OBVIOUS

Não existe Oscar de melhor performance por fingir orgasmo


Todas nós estivemos lá, morrendo de tesão, antes de descobrir que o cara aprendeu a transar vendo pornografia. E daí vem a supresa (ou pelo menos uma leve depressão): o clássico masculino do promete mas não cumpre. Então, enquanto ele acha que tá arrasando, você começa a pensar no que precisa comprar no supermercado, ou na lista de tarefas do dia seguinte no trabalho, ou em quem vai sair no paredão do BBB. E daí você finge um orgasmo.

Todo cara que passa pela sua vida (ou pelo menos uma boa parte) implora pela sua sinceridade, mas, sendo sincera, eles não têm o ego preparado para a verdade. Que é: a maior parte dos caras não fode tão bem assim. Lá no Instagram, mais de 95% das mulheres alegaram fingir orgasmos e quase 75% têm certeza que o parceiro não percebeu. Entre os homens, quase 25% acreditou que nenhuma mulher fingiu orgasmo com eles.

A discrepância estatística é engraçada (auto-estima de homem tem que encapsular e vender #sabedoriasBBB), mas os motivos são sintomáticos e preocupantes. Fingir orgasmo pro cara não ficar triste? É pra ser sexo, não terapia. Fingir orgasmo porque tá ruim e quer acabar logo? É pra ser sexo, não estupro.

Eu to falando sério. Fingir orgasmo pra acabar logo é um sintoma de uma geração que não entende e não aplica noções de consentimento. E, como Gail Dines costuma falar, “as feministas são as melhores amigas dos homens: nós acreditamos que vocês podem ser melhores, são os pornógrafos e outros homens que não acreditam.” (Eita. De repente essa festa virou um enterro.)

Desde o ano passado, eu decidi parar de fingir orgasmos (embora seja possível que haja recaídas no futuro porque são anos e anos de doutrinação). Estava à beira dos 30 e, de tanto ouvir sobre “viver minha verdade”, resolvi começar. Os benefícios apareceram quase instantaneamente: de cara, parar de fingir orgasmos é um tipo de filtro, porque ego frágil de homens é o antitesão. (Os caras falam sobre fantasiar com a professora mas não aguentam uma leve correção na prova prática?). E depois tem o compromisso social com a categoria. Parar de fingir orgasmos é um tipo de serviço público para as outras mulheres, é parar de dar o tal do feedback positivo pra quem não sabe o que tá fazendo.

Eu tive um ex que, enquanto transava bem mais ou menos, falava: grita, vai, grita. E eu pensava: mano, gritar da onde? Na real nem pensava, eu queria rir e entender de onde vem essa ideia que mulher tem orgasmos gritando, imortalizada na música brasileira com Luan Santana cantando “vamos acordar esse prédio”. Pior ainda: a obrigação de fingir orgasmo é calcada na falsa ideia de que tudo bem a gente não gozar sempre.

Há décadas e décadas, Betty Dodson, que tem 90 anos e parece superjovem (o que é apenas prova dos benefícios do orgasmo, tá, meninas?), ensina sobre prazer feminino. E ela fala que o orgasmo feminino é muitas vezes silencioso, delicado, mudo, interno. Que coisa linda, né?

Esse texto, manifesto, crônica, confissão – na verdade é um convite. Um ano sem fingir orgasmos. Um ano honrando nós mesmas, nosso prazer e nossos orgasmos. Diz que sim. Vai, grita.

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