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Tirando da gaveta: autoestima para (sobre)viver no verão, com Ray Neon


mensagem final dos artigos da Obvious

Marcela Ceribelli: Quando você pensa que o verão está chegando, quais são os pensamentos que vêm na sua mente? Se algum deles passa a possibilidade de mudar algo no seu corpo para se sentir mais à vontade nos dias de sol, não se culpe, até porque, definitivamente, você não está sozinha nessa. Isso é uma construção social que não é nada culpa sua. Parece que enquanto a temperatura e as preocupações estéticas aumentam, a autoconfiança feminina despenca. Por mais resilientes que sejamos, é um desafio ignorar os estímulos que recebemos por todos os lados: “projeto verão”, “corpo de praia” e por aí vai. Estamos juntas com Natura Todo Dia nesse verão, para você tirar com gosto o biquíni da gaveta, para ser muito feliz nessa estação e viver o que sempre esteve aí dentro de você. Bom dia, Obvious. Eu sou Marcela Ceribelli, CEO e diretora criativa da Obvious e hoje converso com a jornalista Ray Neon sobre a construção da autoestima sólida e resistente a todas estações do ano.

Marcela Ceribelli: Ray, muito bom dia. Como você está?

Ray Neon: Eu estou ótima e você?

Marcela Ceribelli: Eu estou muito bem. Ray, esse podcast é praticamente uma continuação de um papo que começamos há algumas semanas atrás no estúdio, mas para quem não te conhece ainda, você pode ser apresentar?

Ray Neon: Oi, gente. Eu sou a Ray Neon, sou blogueira, tento desmistificar o corpo gordo, mostrar que está tudo bem ser quem você é e falo bastante sobre saúde mental também.

Marcela Ceribelli: Ray, eu sei que a sua jornada com o corpo começou lá atrás com o sonho de ser bailarina, não sei se todo mundo sabe, mas você pode contar um pouquinho?

Ray Neon: Eu cresci no ballet clássico, minha mãe foi bailarina do teatro municipal e o sonho dela é que eu fosse bailarina, mas com 10 anos eu ouvi uma frase que me deixou muito chateada. Meu sonho era competir em Joinville, o meu irmão era bailarino também e foi convidado para participar do grupo que ia competir e na hora eles falaram assim para ele “a sua irmã dança muito, queríamos chamar ela, mas ela é gorda” e isso ficou na minha cabeça por muito tempo. E eu ouvi os bailarinos mais velhos falando no camarim que eles vomitavam e eu pensei, por que não? E foi quando eu comecei a ter bulimia, dos 10 aos 17 anos e o meu processo de amor próprio começou com 18 anos. O meu sonho era fazer uma bariátrica e comecei o processo para fazê-la, fiquei quase um ano conversando com psicólogos, médicos, sobre o risco cirúrgico e tudo estava encaminhado, até que chegou o dia de marcar a cirurgia e eu desisti, me dei mais uma chance, dessa vez não era uma chance para fazer uma dieta milagrosa, era uma chance de me amar, entender o meu corpo e conhecer quem eu era. Essa foi a melhor decisão que eu tomei na minha vida.

Marcela Ceribelli: Que lindo, tenho certeza que sim. E eu sei também que a ioga teve um papel nesse processo, como foi isso?

Ray Neon: Eu tenho transtorno bipolar e lido com ele desde a minha pré-adolescência, é um diagnóstico muito difícil. Quando eu tinha 15 anos entrei em uma crise depressiva muito forte, eu estava tentando fazer de tudo para sair daquela situação e as pessoas falavam que se exercitar ajudava, sendo que eu estava cheia de problemas com a dança. Eu tinha finalmente conseguido largar o ballet, percebi como aquilo estava me fazendo mais mal do que bem e foi aí que eu descobri a ioga. Lembro que fui fazer a minha primeira aula e vi que podia fazer várias coisas por conta do ballet, mas algumas outras posições eu não conseguia fazer, por causa do volume do meu corpo e a professora falou “tenta desse outro jeito” e eu vi que o meu corpo não era um impedimento, mesmo que se eu não conseguisse fazer uma posição da forma que uma pessoa magra consegue, eu conseguia fazer do meu jeito e eu fazia várias outras posições que o meu corpo me permitia. O meu corpo era abraçado na ioga, eu podia ser quem eu era e sem me sentir mal com isso, nunca ouvi dentro da ioga que eu tinha que emagrecer ou que o meu corpo não era aceito, na verdade, o meu corpo era celebrado. Mas eu larguei e só fui voltar em 2017, já estive mais presente fazendo ioga duas vezes por dia, mas por conta do meu transtorno bipolar e da quarentena isso me afetou de uma forma muito difícil, todo dia é uma batalha.

Marcela Ceribelli: Quando você fala de celebrar o corpo, eu acho que a ioga é sobre isso, é uma grande celebração e quando você posta as suas fotos de biquini fazendo a prática com esse contato com a sua pele, eu imagino que seja uma celebração ainda maior. Qual a importância de estar fazendo a prática com pouquíssima roupa?

Ray Neon: Existem dois lados da história, primeira coisa é que quando estamos praticando, a última coisa que queremos é a roupa impedindo o movimento, quanto menos roupa, melhor. À noite eu faço uma ioga sozinha e pelada, é um momento de olhar para o meu corpo, muitas vezes não nos amamos porque não conseguimos lidar com o nosso próprio corpo, não nos vemos peladas, não nos tocamos, não conhecemos quem somos. No meu processo de autoestima, uma das coisas que eu fiz foi a ioga na frente do espelho pelada, para ver como o meu corpo se movimentava e comecei a olhar para ele sem julgamentos. E às vezes eu penso “a minha barriga ficou muito grande”, e daí? Olha que movimento lindo que o meu corpo é capaz de fazer. E postar uma foto de biquini, mostrar que você se ama e se aceita quando você é gorda, é um ato político. É revolucionário quando conseguimos nos libertar dessas amarras que a sociedade coloca em nós.

Marcela Ceribelli: E eu acho que tem um certo processo de aceitação e do body positive que não é da noite para o dia. Primeiro tem o lugar de aceitação e depois de amar esse corpo, precisa ter muita paciência nesse processo e é praticamente impossível você amar um corpo se não tem intimidade com ele. De fato, é exercitar isso, passar um tempo de biquini, de calcinha, pelada, se olhar no espelho, começar a conhecer o seu corpo detalhadamente, quanto mais convivemos, mais conseguimos entrar no lugar de aceitação para evoluir para esse amor. Pensando nesse crescimento de corpo positivo, eu acho que na mesma proporção que ele cresce, cresce o número de mulheres que se frustram, não conseguem se sentir bem com os seus corpos como eles são. Eu queria saber de você, que está em um lugar que as mulheres admiram, essa jornada é linear? Ou até você tem dias difíceis?

Ray Neon: O amor próprio é um processo e eu estou nele, ele é fluido como o nosso corpo. Se amar não é sobre se sentir incrível, maravilhosa e perfeita todos os dias, é saber que vão ter dias que você vai se sentir assim e outros que você vai se sentir um lixo, mas ter a consciência de que você não é, saber que você tem valor e respeitar os seus momentos, é um processo difícil, doloroso e não é rápido. Eu fico pensando na Raissa de 15 anos que olhava no espelho e sentia nojo, hoje em dia eu olho no espelho e tenho carinho e amor por cada parte do meu corpo, entendo que cada parte minha está aqui para representar quem eu sou. Tem uma meditação que eu faço para celebrar o meu corpo, olho para o meu rosto e agradeço, olho para os meus olhos e agradeço por poder enxergar, olho para os meus braços, mesmo gordos, agradeço por poder abraçar, olho para as minhas estrias e agradeço por elas estarem ali, agradeço pelas minhas pernas me levarem para onde eu quiser. No início era muito difícil pensar em coisas para agradecer em relação ao meu corpo, mas depois foi se tornando fluido e fácil. Às vezes não paramos para dar valor, o nosso corpo é o nosso lar, nosso templo, ele cuida de nós e só temos como olhar para ele com carinho.

Marcela Ceribelli: Eu acho isso muito bonito e eu ressignifiquei muito a relação com a parte do meu corpo que eu cresci odiando, cresci com meninas da minha sala que tinham as pernas muito fininhas e eu sempre tive a perna muito grossa, me peguei de uns dois anos para cá, amando muito a minha perna porque ela é muito forte. Então quando eu estou correndo, pedalando, fazendo kickboxing e eu vejo o quanto ela tem força, eu fico muito grata por ela e às vezes eu faço carinho nela.

Ray Neon: Isso é ressignificar, olhar com carinho e perceber a importância que aquilo tem para você e pensar no lado positivo das coisas, sem querer ser Poliana. E a minha primeira tatuagem foi “seja gentil consigo mesma”, porque o mundo não vai ser gentil com a gente.

Marcela Ceribelli: Eu acho que esse lugar de ser Poliana porque está sendo otimista vem de um lugar muito chato, como se o legal fosse ser pessimista. Make Poliana cool again, deixa a gente ser um pouquinho otimista com o mundo. Você falou sobre o processo individual, mas não podemos ignorar os fatores externos, tem um vídeo seu que você dá exemplos de comentários desnecessários, que milhares de mulheres escutam todos os dias e muitas vezes as pessoas não se tocam do que elas estão falando, são ataques velados. Quais são as suas estratégias para conseguir se blindar desses pequenos ataques e quais são os comentários que você acha que ainda são normalizados?

Ray Neon: Muito deboche e paciência. Existem essas micro agressões nas falas das pessoas, não chega a ser um insulto, a pessoa não percebe que está te agredindo, para ela é um elogio. Como quando ela fala que o seu rosto é bonito é como se ela estivesse anulando todo o seu corpo, por que ela não fala, “você é bonita”? O que mais acontece é, por exemplo, eu estou na fila do banco e a pessoa me passa uma dieta, eu não perguntei, não quero emagrecer e na hora eu falo “muito obrigada, mas eu não estou afim de emagrecer”. Quando você é fora do padrão, o seu corpo se torna público, as pessoas no meio da rua vão dar a opinião delas sobre ele. Teve um dia que eu estava no INSS e eu estava com uma blusa escrito “gorda” e a atendente me perguntou o que estava escrito, eu falei e ela me perguntou se eu gostava de ser chamada assim e eu respondi que é uma característica de quem eu sou e ela falou “quando eu era gorda, odiava que me chamavam de gorda” e começou a falar de como era um absurdo eu levantar essa pauta, como eu estava doente, que eu ia morrer, como a bariátrica era a melhor solução, porque ela fez bariátrica e mudou a vida dela, foi uma sequência de absurdos um atrás do outro e na hora eu fiquei chocada. Eu fui bem debochada, não lembro ao certo o que falei, mas tem até um texto que eu escrevi sobre isso, porque eu sou assim, estou muito bem e satisfeita. As pessoas sempre falavam que eu não ia arrumar um namorado, como se isso fosse o que me desse valor e é um absurdo, eu nunca tive problemas para me relacionar, mas as pessoas já diziam que eu teria e que era impossível eu ser amada. Hoje em dia eu sou amada por muitas pessoas e por mim mesma, olha como o que as pessoas falam é mentira, elas não têm ideia, muitas vezes elas falam sem intenção de machucar, mas acabam machucando. Por isso que temos que falar que elas não podem falar aquilo, porque magoa, é preconceituoso.

Marcela Ceribelli: Com as temperaturas subindo e o verão se aproximando, a situação fica ainda mais delicada. Não sei dizer com que idade eu ouvi a primeira vez que, para você estar bem no verão tem que fazer um projeto, desde que eu tinha 12 anos eu tenho uma ideia que o verão combina com alguma dieta. E é uma mega agressão desde que somos muito novas. Como é para você hoje sentir que as temperaturas estão prestes a subir? E como já foi um dia?

Ray Neon: Eu estou animada, já pego os meus biquinis. Mas eu passei grande parte da minha vida sem usar biquini, eu lembro da primeira vez que eu comprei um biquini, foi para uma viagem de formatura para o Hopi Hari e que depois iríamos para um parque aquático e nunca ficaria na frente da minha turma inteira de biquini, preferia não ter formatura, falei para os meus pais que eu não ia. Tinha uma amiga na minha sala que era gorda e ela pediu ajuda para comprar um biquini, eu fui com ela, foi muito difícil encontrar um biquini do nosso tamanho, mas ela me animou de ir na formatura. E lá na hora, eu lembro que sai do banheiro me escondendo com uma canga e a minha outra amiga gorda estava correndo com as outras meninas e indo direto para os brinquedos e eu a via cheia de celulite, com a perna balançando e queria brincar também. Foi um dia tão leve, percebi que ninguém estava reparando no meu corpo, só eu que estava com essa neura e estava reparando no corpo dos outros. Foi quando eu vi que as pessoas não estão nem ligando para você, porque elas estão se divertindo, parei de dar tanta importância e comecei a usar mais biquinis. E todo esse na minha vida foi de quando eu fui fazer uma viagem para Cabo Frio com os meus amigos, estava escrevendo para o Instagram que me vi com um grupo de pessoas só magras e tinha que ficar de biquini com um monte de jovens, estava morrendo de vergonha e foi quando eu comecei a dividir essas coisas no Instagram. Então eu tirava uma foto e não editava a minha celulite e falava sobre ela, falava sobre o meu peito caído e foi um processo que fui me empoderando e ajudando a empoderar outras mulheres. Eu criei uma rede de amor e apoio na internet.

Marcela Ceribelli: Eu acho muito identificável isso que você está falando e que qualquer pessoa que está nos ouvindo já passou pela situação de odiar o aniversário da amiga porque vai ser churrasco e vai ter piscina, ou estar na praia e inventar que está menstruada para não tirar o short. Você não acha que o fator social é o que pega na hora de sofrer no verão?

Ray Neon: Somos muito auto referentes, acreditamos que as pessoas estão olhando e reparando na gente, então ficamos com medo e receosas. Claro que existem pessoas mesquinhas que estão fazendo isso, mas a maior parte das pessoas está vivendo a vida delas. Somos ensinados que o nosso corpo é indesejado e errado, tem um livro que eu amo muito que é o “Mito da beleza” da Naomi Wolf, ela explica que todas essas neuras foram criadas por um homem branco, rico e velho, que estava querendo vender e ele só consegue vender se a gente se odiar. Se não nos odiarmos, as indústrias da beleza e da moda nunca vão ganhar dinheiro, então ele depende do nosso ódio para conseguir lucrar e isso é cruel demais. Que bom que hoje as marcas estão conseguindo mudar e repensar isso.

Marcela Ceribelli: E quando você fala da sua história do Hopi Hari, eu penso muito da nossa relação com o verão quando somos crianças, é só sobre se divertir, ficar cheia de areia na cara, tomar uns caldos e vamos perdendo esse prazer. Você acha que recuperar essa relação com o verão é trazer um pouco de uma criança interior?

Ray Neon: Nunca tinha parado para pensar desse jeito e concordo 100%, é você estar ali sem ligar para nada, só se divertir e fazer amigos na praia.

Marcela Ceribelli: O que pega, no que estamos vivendo agora, é uma autoconsciência da nossa imagem, por exemplo, quando eu tinha 13 anos era uma cyber shot com 1 mega pixel, não era uma imagem tão fácil quanto as meninas têm hoje de um Iphone. Deve ser ainda mais cruel para elas ser tão consciente e eu também tenho muita compaixão pela dificuldade que elas estão tendo, acho que é ainda mais difícil de quando eu estava crescendo. Quantos anos você tem, Ray?

Ray Neon: Eu tenho 24.

Marcela Ceribelli: Você é 6 anos mais nova do que eu, então talvez tenha pego mais disso. Mas eu lembro que a primeira vez que eu vi uma foto minha com 13 anos em uma cyber shot e falei “ah, eu sou mais ou menos assim?”, me achei horrorosa. Acho que essa consciência da própria imagem e consciência da imagem das pessoas no Instagram, cheio de filtros e ângulos certos pode ser um fator agravante para a autoestima de quem está crescendo hoje.

Ray Neon: Além disso, tem a facilitação das cirurgias plásticas e dos tratamentos estéticos. É muito cruel essa comparação, ela não é justa porque as pessoas têm ângulos, filtros, tratamentos estéticos, é triste ver isso. Acho que uma das principais coisas no processo de amor próprio é seguir pessoas reais com o corpo parecido ao meu, eu via o perfil de cada pessoa e pensava se aquilo me fazia mais mal do que bem. E isso foi uma mudança completa para quem eu era, comecei a perceber que o meu corpo era real e bonito, tirar fotos minhas me ajudou também, entendi os meus ângulos, até que eu comecei a me amar mais.

Marcela Ceribelli: Ray, quais são as suas principais referências hoje? Quem todo mundo deveria seguir?

Ray Neon: A Tess Holiday, é uma modelo gringa maravilhosa, tem a Bells da @todebells, que é incrível e @hellobielo que é um ser humano maravilhoso.

Marcela Ceribelli: Que papo bom, acho que é para ouvir esse podcast no repeat, chegando na praia, isolada, para tomar sol nesse verão. E eu queria saber de você, Ray, o que você deseja que as mulheres tirem da gaveta nesse verão que vem chegando?

Ray Neon: Tirem o biquini da gaveta, coloque no seu corpo, passe um protetor solar e se não for para a praia, vai para a varanda, pegar um sol na janela, se puder ficar pelada, fica, convive com o seu corpo, se olhe no espelho. Você não consegue amar uma pessoa que não conhece, então se conheça, passe esse tempo com você. Você é incrível e uma companhia maravilhosa, conviva contigo.

Marcela Ceribelli:  Eu digo o mesmo para você, Ray. Você é uma companhia maravilhosa, obrigada por esse papo.

Ray Neon: Obrigada, amei demais, já estou me sentindo renovada.

Marcela Ceribelli: Mais uma vez, muito obrigada Natura Todo Dia, que trouxe as reflexões necessárias para essa conversa tão importante acontecer. Obrigada também a você, que nos escutou até aqui, mas a nossa conversa não tem fim. Continuamos semanalmente na nossa Newsletter que você pode se inscrever no www.obvious.cc , no Instagram @ObviousAgency e com comentários e sugestões sempre com carinho no [email protected] . Bom dia, Obvious.

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