em vários modos. Para você, o que é uma traição?

Lena Mattar: Para mim, a traição envolve uma mentira, viver uma mentira, mas ela também tem espectros, existem mentirinhas que não causam mal, mas a traição inclui um fingimento, tem um pacto emocional muito grande e vai abalar outras esferas da sua vida, no meu caso abalou a profissão, financeiramente. Então eu acho que é uma mentira profunda e que abala a sua estrutura.

Marcela Ceribelli: É legal você trazer o termo “pacto” porque a Maria Homem fala isso em um vídeo, existe uma diferença entre trair a confiança estabelecida em um pacto e simplesmente romper um pacto estabelecido. Romper um pacto não significa trair alguém, já que as pessoas mudam, então o “você prometeu” é uma cilada, mas é muito delicado de trazer isso na prática porque toda relação tem pactos quase invisíveis. Em uma relação profissional você não fala todos os dias “eu espero que você tenha ética”, em uma relação amorosa você não fala “isso aqui é monogâmico né? Só para ter certeza”, não, são pactos que você faz em um dado momento, mas algumas coisas estão subentendidas, você não acha?

Lena Mattar: Acho, sobretudo quando falamos, por exemplo, que as pessoas mudam, de fato elas mudam e que bom, se você prometeu para alguém que ia amar essa pessoa para sempre e não ama mais, não tem problema, avisa ela. O problema é você mudar e quebrar aquele pacto sem avisar, então a pessoa acha que está vivendo alguma coisa enquanto você está vivendo outra. Tem coisas que não mudam, a ética profissional, seus valores, a quebra dessa moral, no meu caso envolveu a quebra de questões legais, é mais difícil.

Marcela Ceribelli: Acho que quando falamos de amizade, é o lugar mais cinza que temos, os pactos são bem pouco definidos. Por exemplo, se uma amiga sua passa a ser bem próxima a uma pessoa que foi destrutiva para você, é traição?

Lena Mattar: Nesse caso eu não sei, acho que o desconforto é 100% compreensível, precisa ter uma conversa e depois de falar que essa pessoa te fez mal, foi destrutiva para você, o que vai importar é o que a sua amiga vai fazer com essa informação. Uma vez que ela escolhe seguir com essa relação, temos o direito de pensar se ela é mesmo a nossa amiga. Amizades também têm espectros, você tem colegas, amigos e pessoas íntimas e das pessoas íntimas podemos ter uma expectativa, esperamos mais respeito, lealdade, compreensão e acabamos esperando que elas tomem partido por nós, as nossas dores, acho que desse tipo de pessoa nós podemos cobrar essa posição.

Marcela Ceribelli: E até pensando da nossa parte, temos controle do que fazemos, mas nunca vamos saber de que jeito aquilo vai afetar o outro, às vezes a pessoa se sente traída pela gente, mas estava longe da nossa intenção, por isso eu sou a favor da comunicação. Por exemplo, eu estou em um relacionamento há 5 anos e tem um acordo, eu falo “Renato, no segundo em que sentirmos que queremos ficar com outras pessoas precisamos contar um para o outro, porque não podemos trair a nossa parceria”, muito mais do que ficar com uma outra pessoa, o que mais dói é sentir que em um período que você estava ali, viveu uma mentira, você olha para trás, para fotos e pensa será que ele já estava com a outra pessoa? O que estava acontecendo? E é muito feio, falando de relacionamentos monogâmicos, a mentira suja a história, você entende do que eu estou falando, sobre essa dor?

Lena Mattar: Entendo super. Quando tentamos definir o que era traição e falamos sobre ser uma mentira, eu olho para trás, mesmo no período em que não erámos sócias e não enxergo com os mesmos olhos, primeiro eu fico me perguntando que tipo de pessoa ela era naquela época, será que ela era a minha amiga? Quando isso aconteceu eu investiguei o passado, eu precisava saber, fui atrás de amigas em comum e no meu caso descobri que já existiam outros tipos de mentiras na época, achamos essas pequenas histórias e descobrimos que era uma questão de caráter. Eu olho para esse passado e não tenho uma alegria.

Marcela Ceribelli: Eu acho que tem um período de luto e adorei que você falou do seu processo de cura, você precisou caçar, investigar. Eu tenho uma tendência a deixar de lado e pensar só muito tempo depois, mas acho que todas essas traições abalam muito a nossa autoestima, cada uma em um lugar, a amorosa em um lugar mais óbvio, mas tudo abala a nossa relação com nós mesmos. Muito mais do que ficar a cicatrização da relação com essa pessoa que você elimina da sua vida, fica o que restou com você e recuperar a autoestima, a confiança no outro, acreditar que você vai voltar a ser amada, é um processo e leva tempo.

Lena Mattar: Total, eu fiquei muito tempo me martirizando, me culpando “como eu não vi antes? Como eu pude ser tão ingênua de não separar a amizade do trabalho? Como eu não percebi que aquelas coisas que eu via eram dicas da personalidade dela?”  Nós ficamos nos culpando, depois de fazer terapia por um tempo eu entendi que eu errei de ter confiado tanto, não ter me protegido, mas isso não é contra a lei, eu não fiz nada errado para ninguém, então eu parei de me culpar. Nesse processo de olhar o que uma traição dessa traz, tem a questão do futuro, onde eu estaria hoje se isso não tivesse acontecido? Se eu tivesse percebido antes?

Marcela Ceribelli: Eu estou lendo aquele livro “Talvez você deva conversar com alguém” e ela fala que todo rompimento é também o luto de um futuro perdido, porque estamos o tempo todo construindo futuros imaginários na nossa cabeça e quando acontece esse rompimento, você tem que viver o luto de algo que você tinha certeza que ia acontecer. E ela fala que você tem duas opções, ficar sofrendo por esse futuro perdido ou aceitar que ele não vai mais acontecer e enfrentar a dor do que aconteceu, então é sofrer pelo passado e não tentar resolver o futuro perdido, já era, acabou. E para relacionamento amoroso eu acho que é muito difícil, porque amamos fazer planos e de repente perceber que estava fazendo planos com uma pessoa que não era leal, você se sente uma idiota, mas você tem que ser gentil com você e lembrar que fez o seu melhor.

Lena Mattar: Eu falava muito disso na terapia, aquela era eu naquela época, nunca tinha passado por nenhum trauma e precisado desconfiar de pessoas, não tinha como eu fazer diferente, acho que chegar a essa conclusão aliviou o processo de entender que aquilo aconteceu e aceitar, refazer planos, ter a resiliência de começar de novo e lidar com o vazio que fica daquela pessoa que saiu da sua vida. Normalmente é isso, você só fica abalada porque aquela pessoa era muito importante e a partir do momento em que ela não está mais, você tem que lidar com essa perda. São vários lutos, da frustração, da perda da pessoa, eu tive o luto da empresa e você tem que empilhar vários pratinhos, acho que leva tempo.

Marcela Ceribelli: E você conseguiu voltar a confiar em pessoas nesse âmbito profissional?

Lena Mattar: Consegui. Eu sempre confiei nas pessoas, dou um voto de confiança e mantenho até que se prove o contrário. Em vários anos da minha vida eu só encontrei uma pessoa igual a ela, ela é exceção, acho que mais triste do que ter passado por isso seria não conseguir confiar nos outros de novo. E eu entendi que eu só consegui fazer isso porque tive pessoas ao meu lado, não gostaria de carregar esse trauma comigo para sempre, acho que confiar nas pessoas era parte da minha cura.

Marcela Ceribelli: Deixar de confiar nas pessoas é criar barreiras para que elas não te acessem nunca mais. As pessoas que te traíram não merecem que você se isole, que você siga a sua vida, tenha novas sociedades, relacionamentos, amizades que estejam dentro dos pactos que você tenha feito e que te façam feliz. Mas o que fica também é uma certa bagagem, você se vê mais esperta hoje em dia? Tem situações que você reconhece que podem dar problema?

Lena Mattar: Me vejo. Se eu passasse por isso e não aprendesse nada seria muito ruim, se é para ter essa experiência, que eu saia disso maior, mais forte e carregue lições para vida. Eu aprendi a confiar no meu instinto e que amigos são amigos e negócios à parte, sem me sentir culpada por partir do pressuposto que alguma coisa pode dar errada no meio do caminho.

Marcela Ceribelli: Várias bandeirinhas são levantadas ao longo das relações, mas é tão difícil você confiar em um pequeno sinal de que aquilo vai dar errado e precisamos confiar. Não estou falando que você precisa ser uma pessoa que desconfia de tudo e todos, mas sempre tem pequenas bandeirinhas te avisando que talvez a pessoa não era tão leal quanto esperávamos. Lena, chegou a hora de falar da traição que ninguém curte falar, que é a de nós mesmas. Quando conseguimos trair aquilo que acreditamos, quando dizemos que sim, mas queremos dizer não. Na sua opinião o que configura a traição de si mesma?

Lena Mattar: Acho que o processo de envelhecimento e ganhar autoconhecimento evita com que caímos nessas armadilhas de ir contra o que queremos fazer. A traição a nós mesmas é não ser honesta, às vezes contamos mentiras e nos traímos e a melhor cura para isso é o autoconhecimento.

Marcela Ceribelli: Tem uma matéria do Huffington Post mostrando quatro situações nas quais traímos a nós mesmas diariamente, quando nos comparamos com outras pessoas, quando fingimos ser alguém que não somos, quando olhamos para o outro querendo completar a nós mesmos e por fim, quando não vivemos e momento presente. Eu achei muito forte, porque é só mais uma terça-feira normal, traímos muito a nós mesmas.

Lena Mattar: São situações cotidianas, fazemos isso sem perceber e só vamos nos dar conta na hora que alguma coisa der errado e começarmos a sofrer. Quando estamos mais velhas identificamos os gatilhos e conseguimos agir antes, justamente por confiarmos em nós mesmas, nos nossos instintos. Ao mesmo tempo que é legal olhar para isso, é preocupante ver que temos tantos gatilhos assim.

Marcela Ceribelli: Legal que você traz a questão de amadurecer, o período que mais traímos a nós mesmas é na adolescência, no início do 20 e poucos anos, acho que tem a construção de identidade perante o grupo. Você é com quem você convive, o que escuta, onde vai e ao longo do amadurecimento você percebe que você é o que você é, mas enquanto não temos essa identidade bem definida, é normal fazermos pequenas traição no que acreditamos e pensar que deveríamos agir diferente. Acho que essas traições vão ficando um pouco mais leves quando você tem certeza do que é, do que acredita, o que acha errado. Eu já fui muito mais volátil em uma reunião entre amigos, por exemplo, se eu discordo de alguma coisa eu falo, mas as pessoas acham que por discordar precisamos ter uma discussão, mas não, eu só discordo, vamos seguir em frente.

Lena Mattar: E isso envolve uma questão de tolerância, sermos tolerantes com aquele que pensa diferente de nós e continuarmos encontrando as afinidades para manter as amizades em função disso. Acho essa intolerância é um grande mal dos nossos tempos, ou você é uma coisa ou outra, se você discorda em algum momento, não dá para ser amigo.

Marcela Ceribelli: Perfeito você falar sobre tolerância. Você lembra de algum momento da sua vida em que hoje você vê que traiu a si mesma?

Lena Mattar: Várias vezes, demorei para ser honesta comigo mesma sobre o que eu queria fazer da minha vida profissional. Eu sempre fui uma pessoa mega indecisa na escola, mas acho que eu sempre soube que queria trabalhar com gastronomia, nunca me ocorreu estudar gastronomia porque naquela época não era muito corriqueiro. Acho que se eu tivesse sido mais honesta comigo mesma, talvez eu tivesse feito um caminho menos tortuoso, hoje eu trabalho com que eu gosto, mas foram anos para chegar até aqui.

Marcela Ceribelli: Quando eu te fiz essa pergunta, fiz a reflexão comigo mesma. Na minha primeira crise de pânico, que eu fui parar no hospital, percebi que estava vivendo para trabalhar e não trabalhando para viver, então senti que tinha me traído miseravelmente, porque eu amo meu trabalho, mas eu amo viver e amo todos os prazeres da vida. Tenho muita consciência do privilégio que é estar viva, de estar conscientes que estamos vivos, mas entendo que trabalhar desproporcionalmente estava conectado com o lugar da síndrome da impostora, eu precisava trabalhar muito para provar que eu merecia estar ali, que está conectado com a traição profissional, eu precisei provar que eu merecia estar nesse lugar. Hoje eu entendo que o caminho me trouxe a um lugar muito bom, mas poderia ter sido um pouco mais leve. Você vê que a conta chega muito mais tarde para pessoas como eu que tampam a panela, então se você está ouvindo agora, siga o conselho da Lena, investigue, entenda e reconheça o trauma, porque a conta chega. Quanto antes você resolver aquilo dentro de você, melhor.

Lena Mattar: Não que seja uma coisa gostosa, no começo que não conseguia falar sobre essa história, não é um processo gostoso, mas foi essencial para que eu estivesse onde eu estou hoje. Acho que investigar as coisas é muito importante, fazer terapia ajuda muito em casos de traição e auto traição, vamos aprendendo sobre nós mesmas e eu descobri que as minhas auto traições facilitaram a traição dessa pessoa. Temos que abraçar a dor, sem sofrer não tem cura.

Marcela Ceribelli: E de uma maneira prática, você tem um conselho para quem está vivendo a dor de uma traição nesse momento? Quais são os primeiros-socorros?

Lena Mattar: Em um primeiro momento eu me fechei, não contava a história para ninguém, não queria sair de casa e acho que ficar calada foi uma das piores coisas, eu fiquei remoendo aquilo internamente. Conversar sobre isso é muito importante, o processo de verbalizar nos ajuda a elaborar, ao contar a mesma história várias vezes eu ia me dando conta de outras coisas, me curando. E conforme eu fui contando a minha história, outras pessoas me procuraram, elas se identificaram porque passaram pelos mesmos problemas e você entende que além de se curar, você pode ajudar os outros nesse processo. Se alguém está vivendo isso agora, respira fundo, encontre as pessoas com quem você possa conversar e colocar para fora, se você tiver condições, procure um terapeuta.

Marcela Ceribelli: Um conselho que eu quero deixar, que veio da terapia, perdoe primeiro a si mesma. Muito da dor é porque a gente sofre e insiste em questionamentos tipo “como eu permiti que isso acontecesse? Como eu pude confiar nessa pessoa?”. Se perdoe, você fez o melhor que podia com o que sabia naquele momento, agora você é uma outra pessoa e não existe nenhuma quantidade de culpa e remorso que vai mudar o que aconteceu, mas você pode colocar uma energia tremenda para colocar esse presente, como você vai construir relações melhores, entender os gatilhos. O que passou, foi. Se perdoa, não seja a sua pior inimiga, se pergunta o que a sua melhor amiga te falaria nesse momento, acho que às vezes nós somos a pior pessoas para falarmos de nós mesmas.

Lena Mattar: Esse processo de ser gentil consigo mesmo não é fácil, nós nos cobramos muito, vivemos em uma sociedade que nos faz operar dessa maneira, temos que ser o melhor profissional, filho, a melhor mulher, o melhor tudo e quando alguma coisa dá errado ficamos nos perguntando onde erramos. Às vezes o erro não é seu, ou você tem uma parcela de culpa, mas acho passar pela vida sem ter um tipo de experiência assim é muito difícil e ficar se martirizando não vai te levar em nenhum lugar bom. Quando falamos de traição, outro assunto que aparece muito é a vingança, lendo sobre isso eu percebi que a melhor vingança é você ser feliz de novo, refazer a sua vida e encontrar um lugar ainda melhor do que você tinha. Além de me curar, eu posso provar para mim e para a outra pessoa que eu sou capaz de reconstruir tudo aquilo.

Marcela Ceribelli: Lena, fiquei um pouco emocionada, achei muito bonito o que você falou, a maior vingança é ser feliz. E a vingança está conectada com o seu ego, na hora de dor e de trauma, não se conecte com essas energias mais baixas, é um bom momento para se espiritualizar. Eu sei que é foda, mas não é a hora de se conectar com essas energias tão ruins e quando você vê que uma pessoa está nesse lugar, é muito importante você perceber que na história da humanidade, nada de lindo, transformador, bom, foi construído com energias baixas, então vibra em outro lugar.

Lena Mattar: Eu olho a minha história hoje e penso “ainda bem que essa traição aconteceu e eu descobri”, porque foi um jeito de tirar essa pessoa da minha vida, foi um processo doloroso de tirar um câncer da minha vida. Acho que trair é o modus operandi de algumas pessoas, é normal e quando vemos as histórias, percebemos que essa pessoa já traiu antes e vai continuar traindo. É como você falou, temos que nos espiritualizar e ver que a vida expulsou aquela pessoa de mim, que bom. O mal que essas pessoas causam, nem sempre é um mal físico, uma violência. Você entende que tem várias pessoas causando esse mal, são pessoas que se atraem por poder e só pensam em si e que algumas delas são psicopatas, eu entendi que para ser psicopata não precisa ter uma faca na mão, são pessoas comuns.

Marcela Ceribelli: Faz todo sentido, até porque os psicopatas são sedutores, estão cercados de um grupo de amigos que adoram eles, pode ser pessoas que estão sempre em relacionamentos amorosos. Para finalizar, você vai escrever em um papel, com grafite, “livramento” e vai colocar na sua geladeira, para você lembrar todos os dias. Lena, você acha que pode ser uma técnica?

Lena Mattar: Acho que sim, justamente, porque a tendência é a gente colocar na gavetinha e não querer lembrar disso. Alguma coisa te forçar a pensar, elaborar, é uma construção, de pouquinho a pouquinho, você não vai acordar um belo dia e aquilo vai ter sumido da sua vida, então coloca em um papel, escreve em um diário, mas tira de dentro de você.

Marcela Ceribelli: Foi perfeito. Obrigada demais.

Lena Mattar: Eu que agradeço, é mais uma oportunidade de colocar para fora o que já está resolvido dentro de mim, mas ao mesmo tempo tenho prazer de falar sobre isso porque sei que tem muitas pessoas vivendo esse trauma, é importante falarmos sem ter vergonha. A meta é ser ainda mais feliz do que a gente era antes de isso acontecer. Obrigada pelo convite.

Marcela Ceribelli: Muito obrigada a você também, que nos escutou até aqui, mas a nossa conversa não tem fim. Continuamos semanalmente na nossa Newsletter que você pode se inscrever no www.obvious.cc , no Instagram @ObviousAgency e com comentários e sugestões sempre com carinho no [email protected] . Bom dia, Obvious.

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