OBVIOUS
chapadinhas de endorfina

existe, enfim, gostar *mesmo* de atividade física?


Por algum motivo (cof, cof machismo) quando eu era pequena fui matriculada no ballet. Eu odiava. Tudo que envolvia aquele universo me dava asco: desde o gel e as puxadas no meu cabelo, desde cedo taxado de “rebelde”, até os mil pliés e a exigência de um senso de direita e esquerda que não tenho até hoje. O tempo foi passando e eu fui me moldando às expectativas dos meus pais. Fiz algumas amizades, comia o pavê da Ana com suco e tentava não ceder às pressões estéticas.

O que eu queria mesmo era fazer uma dança explosiva, tipo hip hop, mas não tinha coragem e achava que eu era toda dura, herança do ballet. 12 anos se passaram, os estudos deram uma apertada e eu convenci meus pais a me desmatricular daquela pequena tortura semanal. Aí que o corpo começou a pegar. Não que eu me sentisse bem com ele antes. Mas tirando os milhares de “encolhe a barriga” e “murcha o bumbum, que bailarina não pode ter bunda” eu tentava ignorar essa questão.
ballet chapadinhas
Como eu vivia à base de lanchinhos congelados, cereais coloridos e nutella, logo comecei a ganhar alguns quilinhos e me preocupar. Afinal, cresci vendo meus pais odiarem seus próprios corpos por não serem magros e aprendi a fazer o mesmo. Entrei no ciclo vicioso das dietas e como resultado adquiri compulsão alimentar. Resolvi partir para o _mundo fitness_ como estratégia e me matriculei na academia mais próxima de casa.

Levantar halteres e correr sem sair do lugar também não deu muito certo. Eu começava com a frequência lá em cima e depois virava turista na academia. Quem nunca? No mesmo balaio vieram o spinning, a zumba, a corda, o fit dance, e os ritmos: mais animados, mas também não me prendiam. Aqui pelo menos eu até conseguia manter uma constância e transformar em hábito. Mas ainda não era bem o que eu queria.

Alguns episódios de compulsão alimentar depois, eu resolvi continuar na busca por uma atividade que preenchesse meu coraçãozinho e me fizesse amarrar os cadarços com vontade. Até que encontrei meu lugar no jazz funk e no circo. Aí já era: nada me impedia de faltar. “Não contem comigo das 19 às 22”, eu dizia enquanto perdia dates, saídas com os amigos e me atrasava para aniversários de gente que eu amo. Obrigada pela paciência de quem ficou.

No meio tempo até parei de contar as calorias e quantos tipos de grão tinha em um pão ou saquinho de arroz, mas em compensação eu orquestrava todo o meu tempo livre em torno da dança explorando todos os professores e modalidades possíveis. Aulão sexta à noite? Check. Sábado de manhã? Check. Faltar aula para treinar ou aproveitar horários livres? Check também.

Pode-se dizer que troquei uma compulsão por outra? Talvez, mas poucos prazeres se comparam ao êxtase das coisas novas: amizades, amores, hobbies, séries e às vezes até um trabalho que chegou de surpresa. Aquela paixão inicial é sempre uma delícia, ainda que viciante. Nada como um friozinho na barriga para agitar a vida de uma ariana em movimento.
Com o tempo e uma pitada de amadurecimento, percebi que não é tão saudável levar meu corpo e seus desdobramentos tão a sério e comecei a me moldar aos novos formatos de mundo, de rotina e de equilíbrio. Afinal, chapar de endorfina entrou na minha vida para me dar prazer e eu não preciso almejar ser bailarina da Pabllo Vittar, posso curtir da plateia.

Hoje me desloquei da dança e do circo para o surfe e o funcional por motivos de logística, mas ambos me deram aquele frio na barriga inicial também. Na verdade, o surfe ainda me dá todas as vezes que entro no mar e vejo uma onda na minha frente (sim, eu morro de medo). Mas a questão aqui é: talvez a sua atividade física não venha de primeira, segunda ou terceira, mas siga tentando chapadinha, o seu momento vai chegar. E digo mais: tá tudo bem ser intensa, mas nada de soltar as rédeas da sua vida, hein?

8 thoughts on “existe, enfim, gostar *mesmo* de atividade física?

  1. Tatiane Monteiro says:

    Ameeeei muito, pois hoje tenho uma relação muito diferente com meu corpo. Tenho muito orgulho de tudo que ele pode me proporcionar e tudo que um dia ainda proporcionará. Me sinto com um caminho de mil possibilidades com relação a próxima atividade física. Hoje eu corro, faço Yoga e fortaleco para aguentar o tranco. Mas já tenho namorado as próximas aventuras. A possibilidade de ressignificarmos foi algo único para mim, pois exercício físico para mim antes era para emagrecer, ter corpo padrão. E hoje vejo como era limitada e quão terapêutico é para mim me exercitar. Obrigada pelo relato. Que não nos falte coragem para nos jogarmos em novas aventuras, amarmos o nosso corpo e encontrarmos o que faz o nosso coração vibrar.

    • Isabella von Haydin says:

      que comentário lindo, Tatiane! Nossa, fico muito feliz em ler isso e saber mais da tua relação com teu corpo, exercício é bom demais e devia ficar só nisso, né?? atenta nas suas próximas aventuras, vamo que vamo!

      muito obrigada por vir aqui e se abrir comigo <3

  2. Francielly says:

    Maravilhoso ler isso. Com toda a certeza a palavra é equilíbrio, depois de longos praticamente 3 anos sedentária, estou achando meu lugar na natação. TUDO.

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