OBVIOUS

Manual do bom uso de aplicativos: a experiência leva à perfeição


Like. Deslike. Deslike. Deslike. Like. Like. Deslike. Depois de um número significativo de interações, você adquire uma certa tendinite. E experiência.


– Deixa eu ver – Júlia se apoiou no sofá, atrás de mim, espiando por cima do ombro as interações. – Homem que quer ser engraçadão no aplicativo é tudo, tenho vontade de dar match só pra dizer meu bem, isso aqui é app de paquera, não stand-up.

– Mas ele também é viciado em café, olha – apontei para a tela onde mostra os pontos em comum.

Uma das coisas de que mais gostei ao fazer o cadastro foram as perguntas de múltipla escolha sobre a minha personalidade, juntando duas das minhas atividades favoritas: falar de mim mesma e não precisar pensar muito. Early Bird. Wine Lover. Carnivore. Beach Bum. Chart Lover. Master Chef. Prazer, Maria Helena.

– Maê, todo mundo da nossa geração é viciado em café – ela voltou a olhar pro meu celular. – E depois nem você escolheu essa opção.

Ah, é.

– Ei, olha esse – mostrei o perfil dele, uma foto única com uma luz bonita em um lugar legal. O sorriso era bonito, os dentes brancos todos retos com exceção do incisivo superior meio torto do lado direito que dava um charminho extra.

– Amiga, só uma foto?

Dei o like.

– É só stalkiar.

A título de exposição nessa matéria, vou chamá-lo de Vinícius, porque esse é o nome dele. O perfil mostrava: 1.86, sem filhos, graduado, esportista, não fumante. Moreno alto bonito e sensual, talvez ele realmente seja a solução dos meus problemas. E o mais importante: status de vacina atualizado, esperando a segunda dose. Hmmmm, tu-do pra mim.

Tirei print da foto no perfil, abri o Google na ferramenta de pesquisa por imagens e fiz o upload do arquivo. A busca reversa não adiantou muito. Fiz um teste com uma foto pessoal minha para saber se o problema era a busca ou se o cara tava se escondendo demais, mas nem com a minha foto deu certo, então fiquei mais tranquila. E veio aquela certeza de que não era nenhum catfishing, embora isso já estivesse implícito pela segurança do Inner Circle.

Enquanto aguardava o match com Vinícius rolar, cheguei à conclusão de que a primeira foto é que nem os 5 segundos do anúncio no YouTube, se não chamar atenção já era. E existe algo muito estranho em homem tirando selfie, o ângulo mal posicionado, a luz toda errada, o sorriso desconfortável e a tentativa de olhar sedutor. Gu pulou no meu colo, eu aproveitei a ironia do momento e imitei um homem tirando selfie. Postei nos stories com o textinho “homens em aplicativos de relacionamento”.

Gu é um vira-lata marrom com orelhas peludas e brancas na parte de baixo, de 8 anos. Seu nome na verdade é Gourmet, uma homenagem à minha profissão tão cultuada pré-pandemia e tão desvalorizada durante: chef de cozinha. Com a popularização do termo de forma pejorativa, passei a usar só o apelido. Com a demissão que aconteceu por causa desse último ano, passei a pedir ajuda financeira dos meus pais. Aparentemente nenhuma decisão minha passa impune.

Voltei a olhar o perfil do Vinícius pra entender o que me conquistou tanto naquela foto. Seria a iluminação da golden hour (ele provavelmente nem sabe o que é golden hour)? O sorriso aberto? O ambiente todo cheio de natureza? O mistério de onde será que ele estaria – aquilo era o Ibirapuera ou o Central Park?

– Descobriu algo do contatinho? – Júlia largou o celular e perguntou.

– Amiga, não.

– E as conversinhas?

– Olha, rolou uns oi, uns bom dia, um poema e até uma mensagem de física.

– Quê?

– Olha.

É o seguinte: temos dois objetos esféricos da mesma massa e diâmetro. Vamos chamá-los de brigadeiro e beijinho. O brigadeiro é colocado no alto de uma rampa e rola até o final. Considerando que ambos sofrem a mesma aceleração da gravidade e o mesmo atrito da superfície, fica a questão: se o brigadeiro rolou, o beijinho vai rolar?

– Mano, tá vendo o que eu falei desses boy que acham que são comediantes?

Eu ri e voltei pra página inicial.

– Tá e me conta, qual tá sendo seu critério?

– Olha, amiga, sendo sincera, eu dou uma olhada nas características e leio o perfil pra ver se não tem nenhuma grande besteira, mas to mais focada nas fotos.

– Longe de mim criticar.

– Daí tipo, eu passo direto por foto de galera, se só tem foto de óculos escuros, essas coisas.

– Meu gatilho pessoal é foto de jaleco, medicina não é personalidade. – Ela pegou o próprio celular pra olhar as conversinhas no Inner Circle dela. – Olha aqui, amiga, dei uma chance pra esse médico e a primeira coisa que ele falou é que é médico. – Eu ri.

– Tá mas e se tem foto com dinheiro? – Perguntei, mostrando uma das fotos do cara na minha tela.

– Manda o Pix – ela falou e já começou a rir.

– Tá, acho que deu. Vou dar um tempo.

– Bora ver uma série?

O celular apitou.
– Hmmmm, acho que depois.

Essa matéria é patrocinada por Inner Circle, que assim como a gente acredita tanto no amor ao primeiro match, quanto na delícia que é aquele flertezinho safado via app de relacionamento. gostoso demais. vamos de chance? baixe o app por este link e ganhe o 1º mês de assinatura premium grátis, bb!

ah! e não perde essas dicas aqui. O manual da atração em aplicativos é tudo questão de foto, bb!

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