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Perder a virgindade é melhor para quem é da Geração Z?


Na segunda vez em que eu tive câncer, quando eu estava internada no hospital, um dos meus maiores medos era morrer virgem. (Aposto que você não imaginou que a frase terminaria assim.) (A não ser que você seja minha amiga e conheça meu humor curioso.) (E por curioso quero dizer de mau gosto.)

Ser adolescente no começo dos anos 2000 representava criar um ritual para perder a virgindade. Aniversário de 1 ano de namoro, lingerie especial, dia dos namorados, namorado sério, pétalas de rosas, luz de velas, juras de amor, aquela coisa dos filmes da noite de formatura do Ensino Médio. Como o clássico Crossroads, com Britney Spears. A gente costumava achar que perder a virgindade é uma experiência que muda a nossa vida (existe algo mais machista do que pensar que a presença de um homem vai mudar quem somos?).

A própria expressão “perder a virgindade” implica que algo será, adivinhem, perdido. Levanta a mão se você já ouviu variáveis de “Você só pode perder a virgindade uma vez” ou “Essa pessoa não merece minha virgindade”. (Tá, pode baixar a mão agora.)

Como jornalista investigativa, contatei uma integrante da parte mais nova da Geração Z, que nasceu mais ou menos quando a gente estava perdendo a virgindade. Digo, transando pela primeira vez. “A conversa sobre a virgindade é muito presente na minha vida e das minhas amigas,” contou Júlia, 17. No choque entre millennials e geração Z, há muitas diferenças. Mas também há semelhanças: existe ainda um estigma em relação às meninas que perdem a virgindade mais cedo e também existe uma influência negativa de pais e mães controladores e repressores.

Ainda assim, muita coisa mudou: “É o nosso corpo, ninguém tem que falar sobre isso,” Júlia fala. Eu perdi a virgindade ao som de versões de músicas famosas em quarteto de cordas, o que pode ser um pedacinho do sonho dos anos 2000. Mas todo o resto ficou em falta, e que bom, porque seguir a lista de obrigações & expectativas pode ter o efeito colateral de gerar frustração & desilusão. Alguns estudos ao longo dos anos sugeriram que essa expectativa exagerada, que tem como combustível a vergonha e a ansiedade obsessiva, pode intervir na vida sexual a longo prazo. O que, cá entre nós, não precisava de muita pesquisa, né? Quem se sente mais confortável e mais livre vai ter mais prazer, é quase uma equação matemática. Mais ainda: as pesquisas sobre o tema cada vez mais provam que é a cultura da pureza, e não a perda da virgindade, que causa o impacto nas nossas experiências sexuais ao longo do tempo.

“Eu e minhas amigas sempre falamos que vai acontecer o que tivermos vontade na hora que tivermos vontade e a opinião de ninguém tem que importar.”, confirma Júlia. O que importa é simples: “Tem que ser alguém confiável, porque existe estupro. Tem que ser legal contigo, não pode ser um babaca, tem que ser alguém que você goste e se sinta confortável.” Essa lista parece bem mais factível – e, na minha história pessoal, eu teria conseguido dar ok em todos esses pontos.

Talvez por isso seja eu aqui, falando sobre sexo – não, sobre prazer feminino. Porque sentir prazer nunca foi um problema. E talvez, conforme as ideias das gerações mais novas penetrarem na sociedade (trocadilho intencional), toda essa coisa de sexo seja menos restrita e endeusada. A ideia de sacralizar o sexo, além de partir de uma perspectiva religiosa carregada de culpa, tira toda a possibilidade de ser algo leve.

“A gente nem pensa em ritual,” ela me fala. As primeiras vezes podem ser divertidas e gostosas, mesmo que nervosas, mesmo que com frio na barriga. Mas não precisam ser carregadas de expectativas, como se a gente fosse virar outra pessoa no dia seguinte. “Não é como se fosse ser perfeito, como se a primeira vez fosse algo lindo,” ela resume. E faz sentido. No dia seguinte, eu ainda era a mesma Clarissa.

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