OBVIOUS

Mudando de vida, com Beth Viveiros


mensagem final dos artigos da Obvious

Marcela Ceribelli: Pode vir aos poucos ou feito um tsunami mental, de repente, tudo o que você tinha certeza parece perder o sentido, pode ser o emprego, o relacionamento, a cidade onde você vive e não raramente, todos juntos ao mesmo tempo. A vontade de mudar de vida pode vir de uma busca por sentido, um impulso por novidades ou aquele desejo profundo de viver novas emoções. Só que quando ela chega, geralmente vem acompanhada do seu grande parceiro, o medo. Será que estou velha demais para mudar de profissão? E seu eu mudar de país e der tudo errado? Será que eu tenho coragem de abandonar tudo que eu construí até agora? Questionamentos muito comuns, ainda mais quando estamos em fechamentos de ciclos, como esse agora de 2019. Mas e aí, como lidar com o pavor do desconhecido e a busca pela coragem para tomada de decisão? Bom dia, Obvious. Eu sou Marcela Ceribelli, CEO e diretora criativa da Obvious e hoje vou conversar sobre grandes mudanças de vida com a Beth Viveiros, uma ex engenheira que um belo dia resolveu seguir a sua paixão e trabalhar como padeira.

Marcela Ceribelli: Bom dia, Beth. Obrigada por vir aqui, os obviousettes são muito fãs dos seus pães, rola uma comoção. Eu queria que você começasse se apresentando. Me conta quem é a Beth Viveiros e quem é a Beth Bakery.

Beth Viveiros: Obrigada pelo convite. Beth Viveiros sou eu, sou uma pessoa extremamente curiosa e imparável, em 2013 eu tive a ideia da Beth Bakery, que eu não consigo desvincular da minha pessoa. A Beth Bakery é uma micro padaria de produção artesanal e é a extensão da minha cozinha, tudo o que eu sempre fiz para os meus amigos, para as pessoas que iam jantar em casa, eu faço para a Bakery. Gosto de dizer que eu comecei a vender pães porque, se não, eu ia comer todos. Em 2013 eu trabalhava em uma empresa muito grande e meu pai ficou doente, ficou muitos anos internado e um dos momentos que ele estava internado, ele tinha variações de memória com Alzheimer, acordava e ficava falando de trabalho, sendo que já estava aposentado há 30 anos e aquilo começou a me dar um pânico, eu olhei para ele e tinha certeza que ia ficar daquele jeito, porque eu sou extremamente workaholic, só falo de trabalho, trabalho 16h por dia e me vi ali. Então pensei que tinha que mudar alguma coisa da minha vida e sabia que em qualquer área que eu fosse trabalhar, seria workaholic.

Marcela Ceribelli: É porque está em nós, bom, eu me identifico com o seu pai e estou até um pouco assustada. O workaholic não é só uma paixão, é uma paixão por cumprir coisas.

Beth Viveiros: Eu não sei o que tinha na cabeça do meu pai naquele momento, mas para mim foi um estalo bem grande de que eu tinha que fazer alguma coisa. Na época que eu fui escolher a faculdade, não se falava em profissões além de medicina, engenharia e direito. Eu tinha 17 anos, escolhi a minha faculdade e quis engenharia.

Marcela Ceribelli: O que é uma loucura, 17 é muito nova para tomar uma decisão dessas.

Beth Viveiros: E ter que trabalhar já era uma coisa da época, eu comecei a trabalhar muito cedo, a minha profissão naquele momento era secretária de uma empresa de engenharia, então a engenharia era o caminho para eu ser uma pessoa de sucesso. Lembro de falar que queria fazer engenharia e o meu avô falar que não me via na área. E 20 anos depois, eu estava trabalhando com engenharia, mas no meio desses 20 anos, eu tenho essa grande curiosidade do mundo, não consigo fazer uma coisa só, estudei fotografia, programação, fiz outra faculdade de desenho industrial e larguei, feirinha de artesanato, crochê e tricô. Eu sou essa pessoa que acontece, eu vou fazendo, tendo ideias e encaixando tudo em 24h. Em 2013 eu estava apenas trabalhando, olhei para o meu pai e pensei “o que eu estou fazendo? Tenho que dar cinco passos para trás e repensar o que eu quero da minha vida” e eu lembro que li vários livros que falavam para listar 10 coisas que você já tinha feito para ganhar dinheiro, além da sua profissão e eu coloquei coisas que tinha esquecido. Quando eu tinha 15 anos, comecei a vender sanduíche natural e trufas na escola, mas eu apaguei isso da minha cabeça, na época de prestar vestibular eu percebi que na porta do lugar não tinha uma lanchonete, fiz o meu pai comprar um engradado de água e a minha mãe fazer biscoito, parei na porta da faculdade e comecei a vender para as pessoas que estavam lá e não tinham água para beber. Só quando eu li esse livro, que me dei conta que tinha feito diversas coisinhas relacionadas à comida.

Marcela Ceribelli: Então você não enxergava a culinária como uma paixão?

Beth Viveiros: Eu sabia que era uma paixão, mas na minha cabeça era um hobby. Eu tinha a mentalidade de 17 anos que cozinha não era uma profissão, não dava dinheiro, aí olhei para a lista e vi que das dez coisas que eu tinha feito para ganhar dinheiro, sete eram relacionadas a comida, então eu tinha que dar um jeito. Em dezembro de 2013 eu saí do trabalho em um dia e no dia seguinte o meu pai teve alta do hospital. Não falei para minha mãe que eu tinha saído do emprego, inventei que eu estava de férias coletivas e emendei com as minhas férias, só para poder ficar mais perto dela e do meu pai, enquanto isso eu ia repensando a minha vida. Nesse período, meu marido foi viajar e eu fiquei sozinha em casa, foi o momento de pensar e planejar, coloquei tudo no papel, pensei em nomes, se ia dar certo, quanto custaria e um dia eu olhei para o Beth Bakery e gostei. Comecei a produzir, fotografar, criei um site e em um mês eu estava com isso montado.

Marcela Ceribelli: Beth, deixa eu só te puxar um pouquinho para trás, na hora que você tomou a decisão, quais eram os sentimentos?

Beth Viveiros: Tinha uma emoção grande envolvida com uma ansiedade, eu acho que nessa hora de pai doente e pedir demissão, eu estava apenas tentando sobreviver, engoli a emoção e fui, não pensei muito.

Marcela Ceribelli: As pessoas dizem que nesse momento elas estão praticamente ouvindo um chamado.

Beth Viveiros: Tem hora que eu brinco que é meio mágico, porque eu só fui fazendo, claro que tem um momento que você se pergunta o que está fazendo e se fez a coisa certa, mas eu tinha tanta certeza que deveria fazer aquilo, coloquei na minha cabeça que se desse errado, eu ia arrumar um emprego. Comecei em janeiro de 2014 com a ideia de fazer as coisas diferentes, a hora de dormir e acordar, me alimentar melhor, foram pequenas coisinhas que eu queria colocar na minha vida.

Marcela Ceribelli: Dificilmente a mudança vem sozinha.

Beth Viveiros: Foi uma maneira de me redescobrir e me dar esse direito, como uma pessoa que começou a trabalhar muito cedo, eu nunca tinha me dado esse direito de repensar a minha vida. Eu falo isso sempre, São Paulo te engole, acabamos trabalhando muito, vendo pouco os amigos, até as coisas que fazemos para a nossa própria saúde são cortadas.

Marcela Ceribelli: Você falando que trabalhou para uma grande empresa, eu imagino que deveria ter uma rotina muito acelerada e eu acho que quando nos permitimos desacelerar em São Paulo, parece que estamos fazendo algo de errado.

Beth Viveiros: Você está sendo julgado o tempo inteiro, foram muitos anos de terapia para entender que não interessa o que as pessoas pensam de você, você tem que fazer a sua vida.

Marcela Ceribelli: Exato. Quando eu pensei em abrir a Obvious eu não pensei muito, não tinha um planejamento, tive um terremoto na minha vida, em que tudo mudou, tudo que eu tinha como certo desapareceu e eu queria construir alguma coisa. Eu lembro de nem dar espaço para os inferninhos, não sei se vai dar errado, deixa eu fazer. Você tem que silenciar o demoninho da sua cabeça, que é também as outras pessoas.

Beth Viveiros: Isso acontece até hoje, você tem um mês bom e ruim no negócio e se eu entrar em pânico, acabo contaminando quem está comigo.

Marcela Ceribelli: Você acha que tem alguma ferramenta para silenciar esse demoninho? Acho que muitas vezes ele é o medo.

Beth Viveiros: Eu sou muito acelerada e ansiosa, eu acho que a maturidade é muito importante nessa hora. E hoje quando as pessoas vêm me procurar pedindo ajuda, eu vejo muitos pedaços de mim nelas e o controle é muito individual, sobre respirar, meditar. Um dia eu fiz um curso de meditação no interior do Rio de Janeiro e 10 dias em silêncio, a Vipassana, ele me ensinou muito a olhar para mim.

Marcela Ceribelli: E ali foi o início da jornada?

Beth Viveiros: Acho que 2011 para 2013. Quando eu voltei da Vipassana, várias coisas diferentes começaram a acontecer, um canal se abriu, eu mudei. Todas as pequenas coisinhas que vamos fazendo ao longo da vida, de alguma maneira, te completam. E eu falo isso na Bakery toda vez que alguém quer montar um negócio parecido, mas eu nunca vou poder dizer para pessoa fazer ou não fazer algo, a minha história é minha, ninguém vai ter a mesma história, cada pessoa tem uma vida diferente. Tem uma conhecida nossa que fala que somos multipotenciais e eu não tenho a menor dúvida.

Marcela Ceribelli: Tem muito potencial reprimido na gente, que só vamos saber se tentarmos. Eu acho que como estamos nesse fluxo intenso de São Paulo, é muito difícil encaixar tudo. Se pudéssemos ter um dia só para ter um hobby, ia ser muito melhor.

Beth Viveiros: Meu marido joga bola com os amigos toda terça-feira, religiosamente, eles jogam bola, conversam e ele volta para casa cansadíssimo, machucado, é aquela coisa. E ele fala que eu e a minhas amigas mulheres não temos um passatempo feminino, em grupo, que descarregue a energia como eles têm com o futebol.

Marcela Ceribelli: Para mim esse assunto é muito sério, existe o machismo no esporte. O meu sonho era ter um grupo de vôlei, queria que as mulheres se encontrassem para jogarmos vôlei, basquete e que tivéssemos nossos momentos de extravasar. Acho que somos muito injustiçadas culturalmente, os nossos programas não são físicos, então descarregamos muito menos. Cadê a sua hora da oxigenação? Tem que ter um momento seu, talvez você precise fazer aquarela para ter um insight na sua agência de publicidade. Se você fica bitolada, não sai do lugar.

Beth Viveiros: É a coisa de você ficar sozinha e ler, pensar, meditar, sem se julgar e colocar os seus planos e suas vontades no papel, sem pressa.

Marcela Ceribelli: Eu acho que é legal fazer uma lista, mas traçar microplanos e colocar metas realistas para as coisas, é essencial. Você fez algum microplano para mudar de careira?

Beth Viveiros: Fiz, não sabia o que estava fazendo, não chamava de microplano, mas eu me dei uma meta de seis meses para não voltar a trabalhar no escritório. No primeiro mês eu comecei a planejar, estudei por dois meses, pesquiseis outros cursos, estudei sobre farinha, me dei uma meta e tentei não perder o foco. Quando você está nesse momento de desemprego, é muito fácil perder o foco.

Marcela Ceribelli: Muito legal você trazer isso, acho que as pessoas pensam que para mudar de vida exige um grande ato de coragem e na verdade, um grande ato de coragem sem uma certa disciplina, se perde.

Beth Viveiros: É muito fácil você pensar “já estou aqui de pijama, deixa eu só assistir mais um episódio. Já estou em casa, não vou fazer isso hoje”, são coisas do dia a dia que é muito fácil perder.

Marcela Ceribelli: Um monge fala, em um podcast, que para você entender se aquilo é importante para você, toda vez que você pensar “eu não tenho tempo para fazer tal coisa”, você troca por “isso não é tão importante assim para mim”. É um pequeno exercício que você faz, mas com gentileza.

Beth Viveiros: Também é aceitável você passar por várias coisas, a mesma pessoa pode ficar ansiosa por causa dos seus planos e também ficar assistindo Netflix porque não tem ideia. Você tem que diferenciar a hora que é preguiça da hora que você não tem ideias. Por exemplo, eu preciso criar uma receita nova, tem hora que eu tenho que sair desse ambiente de correria e pesquisar, ler e às vezes, a pesquisa é ficar o dia inteiro vendo programa de culinária na Netflix, o que é aceitável.

Marcela Ceribelli: Acho que mexer o corpo, fazer algo manual é muito terapêutico, a corrida é uma terapia. Tem muita gente que tem o desejo de largar tudo, acho legal pensar que às vezes você esteja exausta, é uma inquietude, mas na verdade você não está construindo uma vida com qualidade suficiente para abrigar esse trabalho. Primeiro tenta entender de onde vem esse incômodo, que é muito interno.

Beth Viveiros: Eu brinco que a idade é uma maravilha nessas horas. Eu recebo muita gente me dizendo que quer fazer o que eu faço e a questão é essa, entender onde a pessoa está infeliz. Eu não sai da engenharia porque eu estava cansada dela, eu sai porque estava cansada com a minha vida, estava infeliz com o trilho que a minha vida estava. Eu continuo trabalhando muito, tendo problemas, dor nas costas, o que mudou foi a minha percepção de felicidade. Quando eu vejo que tenho um negócio que funciona, que eu pago as minhas contas e as das pessoas que trabalham comigo. Isso é uma chave que demorou para virar, eu tenho pessoas que dependem daquele salário, é assustador em determinados momentos.

Marcela Ceribelli: Eu já me peguei pensando “hoje eu pago quantos aluguéis? Eu pago treze”.

Beth Viveiros: É difícil você não colocar isso na mochilinha da responsabilidade, eu tento olhar pelo o lado positivo, consegui construir uma coisa que sustenta famílias. Depende muito da maneira que você olha “nossa, eu tenho um negócio que preciso pagar 20 mil boletos por mês” ou “eu tenho um negócio incrível com 15 pessoas que trabalham comigo e todo mundo faz isso acontecer, que legal que eu tenho 20 mil boletos parar pagar por mês e eu consigo”, são maneiras diferentes de olhar a mesma coisa.

Marcela Ceribelli: Já puxando para a nossa reta final do papo. Beth, você contou um pouquinho de pequenos rituais que você foi separando, mas o que você acha que é um ritual legal para quem está entrando em 2020 e quer mudar de vida?

Beth Viveiros: Planos, literalmente anotar as coisas. Às vezes damos muito peso em colocar o ano novo como meta, “no ano novo eu vou mudar toda a minha vida” não, ninguém muda toda a vida assim, é sobre ser realista, começar com pequenos hábitos. Esse momento de pesquisa e planejamento da própria vida, tomar aquele banho, colocar uma música e pensar sobre a sua vida, pensar o que você quer mudar, o que é real e o que não é, é um jeito de enxergar de verdade o que precisa ser feito.

Marcela Ceribelli: Eu acho essencial criar silêncio interno, ficar sozinho, passear no parque, dar uma volta, oxigenar a sua cabeça, tentar não pedir muita opinião para as pessoas e se escutar primeiro. Eu sei que bate muito medo de tomar grandes decisões e queria dizer que o medo não passa, talvez você tenha que conviver com ele.

Beth Viveiros: O medo está lá na hora que eu vou dormir e na hora que eu acordo, todos os dias, às vezes mais, às vezes menos. Mas ele faz parte da vida e falar isso para as pessoas que estão perto da gente é importante, são em pequenas coisinhas que as pessoas podem te acalmar.

Marcela Ceribelli: E tem medos reais e fantasiosos.

Beth Viveiros: Eu tenho uma amiga que quando está em dúvida ou com medo, ela para tudo, coloca uma música que ela gosta e dança. Nada mais é do que você extravasar e depois se sentir mais leve.

Marcela Ceribelli: Beth, eu amei. Acho que é muito gostoso você imaginar novos caminhos para a sua vida, mas o que é uma vida sem medo, sem frio na barriga.

Beth Viveiros: Talvez o homem branco hétero não tenha isso.

Marcela Ceribelli: Beth, muito obrigada.

Beth Viveiros: Obrigada, foi ótimo, ficaria aqui por mais cinco horas.

Marcela Ceribelli: Vocês já sabem, comentários e sugestões sempre com carinho no [email protected] . Bom dia, Obvious.

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