OBVIOUS

As definições de fidelidade foram atualizadas com sucesso


mensagem final dos artigos da Obvious

Na primeira vez que eu descobri que fui traída, eu fiz o que era óbvio para qualquer pessoa que se expõe demais na Internet e é incapaz de tomar decisões sozinha: uma enquete no Facebook. Tá bom, não foi uma enquete real, foi um post manifestando a ideia de criar uma enquete, de colocar o meu relacionamento a dispor do julgamento das redes. (Não deu muito certo: todo mundo disse pra eu terminar, mas eu fiquei, o que, em retrospecto, foi um erro. Sempre confie nos julgamentos das redes sociais.)

Nessa época, li uma estatística que dizia que 50% das pessoas traem. Só conheço duas pessoas que foram fieis em todos os relacionamentos, e são minhas duas outras personalidades. Brincadeira, eu tenho três. Tá, sério: acho que eu não conheço ninguém que nunca foi traído ou nunca traiu. Todos nós fomos um ou outro – e muitos de nós foram os dois. (Eu, como boa pisciana com ascendente em peixes, tenho vocação apenas pra ser corna.) 

Existem mais de 250.000 matérias na Internet tentando desvendar por que as pessoas traem, com enquetes cujos resultados incluem “desejo”, “ciúmes” e “outros”. (Particularmente sou fascinada pela ideia da categoria outros, em que não foi possível encontrar explicação para própria infidelidade nem em uma questão de múltipla escolha.) 

O que descobri depois de anos de estudo imposto pela vida no formato de traumas foi que, no fundo, nossa cultura é muito mais responsável por nossas escolhas do que nossa biologia. A época de teorias pseudo-socioantropológicas sobre o homem poder ter várias parceiras e a mulher apenas um – em uma correlação pseudo-científica com o fato de homens terem milhares de espermatozoides e mulheres apenas dois óvulos – já passou, acabou, è finito, it’s over, c’est fini. Traição é muito mais complexa do que isso. Quando a Serena transou com o Nate, a Blair foi traída não só pelo namorado como também pela melhor amiga. 

Na era das novas formas de relacionamento (poliamor, relacionamento aberto, trisal e mais termos que não sei porque sou meio quadradona), não somos mais a geração de Bentinhos paranóicos em busca de evidências da traição de Capitus. Nossa pergunta é muito mais profunda: o que é traição?

Um dia fui interrogar um amigo sobre o seu relacionamento aberto. Pode usar Tinder? Pode transar várias vezes com uma mesma pessoa? Pode transar com amigo? Como toda aluna dedicada, eu queria estudar bastante a matéria antes de me aventurar no território (spoiler: não rolou, me descobri monogâmica serial).

A resposta dele foi péssima: depende, precisa de muita conversa. Eu não pude deixar de me perguntar: e se a gente encarasse todos os relacionamentos como amor livre, em que livremente escolhemos todo o dia estar com a mesma (ou mesmas) pessoa? Não de um jeito brega tipo essa frase, mas de um jeito onde as definições de fidelidade e traição são atualizadas com sucesso – e em conjunto. 

Então pega papel, caneta e tesoura sem ponta e chama o arroba pra responder o que é traição. Não sabe o que perguntar? Eu começo:

Mandar nudes é traição?
Usar Tinder é traição?
Beijar ou transar é traição?
Flertar é traição?
Ver sua série favorita com outra pessoa é traição? 

4 thoughts on “As definições de fidelidade foram atualizadas com sucesso

  1. Larissa Nunes says:

    Eu estou apaixonada com a sua escrita! Me senti muito ouvida, sempre me interessei por essas perguntas mais que pela traição em si. E se foi traição, devemos ficar tão doloridos?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *