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Relacionamentos Millennials entre pessoas normais.







Recentemente, li um artigo* que explicava que o envio do emoji de foguinho via stories não é, como eu tinha imaginado, uma forma de dizer que você achou a pessoa quente, hot, caliente. Aparentemente, é um trocadilho muito mais simples e inteligente: o foguinho é uma chama, ou seja, um pedido. Me chama, chama aqui.


*(Decidi substituir “TikTok” por “artigo” já que percebi que não era levada tão a sério quando falava que tinha visto tal informação em um vídeo de até um minuto. Desde então, meu capital social aumentou muito: todo mundo fica surpreso com a quantidade de artigos que cito!)


Em outro artigo (dessa vez de verdade), descobri que nossos antepassados nunca falaram em grunhidos. A comunicação entre humanos sempre trouxe algum tipo de clareza fonética, antes mesmo da categorização de palavras, gramática e sintaxe que temos hoje. Com cada vez mais ferramentas pra se comunicar, parece que pior ficamos.

Rever Gilmore Girls ou Sex And The City em 2021 é uma experiência anacrônica. E, pra nós millennials, também é parte do nosso repertório de lembranças adolescentes, de horas no telefone com amigas e pretendentes, de algum parente gritando pra desligar e liberar a linha. E agora, duas décadas depois, reduzimos essas interações ao segundo que demora pra enviar um emoji cheio de significados ambíguos.


Em “Pessoas normais”, de Sally Rooney (Companhia das Letras, 2019), os personagens de Connell e Marianne sofrem na mão dos deuses da comunicação. Acompanhando o relacionamento de ioiô dos dois (porque é composto de vais e voltas), seja nas páginas ou na tela, é fácil ficar nervosa. Se antes a gente gritava com a TV para avisar que o assassino estava atrás da vítima, hoje a angústia vem de algo mais sutil: incentivar a fala de sentimentos, vontades e vulnerabilidades.




A tendência atual é culpar as redes sociais por qualquer coisa. Nos relacionamentos, o problema é a comoditização que aplicativos como Tinder sedimentaram; ou é o Instagram com seus filtros e FaceTunes que criam pessoas inexistentes e expectativas irreais. Buscando “the problem with Tinder” (o problema com o Tinder) no Google, encontramos matérias críticas publicadas em veículos como BBC, Guardian, Washington Post e The Atlantic. A HBO lançou, em 2018, o documentário “Swiped”, uma iniciativa de Nancy Jo Sales (sabe, do Bling Ring?), aquela jornalista que julga, como sempre, os fenômenos da nova geração. A ansiedade de um problema financeiro geracional, a distância emocional criada por traumas infantis e a condenação social do ato de ficar vulnerável nunca aparecem como questões - até porque, é óbvio, as redes são muito mais fáceis de controlar.




A capa de “Pessoas normais” na edição brasileira coloca os protagonistas em uma lata de sardinha, uma figura adequada pra bolha de relacionamentos da nossa geração. Na vida millennial, nos colocamos em caixinhas também: dos quadradinhos do Zoom e do Instagram aos romances discretos exigidos pela farsa de se mostrar “nem tão interessada”, estamos isoladas, distantes, física e emocionalmente.




Se odiamos tanto Mercúrio Retrógrado, é porque ele é a personificação astral dos nossos próprios problemas de comunicação, elevando à máxima potência tudo aquilo de que tentamos fugir. Essa é a desilusão de uma geração inteira - e essa falta de controle em relação ao futuro talvez seja um dos motivos pelos quais amamos astrologia.



Quando conversei com Kristen Roupenian, autora do conto mais lido da história da New Yorker, ela falou que um dos grandes trunfos de “Cat person” (Companhia das Letras, 2019) é não saber exatamente o que se passa na cabeça de um dos envolvidos. Explorando significados de consentimento e de um tesão forçado em cima de uma atração meia boca, o conto ainda assim traz a comunicação entre o casal com um terceiro protagonista, entrando de penetra nesse menage à trois desastroso. Essa terceira entidade está nas suposições que a mocinha faz em relação ao mocinho (ou seria vilão?), na tentativa de ler a expectativa da outra pessoa, nas palavras não ditas, na confusão entre os dois, e nas mensagens de texto (que, inclusive, estrelam o clímax final da história).







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