OBVIOUS

O amor não é um milhão de coisas


 

mensagem final dos artigos da Obvious

Eu estava de vestido branco na primeira vez que fui na Delegacia da Mulher. Fazia sol, eu estava na minha cidade favorita do Brasil, minha maquiagem era suave e o cabelo caía em ondas leves pelos ombros. Uau, que glamuroso. Foi tipo um casamento às avessas, usando branco pra terminar algo que deveria ter terminado há muito tempo. Eu estava linda e não imaginava que ficaria com duas linhas marcadas na bochecha, delineando o caminho feito pelas lágrimas.

Queria ter definido com antecedência a trilha sonora daquele dia, para contar a história como se tivesse ouvido “Ultraviolence”, da Lana Del Rey, no caminho até lá. “Ele me bateu e pareceu amor verdadeiro”. Mas eu fui sem fones de ouvido, sem música, sem memórias poéticas. O que ficava indo e vindo na minha cabeça era o episódio final de Euphoria, a voz da Maddy quando finalmente termina o relacionamento com Nate: “eu odeio você de verdade, você é abusivo, psicótico, e a maior parte do tempo eu realmente odeio como você faz eu me sentir”.

Por baixo do brilho e das maquiagens incríveis que me fizeram acender um incenso sobre a gaveta de produtos de beleza e mentalizar “querido universo, por favor me traga as maquiagens da série sem nenhum dos dramas”, existe uma fragilidade trágica na história, que se reflete (trocadilho intencional) nas dinâmicas de amor. “Não era a violência que a assustava. Era a noção de que, não importava o que ele fizesse, ela ainda o amaria,” é o que Rue fala no episódio da Maddy.

Uma vez, uma policial me disse: “eu acho muito curioso como as mulheres sempre falam que não aceitariam violência doméstica. Nenhuma mulher pensa ‘ah, eu sim, eu aceitaria apanhar’.” A segunda frase de uma policial que ficou gravada na minha memória foi dita para Maddy: “confia em mim, a pessoa que fez isso com você não te ama.” Do outro lado da delegacia, Nate cumpria o papel de homem abusador em suas diversas tentativas de fazer a mulher parecer louca.

Eu me lembro de ler listas do tipo “10 sinais de que você está em um relacionamento abusivo” e repetir que ninguém entende a complexidade do relacionamento, palavras que seriam repetidas depois pela personagem. O amor é um milhão de coisas, eu escrevi no meu diário que guardava histórias horrendas do meu passado, às vezes é bom e outras não é. 

Se a Maddy estivesse na minha frente hoje, a primeira coisa que eu faria seria pedir pra ela me ensinar aquele delineado laranja com sombra lilás, mas a segunda seria tentar repassar as coisas mais importantes que eu aprendi:

– Antes de tudo, medida protetiva. Se você não tem um advogado, a dica é procurar a delegacia da mulher da sua cidade, e ir até lá para abrir o BO e fazer o requerimento da medida. Essa deve sempre ser a prioridade.

– Amigas & família. Estar perto de pessoas que realmente amam você e que vão te apoiar na decisão, dar suporte e xingar o cara quando necessário.

– Lizzo. Discografia completa, em repetição eterna.

– E, a coisa mais importante pra se fazer em qualquer caso, terapia. Se dependesse de mim, todos os bebês sairiam diretamente do berçário no hospital para o consultório psicológico para começar desde cedo a desenvolver ferramentas emocionais para uma boa saúde mental.

Metade do meu mapa em peixes me obriga a ver nuance em tudo e pensar em diferentes possibilidades pra cada situação, mas a outra metade é em escorpião e me obriga a ser fatalista: se você já se questionou se está em um relacionamento abusivo, tá na hora de ir embora. Como a Duda Reis falou, “mulher não é centro de reabilitação pra homem com mau comportamento.” E, citando a divindade dos dias de hoje, o TikTok, segue o mantra: then leave – peace out. ✌️

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