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o amor romântico existe? Com Ana Canosa


mensagem final dos artigos da Obvious

Marcela Ceribelli: Eu estou à procura do amor, aquele amor verdadeiro, ridículo, inconveniente, tipo um sono, do tipo que é impossível viver sem o outro. Calma, hoje nós vamos falar de amor, mas essa frase não é minha, é da Carrie, personagem principal de “Sex in the city”, um seriado icônico que ajudou muitas mulheres, como eu e você, a construir alguns ideias sobre amor e consequentemente sobre felicidade. Será que você, como eu, assistiu a vários clássicos de entretenimento que te fizeram acreditar que almas gêmeas existem, que existe um homem ou uma mulher incrível para te salvar do fardo da solidão e que o casamento é um eterno café da manhã de domingo com as crianças brincando no jardim? Spoiler da vida real; não é lá bem assim, o amor é infinitamente mais misterioso e complexo do que nos disseram. E não é de hoje que nos contam essas ilusões em forma de história, até na mitologia grega acreditava-se que os amantes perfeitos vinham unidos e foram divididos em dois, o amor, portanto, seria o desejo de encontrar aquela parte que se perdeu. Mas como nós, mulheres feministas, podemos acreditar em um amor em que não somos um todo quando sós? Pois é, a vida a dois pode ser deliciosa, mas nem sempre ela será um conto de fadas, definitivamente, antes de ser dois, precisamos saber ser um, é por isso que nós estamos aqui hoje, para investigar se esse amor romântico, colorido, monogâmico, cinematográfico é realmente um sonho possível ou só mais uma fonte de frustração para nós mulheres. Bom dia, Obvious. Eu sou Marcela Ceribelli, CEO e diretora criativa da Obvious e hoje, o terceiro episódio do nosso mês do amor, converso sobre amor-próprio, relacionamentos e o fim do amor romântico, com a escritora, psicóloga e podcaster Ana Canosa.

Marcela Ceribelli: Ana, eu sou muito fã do seu trabalho e todas as vezes que falamos em trazer uma pauta de relacionamento, prazer feminino, sexo, o seu nome sempre surgiu, é praticamente a realização de um sonho te receber aqui.

Ana Canosa: Obrigada, eu fico super honrada e feliz que você goste do trabalho.

Marcela Ceribelli: Ana, hoje a nossa discussão é um questionamento que parece simples, mas acho que não é. Será que o amor romântico existe? Como conseguimos explorar esses muitos lugares que o amor passa? Para você, como psicóloga, existe diferença real entre paixão e amor? É realmente uma jornada em que nasce um amor e chega à paixão? O que são eles? Como esses sentimentos se diferem?

Ana Canosa: Quando falamos de amor romântico podemos olhar ele por dois conceitos, um vai falar sobre eu desejar a mesma pessoa que eu quero bem, este fenômeno pode começar pela paixão, pelo amor fraterno e desenvolver um certo apaixonamento e está marcado no nosso DNA, é da própria condição humana. Então se você me perguntar se o amor romântico, no sentido do amor erótico, querer bem e desejar, ele existe e vai continuar existindo? Para mim sim. A maneira como vamos viver o amor romântico pode ser diferente. Temos um outro conceito sobre amor romântico, é a maneira de viver a conjugalidade, que foi muito estabelecida a partir do século XIX, antes dele você vivia o amor erótico destacado do matrimônio, não precisava viver em conjugalidade ou casar para ter o desejo e afeto pela mesma pessoa e junto com esse pacote do amor romântico tivemos as distinções de gênero, os papéis muito divididos, mulher no espaço privado, homem no espaço público, todas as desigualdades, a monogamia, infidelidades, etc. Se você me perguntar sob a perspectiva do amor romântico no sentido do erotismo e do afeto por uma mesma pessoa, eu entendo que ele está marcado no ser humano como uma proposta evolutiva da espécie. A Helen Fisher, uma antropóloga, diz que nós como espécie, para procriar precisamos de um impulso que nos motivasse a ir de encontro ao outro, demos o nome de desejo. Todo o incremento de hormônio faz com que de alguma maneira o outro nos atraia e não é qualquer outro, alguns nos atraem e outros não, por que uns nos atraem e outros não? História de vida, história pessoal, traços familiares, não sabemos explicar muito bem, mas de alguma maneira há uma química, que é chamada de desejo. Pensando na perpetuação da espécie, como o bicho humano faz para procriar, você tem que procriar, tem nove meses de gestação e tem que cuidar de um bebê por um certo período para ele não morrer, a Helen Fisher vai dizer que a espécie humana desenvolveu o amor para dar conta de esperar os nove meses da gestação e os anos iniciais do bebê. Nesse sentido, esse amor teria um certo apaixonamento para fazer com que a gente ficasse com esse parceiro, já que boa parte das espécies não são monogâmicas, seria quase como uma monogamia compulsória, a monogamia no estado de apaixonamento é natural, você não precisa fazer força para ser monogâmico quando você está apaixonado, então isso teria uma função de dar conta desse bebê. Passada a paixão, ela diz que vamos desenvolver o apego e ele é para suportar o casamento, ela faz uma piada para dizer que, de alguma maneira, nós fomos criando modos de vida e de viver o amor, que o apego foi desenvolvido como uma necessidade básica que depois demos formato de matrimônio, noivado, namoro e assim por diante.

Marcela Ceribelli: Mas não só nesse caso de procriação e continuação da espécie, que faz todo o sentido, mas no início o casamento era uma aliança política, ele não surge porque os casais eram muito apaixonados, tinha a ver com família. Quando começamos a transformar o casamento, que era praticamente um contrato social, nesse lugar mais romântico?

Ana Canosa: Acho que foi a partir do século XIX, mas não podemos esquecer que mesmo antes que os casamentos fossem feitos por acordos de conveniência, as pessoas amavam por fora do casamento. Tem um livro que eu acho incrível “Sexo com reis”, era a tese de doutorado de uma autora americana, ela pega vários reis da Europa e conta a função da amante na corte real, como os casamentos não eram feitos por amor e sim pela manutenção das conveniências da nobreza, a amante real tinha uma importância fundamental para manter o rei apaixonado, o rei escolhia ela, era com quem ele ia se deitar, ter encontros eróticos e às vezes eles trocavam de amantes, com a necessidade de ter desejo por alguém de quem eu estou envolvido. Ela conta uma história de um rei russo, que amava a rainha e mesmo assim ele precisou colocar uma amante real no castelo porque era quase um paradigma, era o que se esperava do macho e tem toda a construção da sexualidade masculina. O amor e o erotismo sempre existiram, o amor romântico como um modo de desejar e querer bem a alguém, mas ele no sentido de instituição, de um modo de funcionar a conjugalidade, é muito específico do século XIX, quando o amor passou a ter importância sublime para o casamento. Quando falamos por exemplo da conveniência do relacionamento, é quase como se você estivesse falando de um horror, assumir que o casamento é conveniente, dizer “é bom estar com o meu marido porque dividimos as contas da casa, cuidamos dos filhos juntos, eu gosto da família dele” é quase um pecado mortal, soa como algo politicamente incorreto, mas a conveniência sempre existe em todas as relações. A partir do século XIX quando a importância para casar era o amor, parece que falar da conveniência em um relacionamento amoroso é uma coisa horrorosa, sendo que ela existe. E muitos casais têm dificuldade de fazer balanço da sua relação, porque negam alguma coisa que é importante na convivência.

Marcela Ceribelli: Então a conveniência de uma relação, por exemplo, é muito comum ouvir “eu valorizo muito estar com a família dessa pessoa, a nossa casa”, você não acha isso ruim? Você acha que isso pode sustentar um relacionamento e está tudo bem.

Ana Canosa: De jeito nenhum, isso faz parte, as pessoas fazem essas reflexões para as pessoas que elas têm intimidade e para os seus terapeutas, esse argumento íntimo do porquê você está casada com o seu marido, tem a ver com o seu momento de vida, com o seu traço de personalidade. Por exemplo, existem pessoas que para elas, essa conjuntura, é ótima, é importante, mais do que talvez transar com o outro, então quando pensamos “o casal está a sem transar por muito tempo, que horror”, que horror para você que quer transar, para eles está tudo bem, talvez eles tenham uma relação aberta. Acho que precisamos sair desse lugar de ficar posicionando tudo em grandes caixas, do que vale a pena, do que é certo, porque as pessoas são muito múltiplas e diversas.

Marcela Ceribelli: Eu estou muito interessada e até um pouco provocada, quando começamos a questionar se o amor romântico existia, tendemos para uma narrativa de filme e da sociedade atual de que “será que dá para transar com só uma pessoa? A monogamia é justa?”, talvez dê para construir relacionamentos baseados em outras coisas, se não esse desejo infinito.

Ana Canosa: Total, acho tem gente que é talhado á monogamia. Eu não sou contrária à monogamia, acho que ela é construída socialmente e que viver única e exclusivamente por uma monogamia compulsória, ou seja, eu comecei a namorar então quer dizer que eu sou monogâmico, é muito louco. Na minha época, eu vou fazer 51 anos, não tinha essa discussão sobre ser monogâmico ou não e essa nova geração tem, ela implica em saber que não sou uma unanimidade e que o amor pode ser vivido sem o sexo, ou destacado do sexo. Eu tenho a impressão que existem momentos da vida em que você está mais monogâmico, não que você seja, mas naquele momento que você está apaixonado, ou está em um momento na vida de tranquilidade. Se você é muito possessivo, simbiótico, ciumento, como você vai viver uma relação não-monogâmica? Vai ficar doido.

Marcela Ceribelli: É o que eu vejo, muitas pessoas sofrendo e bancando isso, porque não querem perder o outro, na verdade é a posse vezes dois, é pior do que ser monogâmico.

Ana Canosa: Questionar a monogamia como o único modelo de relacionamento é importante, acho que o modelo monogâmico não é para todo mundo. Hoje você pode ser monogâmico e amanhã não ser mais, a vida e os desejos vão mudando. Agora, quando você estabelece relações de casamento, de conveniência, de namoro, a não-monogamia começa a ser complicada, quem vive relações livres, vive de um jeito não-monogâmico por uma proposta de vida, eu sou livre, posso ficar com quem eu quiser e não preciso te pedir orientação e nem te contar. Quem vive relações livres evita estabelecer relações de compromisso, quando você estabelece relação de compromisso você começa a dividir dinheiro, casa, uma série de questões de posse que começam a mexer com a nossa mediocridade. Fora relações livres, todo o resto como poliamor, relações abertas, são maneiras que eu penso que os casais encontram para negociar a falta de desejo e apaixonamento exclusivo por uma pessoa só. Acho que tem gente que se dá super bem com a monogamia, não acho que ela vá acabar e talvez tem gente que viva ela por períodos.

Marcela Ceribelli: A sensação que eu tenho, é que mesmo pensando se uma relação vai ser aberta ou monogâmica, ainda tem um período de contrato que se renova automaticamente. Na verdade, acho que ele tem vencimento, deveríamos estar sempre revendo esse contrato, porque estamos monogâmicos, mas deveria ser mais aberto “estou sentindo um desejo”, “ainda estou bem” ou “agora chegou a hora de fechar”.

Ana Canosa: É exatamente isso, questionar o tempo todo o estado em que você está. O pessoal de relações livres diz “quem é relações livres aceita a impermanência dos sentimentos”, o problema da monogamia é que tentamos lutar contra essa impermanência para manter a permanência, a pessoa fica tentando encontrar aquele sentimento de volta, sendo que é muito difícil.

Marcela Ceribelli: Era uma dúvida que eu tinha, se é possível dentro de uma mesma relação você se reapaixonar pela mesma pessoa?

Ana Canosa: Acho que sim, é possível você viver fases de reapaixonamento, acho que elas convergem com estados emocionais, momentos dos dois entrarem de um jeito diferente na relação. Às vezes você começa, por exemplo, um curso novo de alguma coisa completamente nova que nenhum dos dois sabem fazer, de repente você descobre uma outra pessoa ali. O que vivemos é com a mesma pessoa, fazendo a mesma coisa sempre e essa reinvenção precisa ser estimulada. Eu não acho que esses momentos de apaixonamento aconteçam com tanta intensidade e do mesmo jeito que acontece na primeira vez, acho que ela sempre é única.

Marcela Ceribelli: Claro, mas aí o perigo é ficarmos viciados nesse thrill do início. Eu estava debatendo com alguns amigos esse final de semana, tem tanta gente que é viciado nessa emoção do início quanto é viciado em qualquer emoção, então eu estou em um relacionamento estável e vou cavar uma briga, porque eu preciso viver algo mais emocionante do que essa estabilidade. Você acha que é algo do ser humano procurar uma emoção maior, mesmo que ela não seja tão boa assim?

Ana Canosa: Eu acho que é natural de algumas pessoas. Até estávamos falando do sexo de reconciliação, ele transfere a raiva em uma excitação sexual, quando você briga, tem uma ameaça de separação, toda essa descarga de dopamina é muito grande, mas se esvai rapidamente. Existem pessoas que são muito movidas por essa energia, são personalidades muito desejantes, elas têm isso gravado na memória corporal. Por exemplo, pessoas que tiveram história de familiares com muita discussão, aquela adrenalina na briga fica quase que marcada no seu organismo, ou essas pessoas vão para o lado oposto do conflito e aceitam tudo ou reproduzem conflitos porque é a maneira em que elas acostumaram a viver. Às vezes não precisa ter experiência familiar, a própria experiência corporal da descarga de dopamina pode te fazer buscar de novo, como usar drogas. Agora, tem por exemplo, as pessoas motivadas pelo prazer, aquelas que gastam dinheiro sem se preocupar com o amanhã, vão para o bar e esquecem de voltar para casa, são motivados pelo prazer e normalmente se casam com a pessoa do dever, para botar ordem na vida, é aquela que vai voltar para casa e que controla o desejo.

Marcela Ceribelli: É verdade, geralmente é aquela pessoa que quer ficar até às oito da manhã e a que quer ficar até meia noite estão juntas.

Ana Canosa: Exatamente, quem é que vai chamar pela relação não-monogâmica? Quem é movido pelo prazer, ele vai trazer esse assunto, para ele o prazer move a vida, como o sexo é da ordem do prazer, para viver relações não-monogâmicas você tem que curtir jogo de sedução. Imagina o tempo que gasta ficar administrando cinco pessoas no aplicativo.

Marcela Ceribelli: Olha, pessoalmente, Deus me livre.

Ana Canosa: E poliamor? Outro dia uma menina falou, “eu sou poliamorosa e estou em busca de outro namorado” e eu não entendi o porquê ela estava em busca de outro, para mim é mais fácil você estar em uma relação e de repente se apaixonar por outra pessoa, agora sair em busca de mais um, eu não entendo, é uma limitação.

Marcela Ceribelli: Eu também, para mim relacionamento dá trabalho, você ter que se doar e cuidar de dois relacionamentos ao mesmo tempo é difícil. Eu acho legal o que você está trazendo, muitas vezes você escuta essa geração Z tratando o casamento dos pais como se fosse uma grande mentira, quase com desprezo, mas na verdade não é para olhar assim, existe uma felicidade, não pode se partir do pressuposto que eles não são felizes.

Ana Canosa: Eu tive recentemente, uma paciente que durante a pandemia foi passar um período na casa dos pais e ela tem uma sensação de infelicidade suprema dos pais, principalmente da mãe que reclama do pai o tempo inteiro, ela vive no medo de perder esse homem, até o dia que a paciente descobriu que os pais dela transam toda noite, ela não aguentava mais escutar e ela nunca podia imaginar. Então a mãe passava o dia reclamando do pai e à noite transava com ele.

Marcela Ceribelli: A gente sabe muito pouco sobre a intimidade das pessoas. Isso não é uma história verídica, mas na série “Sopranos” e a Carmela é casada com o Tony que constantemente traí ela, eu fiquei debatendo com o Renato, é um certo tipo de acordo, ela está 100% ciente de que está sendo traída, ela tem exigências dentro disso, mas em nenhum momento ela fala para ele não fazer e também é uma forma de relacionamento mais livre, né? Eu acho que o que entra ali é o feminismo, ela não fica com ninguém e se ficasse, seria alvo de uma grande briga. Você acha que a diferença da discussão que estamos tendo agora tem a ver com feminismo? Porque durante muito tempo, os homens estavam “permitidos” a terem outros relacionamentos. O amor livre é quando a mulher passa a ser “autorizada”?

Ana Canosa: Certeza. Quando as mulheres começam a questionar a passividade dentro da conjugalidade. Essa ideia de monogamia com a divisão de papéis muito estreita não deu certo, as pessoas começaram a se divorciar. Uma coisa é eu estar em um casamento e decidir ficar nele porque ele me dá uma série de garantias e tudo bem, mas ela faz uma escolha consciente porque se sente livre e autônoma para fazer essa escolha, se ela quiser sair ela sabe que pode. Outra coisa são mulheres que não se veem na capacidade de sair, que são prisioneiras em relacionamentos abusivos, são dependentes financeira e emocionalmente. Acho que a mulher está aprendendo que pode escolher viver com alguém e não precisar do outro, o casamento era o que dava à mulher um lugar no mundo, uma classe social, hoje não, podemos não ter filhos, ficar solteiras. Essa liberdade faz com que escolhemos um relacionamento, mesmo que ele não tenha sexo, mesmo pela história familiar e acho que foi o feminismo que deu esse impulso para que sejamos mais livres.

Marcela Ceribelli: Em todos episódios dessa série de junho eu tenho gostado de perguntar a cada uma sobre a visão do prazer feminino. Você acha que essa conexão da mulher, que ela pode sair e entender o lugar dela, tem a ver com a quebra do tabu desse prazer feminino? Descobrir que a mulher também transa por prazer fez ela procurar mais prazer?

Ana Canosa: Não tenho dúvida. A autônima sexual feminina no Brasil ainda não é muita. Mas acho que você tem uma nova geração de mulheres mais autônomas, o que eu quero dizer com autonomia é saber qual é o seu corpo, o que você gosta, dizer para o cara que não tem orgasmo com penetração, veja por exemplo o mercado erótico tem só crescido, essa descoberta de que eu posso ter orgasmos sozinha. Isso está mudando muito, inclusive vemos em consultório, antigamente o perfil do casal que procurava para questões sexuais, era o marido que falava que a mulher não queria transar. Agora eu tenho um monte de casais em que a mulher chega e fala que o marido não quer transar, em que aparece a inibição do desejo sexual masculino, coisas que nunca tínhamos visto. Tem uma pesquisa recente da Alemanha, que diz que aumentou de 8% para 13% o índice de desejo sexual hipoativo em homens, será que os homens estão mais inibidos por motivos fisiológicos, estresse, questões contemporâneas ou será que eles não se veem obrigados a transar? Também tinha esse lado do homem ser obrigado a transar para se considerado macho, então na medida em que as mulheres também começaram e desenvolver, eu acho legal que os homens começam a ser sinceros sobre os corpos deles. Quantos homens eu já não atendi com 30 anos e tomando viagra há 10 anos, sem a mínima necessidade, porque um dia lá atrás ele broxou e ficou com vergonha e para não broxar de novo, tomou o viagra e agora usa ele como muleta e não consegue mais tirar. Veja como a masculinidade do homem também é um problema.

Marcela Ceribelli: Claro que é. Eu tenho uma discussão com as minhas amigas solteiras, que os meninos mais novos estão broxando muito, que eles transam e não gozam, acho que está rolando uma crise dessa masculinidade.

Ana Canosa: Sim e eu acho importante os homens começarem a entender. Por que um homem vai transar e não goza? Ou porque ele está tomando uma medicação, alguns medicamentos afetam a ejaculação e prolongam o orgasmo ou eles perderam a excitação no meio do caminho, não estava gostoso, sexo casual, não era o que ele esperava. Também é bom de que alguma maneira a gente abra a vulnerabilidade masculina. Primeiro, a monogamia pode ser um formato bastante importante e interessante para outras pessoas, segundo é que o amor romântico vai sempre existir, na minha visão, não como formato, mas como necessidade humana e terceira coisa, muitas vezes as mulheres precisam de mais interação para ter um bom sexo, isso significa que mulher não pode fazer sexo casual e ele pode ser negativo? Eu não estou dizendo isso, acho que as mulheres têm que ser livres, o sexo casual pode funcionar como conhecimento do corpo, experiência de vida e pode ser divertido, mas dizer que o sexo casual é sempre bom não é verdade e as mulheres precisam de maior interação para ter um sexo incrível.

Marcela Ceribelli: Demais você trazer isso, eu ia falar sobre o recorte das mulheres lésbicas e bissexuais, como você enxerga quais são as questões delas hoje? As reclamações, as questões, são muito diferentes?

Ana Canosa: Eu acho que não, tem uma questão do ajuste sexual, de abaixar o desejo ao longo do tempo em relacionamentos. Em pesquisa, as mulheres homossexuais têm mais orgasmos do que as mulheres heterossexuais e bissexuais, ou seja, de alguma maneira, a exploração sexual do corpo da outra mulher pode ser mais interessante e favorecer mais o orgasmo do que nas relações heterossexuais, acho que nessas relações, tem um abismo de gênero que ferra tudo no início, quando por exemplo, a mulher fica com vergonha de dizer para o cara que não gozou, fica com dó.

Marcela Ceribelli: Precisa falar, o cara nunca vai saber, para de atuar.

Ana Canosa: Mas ela não quer fazer climão, agora você imagina, você vai para o sexo casual com uma pessoa que você não conhece e de repente você não goza e cria um climão, isso é complicado. Em relações heterossexuais, as pessoas vão com expectativas de gênero bem complicadas, não que nas relações homossexuais não tem essa expectativa, também tem. E é bom lembrar que tem mulheres que fazem sexo com mulheres e não gostam de fazer sexo oral. Mas os questionamentos de relação são sempre os mesmos, todo mundo tem os mesmos problemas, temos tantas possibilidades e repetimos a mesma coisa.

Marcela Ceribelli: Para a gente fechar o nosso bloco, me parece que existe uma questão que quebra muito do que falamos, que é o ciúme. Como o ciúme se encaixa nesse contexto e o quanto ele é uma manutenção desses relacionamentos baseados em apego?

Ana Canosa: O ciúme é o motor do erotismo, toda vez que um terceiro entra, ele ameaça essa fantasia que eu tenho da exclusividade. Às vezes você vai perdendo o interesse e de repente descobre que aquela pessoa está transando com outra.

Marcela Ceribelli: Eu sei de amigas minhas que quando o relacionamento está ficando meio morno, elas procuram coisas para se incomodar, ver se ele deu like na foto de outra pessoa.

Ana Canosa: Porque ela quer ver esse cara mais desejante, ela está em busca disso. Não que ela queira que essa cara transe com outra pessoa, mas ela está em busca desse homem desejante, que já perdeu a caracterização na relação de compromisso. Fazer esse jogo não é fácil, mas é por isso que sempre dizemos que é importante a manutenção da autonomia individual, o amor tende a abafar o erotismo ao longo do tempo e aquele indivíduo que está ali no cotidiano deixa de ser erótico. Acho que é um jeito dessa autonomia mover o ciúme e mostrar que nada está garantido. Outro dia eu estava com um casal perguntei “em que momento você acha que o erotismo é motivador? Ou que o seu parceiro te chama atenção no ponto de vista erótico?” e ela respondeu “acho que é quando saímos e estamos em grupo”, quando ela vê o marido conversando com outras pessoas e ele está autonomamente, ela começa a despertar o erotismo por ele.

Marcela Ceribelli: Isso é muito forte e aliás, que questionamento bom.

Ana Canosa: O motivador do erotismo é o que vai estar presente quando o erotismo espontâneo não está.

Marcela Ceribelli: Ana, muito bom conversar com você, não esperava nada diferente disso, agora até eu tenho várias perguntinhas para me fazer. Para encerrar, queria que você indicasse algum filme, livro ou documentário para quem quiser se aprofundar mais nesse assunto.

Ana Canosa: O assunto é muito vasto, mas tem um livro da Esther Perel “Sexo no cativeiro”, que é excelente para falar do erotismo e o sexo dentro dos relacionamentos amorosos. Meu podcast “Sexoterapia”, que gravamos um episódio por semana só sobre relacionamento amoroso, estamos na fase dos pecados capitais, cada episódio é um pecado. Tem um filme que eu acho lindíssimo, sobre as questões não-monogâmicas que é o “Professor Marston e as mulheres maravilhas”, esse filme conta a história do cara que inventou a mulher maravilha e sobre a relação não monogâmica, é uma história real que mostra como o amor brota em uma relação poliamorosa.

Marcela Ceribelli: Ana, muito obrigada.

Ana Canosa: Imagina, obrigada! Foi um prazer.

Marcela Ceribelli: Muito obrigada a você também, que nos escutou até aqui, mas a nossa conversa não tem fim. Continuamos semanalmente na nossa Newsletter que você pode se inscrever no www.obvious.cc , no Instagram @ObviousAgency e com comentários e sugestões sempre com carinho no [email protected] . Bom dia, Obvious.

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