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Quais amizades ficam? Com Afetos Podcast


mensagem final dos artigos da Obvious

Marcela Ceribelli: A-mi-za-de. Tá aí uma palavra comum que possui um significado mais comum ainda. Convenhamos: entre filmes, séries, livros e praticamente todas as histórias que nos contaram até hoje a heroína tem sempre, pelo menos, uma grande amizade. Mas o que essas narrativas também contam é que aquela pessoa é capaz de nos dar todas nossas necessidades dentro dessa relação. Os melhores rolês, os melhores conselhos, os melhores puxões de orelha e a maior confiança. Isso, claro, exigindo o mínimo esforço de ambas as partes. Mas se você só de me ouvir falar isso já deu uma risadinha, é porque sabe: as amizades exigem esforço e se esperarmos todas essas caixinhas de uma mesma pessoa, a frustração é o destino certo. Mas afinal, o que faz uma relação superficial se tornar uma amizade verdadeira? Teria como uma amizade verdadeira recuar para uma relação superficial e a gente nem notar? Enquanto investigamos essa resposta, o melhor que podemos fazer é aceitar a falta de resoluções e sempre que alguém perguntar porque somos amigos de uma pessoa, calçar os sapatos da resignação e usar as mesmas palavras do filósofo francês Michel de Montaigne: “porque é ela e porque sou eu”. Bom dia, Obvious. Eu sou Marcela Ceribelli, CEO e diretora criativa da Obvious e aproveitando a atmosfera reflexiva desse início de ano, hoje converso sobre amizades com Gabi Oliveira e Karina Vieira, do Podcast Afetos.

Marcela Ceribelli: Gabi e Karina, muito bom dia e obrigada por terem topado participar. Como vocês estão hoje?

Gabi Oliveira: Eu estou bem

Karina Vieira: Oi, gente. Eu estou bem.

Marcela Ceribelli: Bom, vocês apresentam o Podcast Afetos e eu queria que vocês contassem um pouco do programa e se apresentassem. Vamos começar pela Karina.

Karina Vieira: Eu sou Karina Vieira, tenho 36 anos, filha da dona Regina, sou comunicadora de informação, leitora ávida, trabalho em uma livraria, sou ativista, gosto muito do trabalho que fazemos no Afetos. Acho importante destacar que tem uma rede de afeto, tenho uma rede de amigos incrível e nesse momento que as relações estão mais esgarçadas, saber que eu tenho eles têm me mantido sã, a amizade é extremamente importante para não surtar.

Marcela Ceribelli: E você Gabi? Conta um pouco sobre você e o Afetos?

Gabi Oliveira: Sou Gabi Oliveira, tenho 29 anos, sou comunicadora social e criadora de conteúdo para internet desde 2015. Comecei canal no Youtube, crio conteúdo para o Instagram e em 2019 iniciamos essa trajetória incrível com o Afetos, um Podcast para falar sobre as nossas subjetividades, me apresento como ativista e no Afetos temos um lugar de mulheres falando sobre si e suas questões, ele traz uma sensação aconchegante e mais libertadora, pelo fato de a pessoa não ver o seu rosto. Tem coisas que eu nunca me senti à vontade de falar em outras mídias e me sinto bem em falar no Afetos, estamos construindo uma comunidade incrível, com muitas trocas.

Marcela Ceribelli: E além de tudo vocês são muito amigas. O tema do nosso episódio é amizade, mas ele faz parte do nosso especial de início de ano sobre fazer escolhas. Como podemos saber quais amizades queremos investir, manter ou até afastar da nossa vida? E depois de sairmos vivas, porém não ilesas de 2020, como você, Gabi, enxerga esse balanço de pessoas na sua vida?

Gabi Oliveira: Primeira coisa que eu quero falar é que sou capricorniana com ascendente em aquário, sou um pouco mais reservada. É difícil eu chamar alguém de amigo. No meu consciente de amizade, amigo é aquela pessoa que você sabe que pode contar, isso não quer dizer que você precisa estar com a pessoa o tempo todo e conversar todos os dias, mas eu me sinto amiga de quem eu sei que posso contar em uma emergência. Na pandemia, pelas relações terem se tornados virtuais e por termos passados por momentos de dificuldade, foi um evento que selecionou as amizades, eu já não tinha muitos amigos próximos, então não tive essa seleção tão forte.

Marcela Ceribelli: Acho que muitas vezes pensamos que ter uma vida social agitada faz com que você seja uma pessoa que tem muitos amigos, até porque foi se criando esse imaginário de um grande grupo de amigos. Mas sabemos que existem pessoas que estão cercadas de amigos e ao mesmo tempo se sentem sozinhas. Queria saber de você, Karina, o que define que uma pessoa entrou para a categoria de ser sua amiga?

Karina Vieira: Há alguns anos eu conversei com a minha gerente, que tenho uma amizade muito forte e lembro de ter falado que sou uma pessoa aberta para as outras pessoas e consigo separar de quem é meu amigo e quem não é por quem já me viu chorando, são poucas as pessoas que já me viram chorando. Separo os meus amigos nessa categoria, se eu já me abri a ponto de mostrar uma fragilidade minha, você pode ser considerado o meu amigo.

Marcela Ceribelli: Demais você trazer isso. Eu li recentemente, uma reflexão sobre o propósito da amizade em que falam que se as amizades fossem baseadas nas relações superficiais, a gente acharia que somos os únicos loucos, porque quem conhecemos superficialmente, só sabemos do que a pessoa quer mostrar para o mundo, que é muito diferente do que a pessoa é na sua intimidade. Então nas relações íntimas, mostrar vulnerabilidade faz com que a gente se sinta menos sozinho no mundo. Queria saber de você, Gabi, você acha que dá para chamar de amigo alguém que você se sentiria julgada se conhecesse a sua intimidade?

Gabi Oliveira: Acho que sim. Eu sou uma pessoa que julga os outros, mas tem formas de falar, não conseguiria considerar como amigo uma pessoa que me faça me sentir muito mal. Na minha relação com a Karina, já passamos por situações que ela me contou alguma coisa e ela sabe que a minha opinião era diferente e eu respeito as atitudes e decisões delas. Mas esperar que o outro não te julgue é colocar a amizade em um lugar divino, não existe essa relação.

Marcela Ceribelli: Eu acho que tem uma ilusão que na amizade não pode ter confronto. Então você se cerca de pessoas que só concordam, mas temos que falar para as pessoas que não concordamos com algumas atitudes dela e ela pode contar com a nossa amizade, se não falarmos os erros dela, não crescemos juntas.

Gabi Oliveira: Eu concordo. Eu prezo muito por amizades que me falam a verdade. Por trabalhar com as redes sociais, eu recebo muitos elogios e é importante ter gente do meu lado que consegue colocar o meu pé no chão, eu prezo muito pela sinceridade na amizade e sinceridade gera conflitos, não significa brigas, xingamentos e bloquear o outro.

Marcela Ceribelli: Eu concordo, inclusive o tema desse episódio veio de uma conversa de um dos meus amigos que eu mais discordo, o Luiz Arruda, mas é a nossa maneira de crescer juntos. Quando ele me falou sobre esse possível tema, me mandou um vídeo que fala que para tentarmos evitar as possíveis frustrações com as amizades, temos que entender que cada amizade tem o seu propósito e que existem alguns tipos de amigos. Amigos para relaxar, amigos conselheiros, amigos que temos conversas profundas e aqueles amigos que ficam orbitando. Acho que pode parecer um pouco grosseiro colocar amigos em caixinhas, mas a conclusão desse vídeo é que talvez seja útil entender que o que uma amiga pode te dar naquele momento é um bom rôle e não uma conversa profunda. O que vocês acham?

Karina Vieira: Eu super concordo e foi muito difícil chegar a essa conclusão. Sempre achei que todos os meus amigos estivessem na mesma categoria, até que três anos depois da minha graduação, eu percebi que os meus amigos da graduação tinham saído da minha vida e não estavam fazendo falta, vi que eram amigos sazonais, do tempo da faculdade. Então eu acredito que tenham amigos para determinadas situações, amigos para dar rôles, assim como tem amigos que eu vou convidar para ir à minha casa para eu chorar no colo por meia hora. Por mais duro e difícil que seja, existem um lugar determinado em que as amizades se encaixam. Fizemos um episódio sobre frequência afetiva, que é como certos amigos vão te demandar mais coisas, tem amizades que precisam ser cultivadas todos os dias.

Marcela Ceribelli: E para você, Gabi?

Gabi Oliveira: Eu concordo plenamente. Sou uma pessoa que consegue passar um longo período de tempo sem falar com alguém. Acho que é importante entendermos que ninguém é capaz de suprir todas as nossas necessidades. Fizemos um episódio sobre monogamia e não monogamia, uma das coisas que eu considero válida é romper com a ideia de que uma pessoa pode ser o melhor para você em tudo. Isso traz uma carga sobre o outro que não precisa e também não precisamos trazer sobre a gente, de ser a melhor amiga, terapeuta, amante. É bom termos vários tipos de relações para não sobrecarregar ninguém.

Marcela Ceribelli: É um alinhamento de expectativas, que é uma ciência para evitar a frustração. Eu sempre digo que a responsabilidade é um pouco minha, se eu me decepcionei, porque o outro não é obrigado a cumprir com as minhas expectativas. Acho que existe um desequilíbrio entre o que esperamos dos outros e o que eles podem nos dar. No final do ano passado, eu li um tweet genial falando sobre o caos emocional, falava que todos estão precisando mais do que podemos dar nesse momento. Então ter um pouco de cada pessoa possa fazer mais sentido do que depositar uma carga imensa no outro, porque no final isso vai dar problema e talvez seja uma estratégia para não eliminarmos uma pessoa tão facilmente das nossas vidas.

Karina Vieira: Passei por um episódio em 2016, que foi a morte da minha mãe e eu mandei para os meus amigos quando seria o enterro, muitas pessoas foram e durante um período eu usei essa régua para definir quem eram os meus amigos, porque eu passei pela maior dor que eu poderia passar, então quem era meu amigo era quem estava lá naquele dia. Mas quatro anos depois, eu percebo que muitas pessoas estavam ali porque puderam estar e não porque são meus amigos, algumas pessoas não conseguem estar nesse ritual de despedida e está tudo bem, as pessoas me dão o que elas conseguem me dar. Temos que nos responsabilizar mais sobre o que esperamos dos outros.

Marcela Ceribelli: Bom, independente dessas categorias, tem alguns dados que provam que as amizades não são só um carinho e que elas fazem bem para nossa saúde. Um estudo australiano que durou dez anos, descobriu que pessoas mais velhas com um grande círculo de amigos tinham 22% a menos de probabilidade de morrer naquele período do que aquelas com menos amigos. E um segundo estudo em 2006, com três mil enfermeiras com câncer de mama, descobriu que mulheres sem amigos íntimos tinham quatro vezes mais chances de morrer da doença do que mulheres com dez ou mais amigos. O que eles falam é que a proximidade e o nível de contato deles não contava muito, bastava eles existirem. E eles finalizam com uma certa polêmica, dizendo que ter um parceiro ou parceira amorosa não estava associado à essa sobrevivência. E é tão comum as pessoas se afastarem dos amigos quando elas entram em um relacionamento amoroso, elas perdem em dobro. Como que vocês lidam quando uma amiga se afasta porque entrou em um relacionamento amoroso? Pode voltar quando quiser ou vale aquele puxão de orelha?

Karina Vieira: Na verdade, eu sou a pessoa que faz isso. Admito com uma dor no coração, geralmente quando eu entro em uma relação amorosa é porque eu estou muito apaixonada e fico cega. Mas tenho amigos muito compreensíveis, a ponto de me dar puxões de orelha de uma forma respeitosa e sincera.

Marcela Ceribelli: Eu amei essa honestidade. Acho que eu só não sou a pessoa que se afasta dos amigos porque eu sempre puxei os meus relacionamentos para os meus núcleos de amizade, então eu afasto a pessoa dos amigos dela. Mas é importante entendermos os nossos limites e eu queria saber de cada uma de vocês, qual é o limite, a linha que não pode ser ultrapassada, o que é inadmissível para vocês em uma amizade?

Gabi Oliveira: Da última vez que eu deixei de considerar uma pessoa a minha amiga foi quando eu não tinha um lugar para dormir, a pessoa tinha e falou que não me aceitaria com a minha cachorra e era só por uma noite. Eu acho que essa sensação de não poder contar com alguém é doloroso, perceber que essa pessoa não tem um cuidado comigo e com a nossa amizade.

Karina Vieira: Para mim é a falta de respeito, no sentido de você achar que tem uma relação de igualdade com aquela pessoa, bse não existe esse cuidado e todas as vezes que conquistamos alguma coisa e a pessoa te critica e não celebra com você essas conquistas, acho que temos um grande problema. Eu estou aberta a conflitos, acho que ele gera mudanças, mas em uma rede de amizades, a base é o respeito e o cuidado.

Marcela Ceribelli: É muito difícil eu deixar as pessoas chegarem em um lugar de amizade a ponto de me conhecer em um lugar mais vulnerável, eu não sou uma pessoa de muitos amigos. Selecionei bem as pessoas que vem na minha casa, não brinco de amizade, para mim tem uma questão de confiança, eu detesto fofoca, então se eu te conto algo íntimo meu e você conta para alguém que não é desse círculo de confiança, é impossível você voltar a ser a minha amiga nesse lugar de antes. É um lugar que eu me sinto muito traída.

Gabi Oliveira: Eu não posso me colocar nesse lugar de que eu odeio a fofoca, até falamos sobre isso em um episódio no Afetos e que existe uma ética da fofoca. Mas nesse caso eu não considero fofoca, você contar um segredo e essa pessoa espalhar, é quebra de confiança.

Marcela Ceribelli: Vocês são muito maravilhosas e sinceras, foi muito bom falar com vocês. Então para finalizarmos, o que dói mais, a fossa do amor ou a fossa da amizade?

Karina Vieira: Eu sou uma pessoa extremamente romântica, então fossa de amor me deixa no chão, mas existe uma amizade que eu desfiz e lembro até hoje, fossa de amizade é muito ruim. E não estou falando de coleguismo, estou falando de abrir a sua vida para alguém, botar essa pessoa dentro da sua família e ela te apunhalar pelas costas, para mim, a mesma dor que a fossa de um amor traz, é a mesma da fossa da amizade.

Gabi Oliveira: Eu fiquei bem na dúvida, normalmente sou eu que vou embora, então acho que a mágoa deve ficar com a outra pessoa. Acredito que as dores de amor foram mais intensas, às vezes quando terminamos uma amizade nem falamos sobre isso, não tocamos nesse assunto, ao contrário do que em um relacionamento romântico, que tratamos mais.

Marcela Ceribelli: Excelente reflexão, quando terminamos um relacionamento vamos na terapia, chamamos os amigos e a fossa da amizade é muito mal resolvida, não sabemos o passo a passo daquilo. Eu acho que os dois doem muito, mas a fossa da amizade fica uma dor mal resolvida. Gente, muito obrigada, eu amei conhecer e conversar com vocês.

Gabi Oliveira: Foi um prazer, o tema foi incrível.

Karina Vieira: Gosto muito do Bom dia, Obvious, já escutava e fiquei muito feliz com o convite. É isso, uma troca com a escuta ativa é muito confortável para mim, o podcast é sempre um local que eu conto os meus segredos inconfessáveis. Obrigada pelo convite, foi muito bom participar desse episódio.

Marcela Ceribelli: Muito obrigada também a você que escutou até aqui, mas a nossa conversa não tem fim, continuamos semanalmente na nossa Newsletter que você pode se inscrever no www.obvious.cc  no Instagram @ObviousAgency e com comentários, sugestões sempre com carinho no [email protected] ! Bom dia, Obvious.

 

Clique na imagem para escutar o episódio <3

 

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