OBVIOUS

Adultecer…


Das coisas que mais gosto de fazer hoje em dia, com certeza uma das principais é tomar um banho quente, acender uma vela e colocar uma playlist de música clássica para tocar. Depois, lavar o meu rosto com algum produto de skincare que não sei direito pra que serve, ficar bastante tempo deixando a água jorrando em minha nuca enquanto descarrego todas as minhas energias por meio de minhas lágrimas. Quando era mais nova, achei que ia parar de chorar tanto quando fosse adulta. Não parei, agora só choro com menos espectadores. Nunca pensei também que ia gostar de ouvir música clássica. Surpresas, né.

São nesses momentinhos específicos que percebo que virei gente grande. Antigamente, quando chorava no banho, tinha que controlar os soluços para a minha mãe não ouvir e entrar no banheiro preocupada. Hoje em dia posso berrar. Berro, esperneio tal qual uma menina, mas ninguém vem me confortar. Uma vez um vizinho ouviu um choro meu, caçou meu número no grupo do prédio e perguntou se eu estava bem. Respondi que sim, que não era nada demais. O que ele iria fazer caso eu dissesse o contrário? Me confortar? Ele não era minha mãe.

Na verdade, acho que nem a minha mãe poderia me confortar desses choros de agora.

Virar adulta é um processo complicado e solitário. Solitário, porque mesmo que existam milhões de pessoas no mundo inteiro que possuem a sua idade ou já passaram por ela, ninguém, absolutamente n-i-n-g-u-é-m, sente da mesma forma. Sentimentos são provindos de vivências únicas e particulares, e mesmo que você tenha um irmão gêmeo siamês – são esses os gêmeos que nascem grudados, né? – ainda assim ele não vai se sentir igual a você, pois são duas perspectivas diferentes, duas vidas diferentes, dois jeitos de viver o mundo. Bem, é um pouco do que sinto quando tento conversar com alguém que está passando ou já passou pela mesma coisa que eu. Até rola uma compreensão, um entendimento, mas no finalzinho sinto que só posso buscar amparo em mim mesma.

Adultecer. Um fato inevitável e sem escapatória. Todo mundo tem que passar por isso e irá passar, de um jeito ou de outro. Só que aprendi com as pessoas que convivo que, mesmo existindo características que são bem similares e que ocorrem na maioria dos processos, este é um momento muito singular. Alguns demoram a passar por ele. Outras pessoas passam que nem percebem. Para muitos é doloroso, para outros é libertador. Para alguns, é tudo isso e um pouco mais. Acredito que eu faça parte da última categoria.

Escrever esse texto é estranho, pois enquanto o escrevo, mudei de ideia umas três vezes em questão se sou ou não uma mulher adulta. Digitar isso – mulher adulta – é tão esquisito quanto falar.

Pausa para falar em voz alta que sou uma mulher adulta. Falei.

E não é que eu não queira adultecer. Posso afirmar aqui que a minha vontade maior atualmente é falar esse termo – esse que eu parei para falar em voz alta – sem sentir um estranhamento ou um não pertencimento. Quero me sentir adulta. É uma vontade diferente daquela que a gente tinha quando pré-adolescente e falava pros pais que não aguentava mais ser tratada como criança, sabe? Naquela época, a gente não entendia muito bem o que queria. Nossos pais falavam: “você vai se arrepender de querer ser adulta quando for”. Bem… no momento, só quero me sentir mesmo. A diferença é que antes eu não tinha as obrigações de “gente grande”. Só queria ser adulta para me sentir livre. Hoje em dia eu acordo sozinha, trabalho, pago conta, choro sozinha no banheiro, moro só, transo sem medo dos meus pais descobrirem, viajo sozinha, vou pros cantos sem dar satisfação, e no fim do dia ainda me sinto… uma adolescente. Até criança às vezes me sinto. Por que será?

A verdade – pelo menos a minha verdade, já que esse processo é muito único – é que vivemos baseados na espera do ser adulto. “Quando eu crescer”, “vou fazer isso quando tiver 30”, “você vai poder fazer isso quando for adulta”… e essa sensação de futuro não nos prepara para quando esse tal “você vai” vira presente. Ficamos presas nessa espera e acabamos não sabendo exatamente quando o futuro chega, já que nos acostumamos com ele estando distante. E quando finalmente bate na porta, a gente não quer abrir logo de cara – ou não consegue – porque tá tudo uma bagunça. A casa está desarrumada e você não está preparada para receber a fase adulta, já que pensava que ela estava beeeem distante. Do nada, ela aparece. Bem mal educada, por sinal. Nem bate direito e já quer entrar, assim mesmo, sem nem pedir permissão de nada.

Deixar a fase adulta entrar é também aceitar que muitas coisas precisam ir embora. Coisas da fase antiga que não cabem mais, que entram em conflito, sabe? É difícil, porém necessário. Não dá pra ficar chorando até tarde no chuveiro porque a gente gasta muita água e a conta vem mais cara no fim do mês. Gasta muita energia física também e no dia seguinte temos que acordar às 7h da manhã pra trabalhar. Não tem skincare que ajude a cara inchada de uma noite de chororô e a gente ainda tem que ligar a câmera nas calls. É saber liberar espaço pros novos hábitos e responsabilidades entrarem, deixando coisas antigas partirem.

No fim das contas, acredito que essa é a forma mais fácil de adultecer sem sentir tanto peso. Deixar ir o que pesa e não cabe mais, pra novos ares poderem habitar. Pois assim não há conflito de costumes. E então, começamos a ver beleza no ser adulto. Dormir cedo pra acordar de manhã mais cedo ainda pode ser c

 

ansativo, mas é nesse horário que a gente consegue ouvir os pássaros cantando antes do barulho infernal da cidade começar a zunir em nossos ouvidos. É na busca desenfreada de liberar o choro do banho em algum lugar que a gente recorre à terapia – ou até mesmo à conversa com a mãe ao invés de chorar baixinho pra não incomodar ela. A gente vai aprendendo a lidar. Eu vou aprendendo a lidar. Adultecer deixa de doer quando entendemos que é um processo necessário e, claro, inevitável.

Mas esse é o meu jeito de enxergar. Gostaria de saber como é (ou foi) o seu. Me conta? <3

Indicação caso você queira continuar refletindo sobre: Bom dia, Obvious #106 / Virei Adulta? . Com Yedda Affini <3

 

 

 

18 thoughts on “Adultecer…

    • Carol Bonometti says:

      Carol, eu me chamo Carol Figueiredo tambéme criei um podcart chamado Adultescência!!! Na verdade eu sou Bonometti de Figueiredo e udo o Bonometti, mas tem muita gente me mandando o texto perguntando se é meu! Meu cérebro explodiu de pensar q tem outra Carol Figueiredo no mundo falando da mesma nóia q eu! Hahahahaha

  1. Marina Rodrigues says:

    Como é bom refletir os Textos de Carol.
    Foi muito difícil, a 10 anos atrás, sair de casa para conseguir realizar sonhos longe daqueles que me viam sempre como criança. Mas eu já tinha 23!
    Só hoje tenho conseguido superar o peso do que foi esse processo, com muitaaaaaa terapia.

    Carol, você teve uma professora “surtadinha” 🤗🤗🤗
    Orgulho de ti. ❤️

  2. Amanda Vieira de Barros says:

    Incrível como você conseguiu expressar, em um único texto, todo esse mix de sentimentos sobre se tornar adulto… que é um processo bem mais sofrido para as mulheres, por toda a pressão em tudo que devemos ser …

  3. Rayssa Cantalice says:

    Esse texto me fez perceber que estou no processo (ou já passei por ele, não tenho certeza). Foi esclarecedor em alguns pontos e libertador em outros. Me senti abraçada por você, Carol, sinta um abraço daqui também.

    • Isabela Faissal says:

      adorei o texto!
      É bem desconfortável lidar com o processo de se transformar adulta e com todas as responsabilidades que vem através dessa mudança. É tranquilizante saber que não sou a única que passa por isso.
      Você arrasa, Carol <3

    • Julia says:

      Eu amei seu texto, Carol. Estou no início desse processo, de noites mal dormidas, de todo o chororô durante o banho e da realidade pulsando de que ninguém vai entender ou ajudar. Enfim, representada mais uma vez!

  4. Nay Alma says:

    Esse texto chegou pra mim em execelente hora. Estou exatamente nesse processo de adultizar e sempre me senti atrasada, imatura. Tenho 33, sou mãe de uma de 7, não tenho trampo e super me sinto/sentia incapaz quanto a quase tudo. Autoestima zero. Amor próprio nem sei onde perdi. E tinha q ouvir q eu era bonita demais pra sentir isso… Estou me reerguendo internamente por mim mesma e COMO é desafiador! Um dia de cada vez. Ansiedade aqui é mato. Remédios, parei. Agora quero viver, fazer tudo q antes tinha medo e buscava perfeição, me cuidar e ser feliz! Gratidão pela partilha.

  5. PAMELA ALVES CARDOSO says:

    esse texto tá muito em sintonia com a transição que me sinto passando. tenho 26, eu quase não choro, mas quando choro pareço uma criança mesmo! é um drama menina! e realmente o choro tem um papel de destaque nessas situações de crises de identidade pq a gente imagina ou acredita, muitas vezes, que pessoas adultas não choram tanto, mas esquecemos de lembrar que dentro do ser adulto está o adolescente e tb a criança, principalmente na adulta recente né kkk
    tento me lembrar : “gata, você passou muito mais tempo sendo criança e adolescente do que a adulta até aqui, calma.”
    parabéns pelo texto, incrível

  6. Olivia Castro says:

    Adorei a texto! A parte em que você fala ” e no fim do dia ainda me sinto… uma adolescente” caiu como uma luva.me senti abraçada com esse texto!

  7. sara says:

    carol, eu ainda tenho medo do meu adultecer, mesmo ele parecendo um tanto mais distante em alguns sentidos. pensar na ideia de crescer me faz sentir um medo que me coloca de novo no lugar onde não quero estar, me faz prender o ar. é um processo bastante complicado, eu acho, mas é hora de deixar ir, inclusive o meu choro de menina. o texto tá lindo, como sempre!! ah, e obrigada por me ajudar a respirar.

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