Mas não é da obra-prima de uma autora contemporânea sensacional que eu falo. Falo de um livro anterior a esse, chamado “Olhe para mim”, publicado originalmente em 2001 (Intrínseca, 2014, no Brasil) (por acaso, eu juro que não tinha percebido isso antes, a epígrafe é um trecho de “Ulysses”, do James Joyce). Na história, ela nos apresenta uma startup que está criando um programa de internet baseado em gravar todos os detalhes da vida de pessoas contratadas. 

No começo do novo milênio, a autora Jennifer Egan previu o TikTok. Tá, talvez não o TikTok, mas os stories. Essa versão de reality show em que nós mesmos somos estrela, câmera, roteirista.

 

Eu li Jennifer Egan pela primeira vez em 2012, eu tinha 20 anos e queria parecer intelectual na federal de comunicação em que tinha recém entrado. Pulitzer, ela ganhou o Pulitzer, eu dizia depois de ler o selo na capa e digitar “o premio pulitzer eh importante” no Google.

 

Confesso que nunca tive as melhores credenciais de leitora/escritora, modéstia à parte. Até gosto de cultivar essa imagem, uso frases como “Ulysses, que Ulysses, daquele filme Troia?” e me divirto internamente. Minha mãe chama isso de terrorismo psicológico. Eu chamo de bom humor. Felizmente compenso a falta de formação com um bom olhar literário e, mesmo sem conhecer prêmios do mercado, “A visita cruel do tempo” (Intrínseca, 2012), de Egan, foi arrebatador. Os pulos cronológicos, as mudanças de narradores e vozes, as referências culturais e musicais - e um capítulo inteiro em PowerPoint! E eu falei que ela foi modelo na adolescência? 

A qualquer hora, um assinante entraria no serviço e poderia escolher qual pessoa, do catálogo imenso, quer assistir. O catálogo é composto por Pessoas Comuns, que merece a letra maiúscula por ser o nome da startup e também estereótipo inalcançável. Uma dessas pessoas é um morador de rua que, pela injusta situação social, teria uma história interessante capaz de angariar dinheiro pela exposição da tragédia. Em algum momento, a epifania chega: na primeira vez na vida em que tem dinheiro para comprar uma casa, essa compra é impossibilitada porque a fonte do dinheiro vem do fato de morar na rua.

O CEO explica mais ou menos assim: o serviço entrega uma autenticidade que a TV, os livros e os filmes não conseguem por não serem reais o suficiente. Sem edição, roteiro, direção ou publicidade, o programa, cuja única fonte de renda era a assinatura, seria genuinamente verdadeiro. Aqui talvez esteja a maior dissonância entre ficção e realidade: os stories hoje são editados, roteirizados, dirigidos e cheios de publicidade. Que vacilo, Egan!

No começo da minha carreira no marketing digital, há uma década, os influenciadores eram chamados de disseminadores e eram, em sua maioria, blogueiros e twitteiros. Com o YouTube e, principalmente, o Instagram engatinhando pelos celulares, o blog e o Twitter (com 140 caracteres) ainda reinavam magnânimos.

Ao contrário da geração X, cujo consumo de conteúdo era majoritariamente lento e offline, os millennials e a geração Z compreendem de forma diferente não só o que consomem mas a atenção concedida pra cada atividade. (Não é à toa que os romances clássicos eram muito mais longos que os livros contemporâneos - quem tem mil horas pra ler e mais ainda escrever calhamaços?) Mas não é só isso: nascidas e crescidas no mundo dominado pela publicidade, essas gerações não têm tempo pra conversa fiada, lero-lero, papinho (em gírias de todas as idades). (Contrariando expectativas criadas nesse mesmo parágrafo, vou citar um calhamaço: a questão publicitária é muitíssimo bem exposta em "Graça infinita”, de David Foster Wallace (Companhia das Letras, 2014), em que os anos perdem a numeração e são nomeados pelas marcas que os patrocinam - ou seja, não teria mais o ano 2021, e sim o Ano da Marca Z.)

 

Não é só falta de atenção: se a informação pode ser dita em um minuto, por que gastar dois, três, cinco? Cabe tudo em 1 mísero TikTok, em 4 stories separadinhos perfeitamente pela própria plataforma.


É a tal da economia da atenção, definição que tem o grande trunfo de reduzir mais um impulso humano a valor financeiro. Ah, esses publicitários!

A pergunta de um milhão de dólares (pra seguir a lógica monetária) da atualidade é: qual é o futuro do conteúdo e da informação?

 

Bom, ainda bem que a Jennifer Egan está escrevendo um novo livro. Vai que a resposta está lá?

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