OBVIOUS

Não é qualquer um que bate nessa raba


mensagem final dos artigos da Obvious

Se o consentimento fosse levado em conta, nenhum conto de fadas poderia existir. Beijar a Branca de Neve durante um sono profundo? Meu bem, isso é abuso. Mas nós, millennials que nascemos e crescemos nos anos 90 (embora eu me auto-identifique como geração Z), sonhamos por anos em ganhar aquele beijo do príncipe encantado, que seria capaz de nos acordar pra vida. Bela Adormecida é o apelido daquela droga que deixa mulheres inconscientes: coincidência? (E a Ariel que troca a voz por uma vagina? E a Bela que se apaixona pelo monstro que a sequestrou?) Desculpa se eu estraguei sua infância.

No começo do ano passado, a França ficou em polvorosa com um lançamento literário. (O que não é novidade na França, sejamos sinceros, já que o país é fonte inesgotável tanto de literatura quanto de quebrar tudo.) O caso em questão foi o lançamento de O consentimento, de Vanessa Springora, onde ela relata que, aos 14 anos, se envolveu com Gabriel Matzneff, 50, autor que abertamente escrevia sobre seus casos com crianças e jovens em seus livros. Na minha época de militante feminista (depois que um leitor me disse “descansa militante” após ler meu primeiro livro, que aborda questões políticas, eu finalmente tive permissão para me aposentar), eu li uma estatística que dizia que 14% dos homens em um campus nos Estados Unidos disseram que estuprariam uma mulher. Isso é horrorizante, mas não se preocupa porque pode ficar ainda pior: quando a pergunta foi alterada para “forçar sexo” em vez de “estuprar”, o número subiu para 32%.

Eu conheci uma pessoa, um homem, que precisei pegar pela mão e ensinar, via Zoom: “olha só, a gente tá vivendo na era pós-Me Too, você não pode mais chegar e falar assim com as mulheres na Internet”. Tadinho, tinha acabado de sair de um casamento de quase uma década e não tinha aprendido que é necessário respeitar as mulheres agora. (Ainda bem que essa pessoa não tá mais na minha vida, Deus é bom o tempo todo.)

Em O consentimento, Springora fala que, por ter transcrito suas cartas, usado suas iniciais e suas experiências, o abuso que sofreu não foi apenas sexual, mas também literário. Ela não tinha de nenhuma forma consentido. No ano passado, uma das séries que encabeçou minha lista de melhores do ano foi I may destroy you, da HBO (criada, escrita e estrelada pela maravilhosa Michaela Coel). A história trata de um estupro, sim, mas mais que isso: trata de consentimento. Para além da violência máxima sexual, existe aquele outro tipo de abuso, quando o namoradinho tira a camisinha sem avisar (tradução: sem consentimento).

Consentimento não é um jogo, tipo, você vai jogando e testando até conseguir ganhar do Chefão. O Chefão sendo, no caso, a vontade da pessoa. Que, pra começar, nem deveria estar em jogo (trocadilho intencional). Convencer alguém a transar é errado em qualquer hipótese, e isso é algo que eu queria ter aprendido há muitos anos. Dizer “não” não significa “me convença”. Essa ideia de que o sexo é algo a ser conquistado é tão parte da nossa cultura que a gente nem pensa. Da onde veio o pensamento de que sexo é um prêmio? Aliás, se fosse, deveria ser dado apenas após a performance, e nesse caso acho que muitos caras ficariam bem chateados. (Pelo menos o Kanye West disse que deixaria a Taylor Swift ir até o fim.)

Se não é pra sentir prazer, nem vale a pena. Eu mesma às vezes prefiro dormir. Ou ver aquela série nova. Ou ler um livro. Assim, brigadeiro é uma das minhas comidas favoritas, mas nem sempre eu to a fim comer, sabe? Consentimento não é chato, tipo assinar um contrato em três vias no cartório. É legal pra caramba falar (ou cantar) que não é qualquer um que bate nessa raba. E no fim das contas, a gente tá falando de sexo, de como transar gostoso pra caramba, o que só é possível quando todo mundo quer (e deixa claro que quer) ligar o modo turbo pra uma sentada de outro mundo 👌

4 thoughts on “Não é qualquer um que bate nessa raba

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