OBVIOUS

Relacionamento de mentira


Era uma vez um cara. Ele era bonito, legal, tinha um metro e muitos centímetros, e um sorriso charmoso que tendia para o lado esquerdo do rosto. Estudava alguma coisa que envolvia contas, mas não gostava de perguntar sobre isso pra ele porque ele sempre dificultava a conversa quando ia falar de assuntos intelectuais. Me sentia muito burra quando tentava. Mas tudo bem, não é bem esse o foco da história. Conheci ele quando tinha 23 anos, em um bar no centro da cidade. Chegou perto de mim, comprou uma bebida rosa com laranja que não me lembro o nome e me falou que eu era a mulher mais bonita dali. Sinceramente? Eu sabia que ele não achava aquilo. Mas escolhi acreditar.

Confesso que essa é a frase que mais bate na minha mente até hoje.

Foi a partir daquele momento que eu permiti que começassem as mentiras, uma atrás da outra. Porque era mais fácil acreditar nelas, não era? Eu era muito nova. Tinha sonhos, desejos, e uma bagagem enorme de traumas que me fizeram ter a autoestima baixíssima. Quando um homem como Rodrigo aparece dizendo que vai te levar para Moscou no aniversário de 1 ano de namoro, essa mulher insegura – eu – se permitiu ficar em um relacionamento fadado ao fracasso. Não por interesse – eu era nova, mas podia bancar uma viagem sozinha -, e sim por esperança de um dia receber o que havia sido negado a minha vida inteira: amor.

Com 23 anos eu havia namorado 3 vezes. Duas vezes foram no período da faculdade, uma vez foi no ensino médio. Sabe quando você sente que uma relação acontece simplesmente para te preparar para a “relação principal da sua vida”? Esses três namoros tinham esse gostinho. O que é engraçado, porque eu sentia que a relação principal da minha vida era com Rodrigo, e eu praticamente tive que implorar para assumirmos um namoro público. “Não gosto de rótulos”, ele dizia. Eu, achando que estava pedindo demais e não estava respeitando o momento dele, me permiti ficar nessa situação por uns 6 meses. Até que os meus amigos me viram chorando nas festas, fugindo de pretendentes, angustiada e confusa Bia, minha amiga de infância, foi a primeira a se afastar de mim.

– Tô te vendo nessa situação faz muito tempo, Joana – ela disse antes de sair do meu apartamento em uma noite chuvosa de abril. – Você era feliz, você brincava, dançava, bebia, curtia. Hoje, você vive a mercê da aprovação de uma pessoa que nem sequer te assume.

– Ele ainda não está pronto… – falei baixo. O tom de voz espelhava a minha insegurança ao falar aquilo.

– Ok. Não aguento mais te ver assim. Me perdoe – e foi embora.

Ela foi apenas uma das muitas pessoas que Rodrigo tirou de mim. Fábio, meu primo, também se afastou repentinamente. Hoje desconfio que Rodrigo possa ter feito algo. Alguns colegas de trabalho pararam de tirar brincadeiras comigo também – eu gostava muito deles, faziam os minutos no escritório passarem mais rápido. Até meu pai parou de falar comigo por um tempo. Nessa fase, Rodrigo já havia assumido nosso relacionamento e eu havia apresentado ele para toda a família. Ninguém o engoliu, mas a única pessoa que ficou do meu lado foi a minha mãe.

– Não vou te abandonar – ela dizia. – Mas isso não quer dizer que eu esteja feliz com esse relacionamento.

No Facebook, Rodrigo não publicava muitas fotos comigo. Todo dia de manhã eu entrava lá pra ver se ele tinha pelo menos curtido alguma publicação minha. Me sentia muito idiota em querer uma coisa tão “fútil”. Afinal, era só rede social… ele estava comigo, então, tudo bem. Só que ele começou a postar muitas fotos sozinho, e nessas fotos haviam muitos comentários de mulheres desconhecidas.

– Ela é do meu trabalho, Joana – ele disse enquanto assistia TV. Não parou de olhar o jogo um segundo, nem para me dar uma resposta rápida olhando no meu olho. – Você vai ficar louca se quiser controlar todas as curtidas e comentários de mulheres que conheço.

– Não quero controlar, Rodrigo. Só quero saber quem é. Ela comentou algo muito pessoal…

“Foi muito bom te encontrar na sexta-feira! [emoji de sorrisinho]”

– Eu não posso mais ter amigas?

– P-pode. Eu também tenho… amigos – gaguejei porque sabia que aquilo não era mais verdade. Eu tinha, vários. Mas depois de tanto tempo com Rodrigo, o meu único “amigo” era ele.

– Que amigos você tem? Você anda saindo com homens?

Era sempre assim. Toda vez que eu tentava pedir o mínimo de respeito, ele virava o jogo e me fazia sentir culpada. Gritava, dava soco na parede, era agressivo, mas nunca tocou um dedo em mim.

Acho que se ele tivesse feito isso, eu perceberia com mais facilidade que estava vivendo um relacionamento abusivo.

Dois anos de “namoro”. Não fomos pra Moscou no primeiro, muito menos no segundo. Ele me deu um buquê de flores amarelas e postou uma foto no Facebook me abraçando de lado. “Obrigado por tudo” – essa foi a legenda. Odeio admitir, mas essas coisas de rede social mexiam muito comigo. O que eu podia fazer? Nunca havia sido assumida e tratada bem de forma pública. Queria muito isso. Ver aquela foto com aquela legenda me deixou arrasada. No dia, disse que estava doente e precisava ir para a casa da minha mãe. Queria passar o dia chorando sem ter que me esconder no banheiro para ele não ver e ficar bravo.

– Reservei uma diária em um hotel pra gente. Você não quer ir? – Rodrigo falou enquanto finalizava o seu almoço. Isso me deixou feliz, talvez o post fosse só um fingimento. Eu sorri.

– Eita, ok. Vamos, então.

Arrumei as minhas coisas e fomos. O hotel era bonito, o quarto também. Quando finalmente nos estabelecemos, eram oito da noite. Ele entrou no banheiro. Pensei em ir atrás, talvez pudéssemos tomar banho juntos, mas ele fechou a porta antes mesmo que eu me levantasse da cama. Tudo bem.

Bzz-bzz.

Olhei pro lado e o celular dele estava aceso. Devia ser alguma mensagem de trabalho.

Bzz-bzz. Bzz-bzz. Bzz-bzz.

Alguma coisa estava me deixando inquieta. “Olhe”, o meu subconsciente dizia. “Olhe o celular”. Não queria ser o tipo de namorada ciumenta, ele abominava isso. Mas, daquela vez, me permiti seguir a minha intuição.

“Carlos – Mensagem oculta”

10/06. Aniversário do cachorro dele. Celular desbloqueado.

Quando o celular desbloqueou, abriu direto na página inicial do WhatsApp. Carlos tinha uma foto de mulher no perfil. Uma mulher loira, muito bonita. Cliquei.

A mensagem mais recente era “você está com ela, né?”. Foi difícil de ler as outras, porque meus olhos encheram de lágrimas e meu corpo começou a tremer. Mas segui em frente. Precisava ver tudo. Nudes, mensagens de encontro, mensagens dizendo que eu não era nada, e outras formas de cortarem meu coração em pedacinhos. Naquele momento, não conseguia nem respirar direito. O som do chuveiro forte ecoava na minha mente enquanto eu via o “Online” daquela mulher que com certeza não se chamava Carlos.

Carlos. Havia ouvido aquele nome diversas vezes. “Não posso falar agora, Carlos. Estou almoçando com Joana”, “Mais tarde eu passo na sua casa, Carlos”, “Oi Carlos, eu já mandei o dinheiro”.

Tudo fez sentido. Pensei em mandar uma mensagem para mulher, mas o que eu ia dizer? Pensei também em entrar no banheiro e tacar o celular na cabeça dele. Pensei, pensei, pensei. Mas simplesmente peguei a minha bolsa, peguei a chave do carro e fui embora o mais rápido possível. O carro era meu.

Quando cheguei na casa da minha mãe, contei tudo. Ela não falou nada, simplesmente me ouviu. No começo, falei do acontecido com a mulher de codinome Carlos. Mas após uns minutos, me vi falando sobre todas as coisas ruins e sobre todas as mentiras que rodearam o nosso relacionamento. Re-la-cio-na-men-to. Ela não precisou dar um piu. Tudo estava saindo de mim involuntariamente, como vômito mesmo.

Rodrigo mentia para mim quando voltava tarde. Mentia quando falava dos amigos e das namoradas deles que eu nunca conheci. Mentia sobre o futebol, sobre as viagens de trabalho. Mentia até de coisas bobas, tão bobas que eu me sentia mal de achar que ele teria coragem de mentir sobre aquilo. Ele mentiu uma vez até que sabia tocar violão. Mas a principal mentira era a que mais doía: ele mentiu que me amava.

Amor não combina com mentira.

Faz 2 anos desde o dia do hotel. Depois daquele dia, Rodrigo me ligou, postou foto comigo, mandou mensagem – aí eu o bloqueei. Só o encontrei uma única vez, quando entreguei todas as coisas que ainda estavam no meu apartamento e exigi a chave extra que eu havia deixado com ele. Não que a chave fosse funcionar, porque eu troquei a fechadura. Foram meses difíceis depois que ele foi embora. Chorava todos os dias, principalmente na hora do almoço. Parar pra comer mesmo sem fome e ter que mastigar sozinha enquanto olhava para a cadeira que ele sentava era aterrorizante. Aquelas mentiras que eu percebi no dia da conversa com a minha mãe foram só o começo. Passei alguns meses percebendo coisas. Na verdade, até hoje eu me pego relembrando acontecimentos e percebendo novas mentiras. Depois de dois anos longe de Rodrigo, consigo rir, porque tem coisa que parece piada. Sério.

No entanto, eu precisei de dois anos, muitos choros, muitos quilos a menos, muita terapia e apoio para chegar na plenitude que alcancei hoje. Até agora não consegui me envolver afetivamente com ninguém. Uns beijos aqui, umas noites em camas alheias ali. Amigos? Aos poucos os meus foram voltando. Sempre com um “eu te avisei”, e eu sempre respondendo com um “é… avisou mesmo”. Falando assim agora, parece que foi fácil. Mas não foi. Cada dia parecia um século, e cada ferida parecia a dor do parto – não que eu saiba o quanto dói ter um neném, nunca tive.

No fim das contas, eu saí. Saí daquela mentirada toda, saí do “relacionamento” com Rodrigo. Não sei por onde ele anda, mas fiquei sabendo que se mudou para fora do país. Será que foi Moscou? Não importa.

De vez em quando me pego pensando no dia que ele me pagou a bebida e mentiu pra mim pela primeira vez. “Você é a mulher mais linda daqui”. Ele mentiu. Mentiu de verdade. Não porque eu não era, de fato, mas porque eu havia visto ele tentar conversar com umas três mulheres antes de mim, todas sem sucesso. Comigo aquela cantada colou porque eu estava triste, fraca, insegura e querendo me agarrar em qualquer meia-verdade que alguém me dissesse. De fato, eu era a mulher mais bonita dali, mas não porque ele me disse. Eu simplesmente era, e hoje eu acredito nisso, sem precisar que homem nenhum me afirme nada.

Quando você acredita na sua verdade, ninguém consegue te enganar. E foi vivendo uma grande mentira que eu aprendi a acreditar em mim mesma.

9 thoughts on “Relacionamento de mentira

  1. Dani says:

    Que texto forte. Me vi no lugar dela. Muito ruim ouvir mentiras. E depois de viver um relacionamento tóxico e fazer muita terapia, as mentiras são vistas com mais clareza. Confiar em si mesma é libertador.

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