OBVIOUS

Existir e ser uma mulher preta é um ato antirracista


mensagem final dos artigos da Obvious

Bom dia, Obvious! Boa tarde, boa noite, boa madrugada… essa mensagem que vos lhe entrego pode ser lida a qualquer momento, e entendida também em todas as ocasiões. A melhor maneira de começar a escrever na minha coluna é falar o óbvio – a piadinha delas rs –  para que possamos criar uma troca maravilhosa de mulher para mulher – e homens, sejam bem-vindos também.

A mensagem que você vai receber neste texto é: não, eu não falo apenas sobre racismo e sobre ser uma mulher negra, e isso também é lutar contra o sistema racista.  Geralmente eu trago as conclusões dos meus textos no final dele, mas acredito que seja essencial falar sobre isso logo no início porque é uma coisa que precisa ser entendida.

Durante toda a minha vida eu percebi que tenho diversos talentos. Gosto de cantar, escrever, ler, atuar, gravar vídeos e estar sempre criando. Tenho diversos interesses, sejam eles acadêmicos ou não. Procuro estar sempre por dentro do que está acontecendo no mundo – estudo jornalismo, a.k.a a curiosa da turma da escola. Quando fui amadurecendo e tendo a oportunidade de me expressar para além dos meus caderninhos e diários, percebi que, muitas vezes, era limitada a falar sobre apenas uma coisa: sobre as dores de ser uma mulher negra.

Ok, mas você deve estar pensando agora: “ué, mas isso é super necessário, Carol! Precisamos desconstruir os pensamentos racistas instaurados na sociedade em que vivemos”. Sim, concordo com você. Mas você já parou pra pensar que pessoas negras também querem existir e falar sobre outras coisas? Pois é. E é por querer que você entenda este ponto que estou escrevendo agora sobre ser enxergada por completo, não somente como mulher negra. 

Tenho 21 anos e estou no 5º período da faculdade de Jornalismo – para cunho informativo: você sabia que apenas 10% das mulheres negras completam o ensino superior?* – e vira mexe preciso produzir alguma matéria, reportagem ou seminário. Tem vezes que eu falo sobre algo que envolva racismo, tem vezes que eu não quero e quero simplesmente cobrir outro tema, falar sobre outra coisa – o que é normal, afinal, eu sou uma estudante. Mas sempre *sempre mesmo* tem alguém que me questiona quando eu escolho não falar sobre pauta racial, isso porque eu sou uma mulher negra. No caso, se eu sou negra, eu preciso falar de racismo sempre, né? Só assim eu luto e quebro o sistema… é, não é bem assim. Voltando a informação inicial do parágrafo: 10% das mulheres negras completam o ensino superior. Só de eu estar na universidade, cursando o meu curso, falando sobre qualquer coisa que seja, isso é um ato político contra o racismo. Entende? 

Dito isso, significa que eu nunca irei falar sobre pautas raciais? Não, não é o que eu estou tentando dizer – até porque é impossível deixar esse assunto de lado, já que faz parte da minha vida e a minha escrita é reflexo das minhas vivências. Mas eu sou muito mais do que as minhas dores. Eu sou uma mulher, sou uma filha, serei uma mãe, sou uma cidadã, sou uma pessoa, sou negra. E ser negra nesse contexto abrange muita coisa interessante que eu posso com partilhar com vocês, seja aqui na Obvious, na universidade, nos meus futuros trabalhos, e na vida. 

Para finalizar, cito esse verso lindo da música AmarElo do Emicida:

“Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes

Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência

É roubar um pouco de bom que vivi”

As minhas cicatrizes estão aqui, e elas vão falar quando precisarem ser externadas. Convido vocês a me ouvirem para além delas. Vamos juntinhas? 

*pesquisa do IBGE 2018

 

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