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Bruxas e orgasmo na fogueira


Bruxas e orgasmo na fogueira
mensagem final dos artigos da Obvious

Sabe aquela frase que todo mundo já viu na timeline pelo menos 12 vezes só no mês passado e que diz “somos as filhas das bruxas que vocês não conseguiram queimar”? Isso meio que pode ser verdade, dependendo do jeito que você pensar. Não quero falar de genealogia ou das imigrações (segundo a pensadora contemporânea Laura Seraphim, eu, como gostosa, não preciso saber geografia), mas do significado metafórico da frase. A caça às bruxas foi, também, a caça ao orgasmo feminino. (Sim, mulheres gozando são um problema desde o século IV!)

Em Calibã e a bruxa, a autora Silvia Federici investiga as implicações políticas e sociais por trás da inquisição, que durou séculos, matou milhões de mulheres e foi reduzida a uma imagem quase folclórica da história. E uma das partes dessa perseguição foi a nossa sexualidade.

A inquisição alegava que o desejo sexual era um poder que as mulheres tinham sobre homens: “uma mulher sexualmente ativa constituía um perigo público, (…) e para que as mulheres não arruinassem os homens, a sexualidade feminina tinha que ser exorcizada.” Olha só, encontramos o comecinho da tendência de culpar a vítima. 

Vamos às mais loucas acusações: as mulheres supostamente faziam pacto com o demônio e eram culpadas de infanticídio. Na vida real: elas sabiam gozar, entendiam de ervas, tinham papel de curandeiras e parteiras, e sabiam induzir o aborto (#goals #dreamjob #girlboss). Isso porque, para os hereges e as bruxas, o sexo tinha um valor místico e era tratado como um sacramento. (Quem diria que a Valeska Popozuda reafirmaria as crenças pagãs em “My pussy é o poder”?) 

As bruxas eram chamadas de pervertidas e acusadas de transgressão sexual (ou seja, todas nós), enquanto seus rituais de sabá – como, por exemplo, aquele que chamamos hoje de Halloween – eram descritos como uma monstruosa orgia sexual e uma reunião política subversiva (seria meu sonho?). 

Nos julgamentos por bruxaria, a má reputação era prova de culpa e a virgindade era um sinal de inocência: ou seja, a inquisição foi mesmo sobre o cerceamento do prazer feminino. Quem diria que nosso orgasmo é tão poderoso que deixou uma sociedade inteira assustada por séculos? (Aliás, será que esse medo acabou?…)

Acho que dá pra dizer que gozar pode sim ser considerado um poder mágico. Já lá nos anos 90 a Kathleen Hannah tava cantando que acredita nas possibilidades radicais do prazer – e sabe o quê? A gente também vai acreditar.

Então é isso. Pega a vassoura (eufemismo para dedo ou pênis ou vibrador) e sai voando por aí, um pouco mais bruxona com cada orgasmo.

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