OBVIOUS

A história da sexualidade segundo Virginia Woolf e Luisa Sonza


Poucos sabem, mas Mrs Dalloway foi dedicado a mim e começa com a seguinte frase: “Clarissa decidiu que ela mesma compraria Flores”, uma referência à música de Luisa Sonza e Vitão. Tá, eu admito, uma das informações acima é mentira (e por uma eu quero dizer ambas). Mas vamos ao que interessa: o que a Virginia Woolf, a Sylvia Plath e a Luisa Sonza têm em comum?

a) são brancas e classe média
b) têm questões sobre sexualidade e machismo
c) tiveram episódios de depressão

Isso mesmo, exatamente, todas as alternativas.

No caso de Clarissa Dalloway, temos a admiração (e por admiração quero dizer tensão sexual) que ela sente pela amiga Sally, uma mulher que se desprende de alguns conceitos relacionados à opressão.

A frustração é dupla: além do tesão não saciado, diversas questões de gênero interferem no estado psicológico da personagem. (Ah, se tivesse Lexapro na época daquela Clarissa! Na vida dessa Clarissa ainda bem que já existe.) Foi Virginia também que criou o termo “anjo do lar”, que ela considera ser o maior inimigo das escritoras e mulheres independentes por personificar a figura totalmente altruísta que se sacrifica todos os dias em prol da família e dos deveres do casamento.

Falando em casamento e polêmica, bom… pode entrar, Luisa Sonza! Tendo uma vida que rejeita, o tempo todo, o anjo do lar, mesmo quando era casada, ela foi relegada ao júri online. Foi de boa menina a pior do que se possa imaginar. Cem anos depois de Clarissa, ainda é proibido mostrar e assumir a própria sexualidade.

Nesse meio tempo, teve outra braba na história: a bela, nada recatada e mais ou menos do lar Sylvia Plath. Eis que fala Esther Greenwood, protagonista de A redoma de vidro: “quando eu tinha 19 anos, a pureza era a grande questão. Em vez de um mundo dividido entre Republicanos e Democratas, eu via o mundo dividido entre as pessoas que tinham feito sexo e as que não tinham.” Se você já leu o livro ou pelo menos os diários da autora, sabe que ela, assim como basicamente todas nós, ficou meio doida* durante aquele período em que os hormônios estão doidos.

(* Não estou me referindo aos seus problemas mentais. De qualquer forma, tenho lugar de fala como doida.)

Ter que aguentar na pele cada um dos desejos e abdicar parcialmente da carreira foram parte da sua angústia existencial. “Seria legal ser pura e casar com um homem puro, mas e se ele confessasse que não era puro depois de casarmos? Eu não conseguia aceitar a ideia de que uma mulher precisasse ter uma única vida pura e o homem pudesse ter duas vidas, uma pura e uma não,” fala Esther.

Seria expor a sexualidade um novo componente do anjo do lar na vida das mulheres, querendo impedir o crescimento profissional e questionando o sucesso? No quis diz respeito à Luisa, seus 25 milhões de seguidores e seu álbum novo sensacional (Doce22, te amo, entenda!), não tá dando certo.

Se reality show é pra imitar a vida real, a das mulheres é tipo uma sequência de provas de resistência. Quem dera a nossa vida fosse mais De férias com o ex (sem o ex, só com o, como que eles falam? Ah, é, salseiro) e menos Survivor. Precisa de resistência? Sim. Sorte? Também. Ser dona da própria sexualidade é um desafio diário.

Então vai lá comprar as próprias flores e, toda vez que aquela vozinha chata do julgamento aparecer na sua cabeça, respira fundo, pega o vibrador no modo turbo e fala pra ela: se toca 💦

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