É que eu sou e sempre fui dessas pessoas agitadas, inquietas, cheias de projetos e com planos mil – por planos entenda desde uma listinha chinfrim nas notas do celular com bares e restaurantes a serem visitados até um roteiro planilhado day by day para a próxima viagem.

 

Também sempre fui dessas pessoas que encontram um prazer imenso em estar na companhia do outro, em desvendar o novo ao lado de um amor, de um amigo e até do cachorro. Sim, um prazer gigante em bater papo, perna e – porque não? – na porta do desconhecido pra ver o que é que tem do outro lado. Tudo isso sequencialmente e no repeat, claro, como boa sagitariana que sou. 

Poderia mentir dizendo que foi fácil e natural deixar de olhar pra fora e passar a olhar pra dentro, deixar de tentar abraçar o mundo e passar a tentar alcançar pura e simplesmente o que estava dentro de mim: as minhas questões, o que me cerca, o que me dói, o que me assusta e me angústia e também o que me constitui, o que me sustenta, o que me faz continuar. Mas não foi. A verdade é que foi todo um processo.

 

Precisei estar sozinha e isolada fisicamente por algumas semanas para perceber que quando as distrações do mundo exterior diminuem a chance de nos conectarmos com nós mesmas de maneira mais profunda aumentam. 

Em outros a gente vai chorar de saudade do que foi bom e até do que poderia ter sido bom, mas nem mesmo chegou a acontecer. A gente vai sentir o peito apertado, carregado de angústia, duma tristeza que dói, de impotência braba.

 

E às vezes vamos até anestesiar a passagem desses tempos estranhos maratonando uma série ou o estoque de açúcar e álcool do armário da cozinha (ep.01 brigadeiro, ep.02 vinhos) e tá tudo bem encontrar refúgio nesses e em outros lugares não tão ortodoxos desde que eles não se tornem os únicos nem os mais frequentes.

 

E, quando der, quando a gente puder, depois de ter reconhecido conscientemente cada um dos passos do nosso processo individual e único, espero que possamos nos lembrar que mesmo sozinhas, podemos sempre encontrar companhia do lado de dentro, podemos sempre abraçar todo o nosso mundo interior.

A oportunidade de olharmos pra dentro com calma, de reavaliarmos a relação que vínhamos tendo com nossos planos *negligência & procrastinação com projetos pessoais entraram na sala* com nossos desejos e também com o lugar que damos para que os outros ocupem (quantas vezes aquele date que você não estava tão animada para ir acabou sendo um bode expiatório para que alguns assuntos tenham sido deixados de lado? #reflita) é quem tá à espreita, esperando do lado de lá do olho mágico e batendo pacientemente a nossa porta pedindo para entrar.

 

Estar presente na relação consigo é poderoso e pode ser muito, mas muito revelador. Talvez, fora desse contexto, muita gente (eu claramente inclusa) jamais teria escolhido passar tanto tempo só na própria companhia. 

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