Para tudo que já fizemos na vida existiu uma primeira vez. E pra toda primeira vez existiu um mesmo tipo de sentimento: o frio na barriga sem igual que só o incerto e o desconhecido podem despertar. 

 

Após a primeira experiência sexual, dizem que a virgindade é perdida. E acredito que seja possível pensar que em toda primeira vez perdemos de fato algo: a chance de passar pelo que aconteceu da mesma maneira, com a mesma falta de controle sobre o que pode rolar, com a mesma entrega ao acaso, à surpresa, à novidade. 


Conforme os anos passam, menor se torna o espaço amostral das experiências novas que podem ser vividas. Em tempos de isolamento, então, esse espaço se torna mais limitado ainda.

Por isso, vislumbrar a chance de fazer algo inédito em meio à pandemia chamou minha atenção forte enquanto eu lia uma thread no Twitter, na qual uma menina contava sobre a experiência de ter tido oito dates pelo zoom, de cinco minutos cada um, com pessoas totalmente desconhecidas. 

Quando terminei de ler o relato, cai no Instagram do projeto responsável por organizar toda a parada, o @loveisinthecloud, e vi que uma amiga seguia a página. Fui perguntar se ela já tinha participado, estava 100% encantada com esse futuro sendo feito até no campo das relações e dos relacionamentos, por pessoas que estavam olhando para o agora e fazendo desse limão, uma limonada diferentona, criando apesar de todos os pesares - que, vamos combinar, são muitos. 

Essa amiga foi quem me indicou para viver a experiência - porque também tem isso: só rola participar sendo indicado por alguém que já tenha participado - e no dia seguinte ao da nossa conversa, recebi uma mensagem com o convite. Era quinta-feira e o início de um frio na barriga que eu não sentia há tempos!

 

Na sexta, dia dos oito dates em si, recebi mais uma mensagem com instruções básicas de acesso à plataforma onde tudo aconteceria e recomendações do tipo: tenha com você um gorozinho do seu agrado, água, um objeto que  te represente, papel

e caneta.

 

Assim que terminei de jantar, fui tomar um banho e me arrumar pra ficar na sala, no maior mood Natal. A ansiedade só aumentava e quando a hora de viver a experiência chegou, meu coração tava batendo mais forte que tambor em pleno Carnaval - pensa na delícia!

O rolê dura aproximadamente uma hora e meia e no início rola toda uma introdução para explicar que teríamos uma pergunta por encontro para nortear o papo, visando induzir que fôssemos na contramão da superficialidade que muitas vezes permeia a paquera no ambiente digital. A Isa, idealizadora do projeto e host da experiência, também comentou sobre uma pesquisa que aponta que precisamos só de três minutos para saber se vamos ou não nos interessar por alguém. Bom, até aí eu já tinha bebido meia garrafa de vinho, o que deixou tudo um pouco mais fácil e fluido. 

Os caras eram todos bem diferentes entre si e em pelo menos dois eu daria uns bejo na boca numa festa qualquer. Na verdade, daria uns beijos especialmente em um deles, com quem descobri vários gostos e assuntos em comum nos míseros cinco minutos de papo que tivemos -  confirmando o estudo que a Isa trouxe -  e na única conversa em que ignoramos por completo a pergunta destinada ao encontro.

Quando os oito dates terminaram e eu comecei a sentir que estava retomando o controle da ansiedade e também dos meus batimentos cardíacos, a Isa perguntou se topávamos fazer uma rodada vale-tudo final, em que poderíamos cair com qualquer pessoa, homem ou mulher. Todos topamos e fomos teletransportados em pares para as salinhas reservadas.

E aí, gente, quando eu achei que já tinha vivido aquilo até o talo, que a experiência toda não era mais nova pra mim, o inesperado aconteceu: apareceu na minha frente uma mulher linda, interessantíssima, com quem descobri ali no vapt-vupt vários interesses em comum também. E antes que eu pudesse me recompor da surpresa, já estávamos as duas de volta à sala principal.

No final, a Isa explicou que podíamos escolher uma pessoa como a nossa eleita da noite e que devíamos enviar enviar esse nome para ela por mensagem. Ela ressaltou também que a pakera não terminava ali, mas continuava numa festa pelo zoom - que eu acabei entrando e me divertindo pacas, até chamei o boy que foi meu escolhido pelo nome errado, de outro boy com quem tava flertando no bate-papo (ai, tudo errado!!!). 

Long story short, até porque eu já falei demais, mandei pra Isa o nome do cara com quem o santo tinha batido como escolha masculina e perguntei se podia ter também uma escolha de crush feminina, que seria a mina do meu último date, o vale-tudo. Qual não foi a surpresa em receber um áudio da Isa, contando que em uma edição hétero tinha rolado uma superconexão entre duas mulheres??? Ou seja, ela também tinha me escolhido. Dei risada da coincidência e fiquei felizinha.

Afinal, então, era sobre isso? Se expor ao novo e se sentir viva, seja pela ansiedade que um primeiro encontro sempre carrega (imagina nove!), seja por gostar de alguém e ser gostada de volta? Talvez. Pra ser sincera, também não sei. Só sei que foi bom e que me diverti. Pra fechar, no dia seguinte acordei com uma ressaca daquelas e com uma mensagem da Isa contando que tinha rolado superconexão também com o boy.

Achar o amor na nuvem em dobradinha conta como sorte de quarentena? Gosto de pensar que sim.

Thaís Cezare