OBVIOUS

O café dos relacionamentos: como limpar o palato após um término?


Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar. Assim começa Dias de abandono, da Elena Ferrante, e foi exatamente o que aconteceu comigo. Exceto que era fevereiro, era namorado e, em vez de falar enquanto a gente tirava a mesa, foi por uma mensagem no WhatsApp que dizia a mesma desculpa do livro: estava confuso, vivia maus momentos de cansaço, de insatisfação, talvez de covardia. Eu vi a mensagem na hora, e deixei os dois símbolos em azul para deixar claro que eu tinha, sim, visto a mensagem, e estava, sim, tentando meter um ghosting, embora, óbvio, não fizesse mais sentido, já que ele já tinha terminado tudo.

A pandemia não tinha começado e eu podia, ainda bem, fazer aquilo que eu chamo, com muito mau gosto, de limpar o palato: transar com alguém o mais rápido possível. Um gengibre, um café entre relacionamentos, sabe? Tinha sentido muita falta da paquera, mas daquela paquera que vai te levar a algum lugar, de preferência pra cama. No segundo em que li as mensagens do recém tornado ex, baixei o Inner Circle e comecei a curadoria do meu museu próprio, cada foto com a respectiva legenda: no lugar de Mona Lisa, óleo sobre tela, 77 x 53 cm, Museu do Louvre, estava Nome, Profissão, Altura e Cidade. E foi assim que apareceu Alex, um ator de quarenta e poucos anos cujo currículo curto talvez discordasse do aposto profissional.

O like foi mútuo e rápido, e naquela semana estávamos em um bar na Santa Cecília. Eu tinha esquecido como podia ser charmosa, um sorrisinho quase safado entre os goles de um drink que era basicamente uma margarita com nome mais cool.

– Me conta mais sobre o seu trabalho – perguntei.

– Eu tenho ficado um pouco… tentando explorar o lado artístico, entende? Expressar mais do que eu sinto na forma como atuo, entende?

Ele tinha mania de falar “entende” depois das frases e, spoiler, mais tarde, na casa dele, ele me fez assistir a um filme experimental de 32 minutos em que ele era o protagonista, e pediu para que eu avaliasse a performance.

– Vamos sair daqui? – falei, sentada ao seu lado, esperando um convite incisivo.

– Hmmm, você tá a fim de uma balada? – não, eu não tava, eu estava a fim de limpar o palato.

– Você mora sozinho? O que você acha de a gente ir pra sua casa?

Ele olhou pra mim, curioso, surpreso, não sei, mas eu não tenho mais aquela paciência pra ficar esperando. Meu último relacionamento tinha durado quase três anos e acabado há menos de duas semanas, eu já tava acostumada a transar a hora que eu quisesse. Ele aceitou, animado, e tocou no meu joelho o caminho todo até lá, e só tirou a mão de mim depois que transamos.

– Você vai passar a noite aqui, né?

– Não, eu não-

– Fica mais um pouco, vai – ele pediu, segurando as minhas mãos.

– Eu… – comecei. – Tá, eu não to com muito sono, de repente a gente pode ver alguma coisa.

– O que você tá a fim de assistir? – ele perguntou, ligando a televisão.

– Tem aquele documentário sobre o cara da yoga – eu falei, pegando o controle remoto e dando play em Bikram: yogi, guru e predador. – Você tá a fim de ver? – perguntei, quando o filme já estava rodando há alguns segundos. Assim seria indelicado discordar.

Quando fui embora, chamei um carro até Pinheiros, e entrei devagar pelo apartamento.

– Eaí, como foi o encontro?

Júlia estava acordada, sentada no sofá com um pote de sorvete aberto e a colher na boca.

– Foi daora. A gente transou e viu aquele documentário sobre o Bikram, sabe?

– Você fez o cara ver um documentário com você?

– Amiga, pára.

– Medalha de ouro para otimização de tempo.

– É porque como chef eu preciso gerenciar muito bem os minutos pra cozinhar.

– É, é por isso mesmo.

– Nem foi tanto assim, ele me fez ver um vídeo em que ele atuava.

– Pára.

– Meia hora.

– Impossível.

– Eu juro.

– Amiga, vai dormir, sério – ela deu um tapa na minha bunda e apontou pro meu quarto com a colher.

Provavelmente não haveria segundo ou terceiro encontro, mas deitei na cama sentindo o cheiro de outra pessoa no meu corpo. Nem quis tomar banho, queria aquela sensação estranha na minha pele. Missão cumprida: palato limpo.

essa matéria é patrocinada por Inner Circle, que assim como a gente acredita tanto no amor ao primeiro match, quanto na delícia que é aquele flertezinho safado via app de relacionamento. gostoso demais.
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