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Padrões estéticos formaram barreiras que impediram a autoestima feminina de se consolidar por muito tempo, por tempo demais. Para começar o futuro que a gente deseja, convidamos quatro mulheres a criar autorretratos de seus corpos, mostrando como elas enxergam as suas belezas.

"O meu corpo hoje é o meu maior orgulho, meu projeto mais bem sucedido. O meu processo foi dolorido, não vou mentir, hoje olho para trás e vejo o quanto judiei do meu corpo e do meu psicológico para poder me encaixar nos “ padrões” colocados pela sociedade. Foram mais de 10 anos ganhando e perdendo peso, fazendo dietas malucas. Depois de um tempo entendi que a solução era muito mais simples do que tudo aquilo, o que me faltava na verdade era a famoso autoestima, era olhar no espelho e ver que o meu corpo não precisava ser melhor do que ele já era. O meu corpo me proporcionou viver inúmeras experiencias, viagens, amores, e tudo isso só foi possíveis pq ele estava ali, saudável, independente de ser um corpo Gordo ou Magro. Foi aí então que comecei a relação mais linda da minha vida. Desde que comecei o meu processo de aceitação, o meu corpo mudou demais. Provavelmente, hoje, estou no maior peso que já tive na vida, mas também nunca estive tão saudável (comprovado através de exames hahaha ), ganhei algumas estrias, mas tudo bem, elas vieram para marcar algo na minha vida, não apenas a minha pele. Mesmo com tantas mudanças, que muitas vezes podem ser vistas como algo negativo, o que mais mudou em mim em todo esse processo foi que hoje eu sou extremamente FELIZ e tenho muito orgulho do meu corpo do jeitinho que ele é.

Não vou mentir e falar que a baixa autoestima nunca mais veio, ela de vez em quando dá as caras sim. Mas são nessas horas que eu exergo o quanto a minha vida ficou mais bonita depois que eu me aceitei para mim mesma, e esse é o passo mais importante, o olho no olho com vc mesma, o abraço no espelho, o encontro. O processo de aceitação é totalmente pessoal, cada um tem o seu tempo, mas eu te garanto que vale a pena cada pedrinha no caminho que vc for recolher. Escute o seu corpo, converse com ele, e acima de tudo aprenda a ama-lo. Posso te garantir que será a história de amor mais linda que vc vai viver na vida <3"

"Esse é o meu corpo. Ele esta comigo a 23 anos e passei boa parte desse tempo tentando aceitar suas nuances. Até que um dia eu percebi que tinha medo do que eu via porque não conseguia compreender. Depois desse dia comecei a estudar suas formas, isso me trouxe um novo olhar. Me fez perceber que estava passando tempo demais focando nas coisas erradas. Um dia após acordar passei alguns minutos me olhando no espelho, cada um dos traços. Naquele dia, pela primeira vez, eu pude sentir minha essência e nesse dia eu me senti linda pela primeira vez. Naquele dia eu amei o meu reflexo.

Uma estrada para a autoestima não é fácil mas ela começa com um passo. Quando senti que precisava fazer algo sobre isso, sobre mim mesma e a forma como via meu corpo, comecei com tentar parar de gastar tanto tempo odiando cada aspecto do que me fazia eu. Pois quando paramos de procurar motivos para não amar podemos começar a admirar e cuidar de nós mesmos. Reflita sobre sua relação com seu corpo. Mesmo que hoje você não se sinta em condições de se autoamar totalmente como gostaria, comece deixando de se odiar."

"Antes de me tornar mãe, não tinha o costume de me elogiar, de enxergar beleza no meu corpo. Assumo que por muitos anos fui muito cruel comigo e não peguei leve com o julgamento sobre meu corpo. Passei anos escondendo meu abdômen com roupas largas, enchendo a cara de base numa pele que não tinha defeito algum (ao meu olhar atual). Deixei de curtir muitos momentos legais por achar que não estava nos padrões do corpo ideal. Aos 30 anos de idade comecei a ter uma percepção totalmente nova e sem tanta negação sobre meu corpo. A gestação e as mudanças drásticas, físicas e mentais, me trouxeram uma nova percepção de belo. Aprendi a exaltar meu corpo e me olhar com carinho. A enxergar beleza onde existiu negação por anos.

Quilos a mais na balança, celulite, estrias, o peito fica e n o r m e, vivendo uma constante frequências de cheio e murcho (rs) - sim, isso fez eu amar meu corpo. Mesmo após uma cesárea indesejada e uma nova cicatriz (aprendendo a lidar com ela ainda), tenho vivido minha melhor fase, a aceitação. Meu corpo jamais será o mesmo, agora ele carrega marcas da melhor decisão da minha vida como mulher, que foi gerar o meu filho. Respeito as mudanças sendo gentil com elas, me olho no espelho e me acho uma mulher forte e linda. Existe uma romantização na gravidez, onde tudo parece maravilhoso, quando na verdade é difícil e exaustivo. Sobre a maternidade? Nem se fala.. Mas sobre meu corpo, foi o maior romance que vivi nos últimos tempos e prometi que será eterno."

"Referência é uma palavra muito importante pra mim e, com certeza, ela tá presente em 95% das minhas frases quando o assunto é aceitação. Referência foi – e ainda é – o que me faz sentir que tá tudo bem existir. Louco, né? Quando você precisa assimilar que tá tudo bem ser você pra daí conseguir (ainda com altos e baixos) ser de fato. Até hoje eu lembro que numa festinha de aniversário de um dos meus coleguinhas da 4ª série, assim que eu entrei na piscina junto com as outras meninas da sala, que eram brancas e bem magras, o menino – pelo qual eu, inclusive, era apaixonadinha na época – gritou pra todo mundo ouvir: eca!!! a bruna tá de biquíni, que nojo! olha quanta celulite!

 

Evidente que isso contribuiu, junto com muitos outros momentos em que eu ouvi absurdos sobre a minha aparência, pra construção de uma relação de ódio com o meu corpo que durou muito tempo. Papo de eu evitar de me olhar no espelho incontáveis vezes porque, quando olhava, chorava querendo outra imagem, outras medidas, outro cabelo, outros traços – coisas que nunca me pertenceram. Até que uma coisa me fez despertar de um pesadelo que eu achei que nunca ia ter fim: r e f e r ê n c i a.

No momento em que eu percebi que o ódio que me atingia não vinha de mim e passei a me cercar de imagens de mulheres com quem eu me identificava, eu me entendi dentro de um corpo preto – e mais: de um corpo normal. Um corpo que tem marcas, que tem manchas, que tem dobrinhas (!!!) e pêlos. Um corpo de (e com) verdade. Puro e simples.

Depois de muito tempo me odiando, entendi que meu corpo não tem que ser celebrado por não ter gordura, e sim porque ele me carrega. Porque ele me leva até onde eu quero ir, me comunica quando tem algo errado e quando eu fui longe demais, do tipo: ei, anja! bora deitar e dormir que você já não aguenta mais?

Quando você é uma mulher preta, as pessoas querem que você pense que seu corpo é tudo, menos seu. Elas se sentem no direito de dizer que "tá na cara que você é boa de cama" ou "mas como assim não samba com uns pernão desse???” + o resto das baboseiras gordofóbicas não-solicitadas que toda mulher escuta. Mas xô contar um negocinho: meu corpo é tão meu que eu faço com ele o que eu quiser (vide foto). E faço tanto, que cuido, respeito e, finalmente, habito com orgulho, com todo o cuidado, atenção e paciência que ele merece. Então fica aqui essa carta aberta pros meus dois braços, minhas duas pernas, meu buchinho, minhas coxas, meu bumbum e todo o resto: eu sempre me senti vulnerável em relação a vocês, mas a verdade é que se aceitar vulnerável requer muita coragem. E hoje eu acordei corajosa como nunca..."