OBVIOUS

Estou vivendo ou apenas me autossabotando? Com Luanda Vieira


mensagem final dos artigos da Obvious

Marcela Ceribelli: Se você carrega culpa, pode acreditar que merece ser punida. Se você carrega vergonha, pode acreditar que precisa se esconder. Se você não se sente amada, pode sentir necessidade de ser perfeita. Se você sente desestruturada, pode querer parecer invencível. Essa sequência faz parte da fórmula da autossabotagem e que é claro, é bem mais complexa que qualquer equação matemática, como tudo que envolve nosso inconsciente. São aquelas motivações, reações, que depois que entramos em processo analítico conseguimos entender de onde vieram. Claro, todas nós precisamos nos questionar de tempos em tempos, isso é bom, mas quando estamos repetidamente vendo amizades, relacionamentos, trabalho e até saúde indo para caminhos contrários do que desejamos chega a hora de se questionar, será que estou vivendo ou apenas me autossabotando? Bom dia, Obvious! Eu sou Marcela Ceribelli, CEO e diretora criativa da Obvious e quem me acompanha nesse mar de reflexões existências é a jornalista editora de moda, Luanda Vieira.

Marcela Ceribelli: Bom dia, Luanda!

Luanda Vieira: Bom dia, Obvious! Meu sonho falar isso, Marcela, obrigada pelo convite.

Marcela Ceribelli: Estou muito feliz de você ter topado participar hoje, já queria te trazer no programa há muito tempo, mas pelo o que a gente está falando antes, a pauta de hoje tem a ver com você, é isso?

Luanda Vieira: Tudo a ver, sou eu, diria que a autossabotagem e eu somos a mesma pessoa e posso provar ao longo dessa conversa.

Marcela Ceribelli: Bom, para quem ainda não te conhece, você poderia fazer uma introdução?

Luanda Vieira: Eu atualmente sou editora de moda da Glamour, cuido de todo o conteúdo e do comportamento de moda e também faço parte do comitê global de diversidade e inclusão da Condé Nast, que é onde pensamos em práticas para todo o conjunto da Condé Nast ser mais diverso. Gosto de lembrar que a diversidade não é só sobre raça, é sobre n questões como corpos, idade e identidade de gênero.

Marcela Ceribelli: Luanda, eu entendo que você pensa que você e a autossabotagem são a mesma pessoa, mas acho que todo mundo tem um pouco disso, é impossível não se autossabotar um pouquinho. Me conta pouco da sua relação com a autossabotagem hoje?

Luanda Vieira: Olha, é um negócio que a Stephanie, minha namorada, não se conforma como que eu não consigo passar um dia sem me autossabotar. E é muito louco porque é uma relação de amor e ódio, ao mesmo tempo que ela é super minha inimiga e me atrapalha ela também é a minha amiga. Porque eu fico naquilo de “eu tenho várias metas, quero conquistar várias coisas”, mas no meio do caminho começo a pensar “isso não é para mim, não vou conseguir, por que eu tive essa ideia? Não faz o menor sentido”. E quando eu digo que ela é minha amiga é porque me escuto falando “você não vai conseguir, não é para você” e me motiva a fazer a coisa dar certo. É uma relação que me deixa exausta, todo dia é isso.

Marcela Ceribelli: Eu me identifico demais. É um pouco exaustivo porque ela às vezes te derruba, mas às vezes quase que é um monólogo, “agora você vai ver”.

Luanda Vieira: Exato e para mim, acho que para todo mundo, entram várias questões, a ansiedade também é um gatilho para me autossabotar.

Marcela Ceribelli: A ansiedade tem tudo a ver mesmo.

Luanda Vieira: Eu quero chegar logo, quero que as coisas aconteçam, quero conquistar. E vem ao mesmo tempo o pensamento de que não vai dar certo. É uma loucura.

Marcela Ceribelli: Eu falo muito com mulheres que querem empreender, inclusive dei uma aula na ESPM pela Glamour, e muitas das vezes elas me perguntam, “mas quanto tempo levou para a Obvious dar certo? Porque eu já tive o meu primeiro negócio e nos primeiros seis meses eu fechei…” e eu me identifico, estou com elas, porque é muito difícil você aceitar que as coisas vão acontecer mais a longo prazo. Por exemplo, eu sou viciada no MercadoLivre, coloco o frete grátis que vai chegar no mesmo dia e acho que temos várias ferramentas que vão nos viciando e isso é uma autossabotagem, eu deveria estar guardando dinheiro, não estar viciada no MercadoLivre.

Luanda Vieira: A autossabotagem acontece o tempo inteiro. E essa coisa da ansiedade, eu tenho percebido que a gente quer tanto chegar lá na frente, colocamos tantas metas, que acabamos esquecendo do meio do caminho, a gente não curte o processo. Estamos muito preocupadas em se vamos conseguir ou não, queremos chegar logo no nosso objetivo e não prestamos atenção no caminho. Talvez a pandemia tenha gerado esse efeito “calma olha o que você está passando, olha o processo e aproveita”, mas é difícil.

Marcela Ceribelli: Eu acho que a pandemia sabotou com todos nós, podemos usá-la como uma cortina para a autossabotagem, eu me via fazendo isso no início dela. Claro, estamos mais sensíveis, muito medo, é um contexto difícil, mas eu me vi dando justificativas da pandemia que não faziam muito sentido. Eu poderia estar fazendo as coisas, independentemente da pandemia. Sinto que me abandonei no início dela que em um dado o momento eu até pensei que não conseguiria fazer assim terapia por telefone, amada, vai conseguir sim!

Luanda Vieira: A gente fica arrumando várias desculpas, na pandemia foi muito louco esse processo. Eu até escrevi uma coluna sobre isso, sobre as minhas fases e também de Corona emotivo, na verdade, eu vi uma jornalista da Glamour UK falando de Corona emotivo, ela inventou esse nome e eu adotei para mim e criei as minhas próprias frases. Nas primeiras duas semanas pensava que isso iria passar, inclusive, que iria ser ótimo para eu ficar em casa, estava precisando relaxar. E percebemos que não ia passar, foi um momento que eu comecei a questionar a minha profissão, porque eu falava de moda no meio de uma pandemia, pensava que estava na profissão errada. Eu nasci para ser relevante, eu quero ser relevante para o mundo, foi uma autossabotagem total. E não consigo passar um assunto sem falar que eu sou capricorniana, mas como capricorniana, comecei a ficar puta porque a minha profissão não fazia mais sentido para mim, então você entende como vai tudo virando uma bola de neve?!

Marcela Ceribelli: Eu não sei nem por onde começar. Sou canceriana, a gente pode se complementar. Mas passei por um processo muito parecido, em um dado momento deletei o meu Instagram por três dias porque passei pelo mesmo motivo, é um caos, um desgoverno, uma pandemia e não sei mais se faz sentido ficar fazendo carrossel com palavras positivas. Entrei em um vórtex muito perigoso. E foi legal porque agora eu recebo muitas mensagens das pessoas falando que estão maratonando o podcast e que têm ajudado muito durante essa fase. É importante entendermos que existem pessoas como a Andréia Sadi, jornalista e que tem também o momento de descompressão, é impossível assistir ao Jornal Nacional o tempo inteiro, a gente ia estar pirado.

Luanda Vieira: Exato. Ao longo dos meses eu fui entendendo o quão importante era eu estar ali falando sobre moda e também sobre uma preocupação que era realmente, eu me autossabotando. Porque há muito tempo eu não falo mais da moda como a peça pela peça, falo sobre o comportamento da moda, trazer a diversidade, sustentabilidade. Quando eu olhei para tudo isso, pensei “calma, todos estão passando por esse processo, tendo que adaptar a sua vida”. Agora vejo que não é está fácil viver essa pandemia, mas acredito que cada um já encontrou, mais ou menos, qual é o seu novo normal, cada um está encontrando o que faz sentido agora.

Marcela Ceribelli: Eu entendo que às vezes construímos essa autossabotagem de um lugar muito inconsciente e temos uma sabotagem que é quase consciente, por exemplo, você está super empenhada na rotina de exercícios e pensa “hoje eu não vou” e tudo bem. Mas pesquisando para o episódio me perguntei se alguém já tinha relacionado autossabotagem com crença limitante e eu vi que várias pessoas, inclusive psicanalistas trazem isso. Para quem está ouvindo e não sabe o que é, crença limitante é tudo aquilo que adquirimos quando estamos crescendo, viram pequenos bichinhos, eu diria até monstrinhos dentro do nossa cabeça. É a vozinha dizendo para Luanda que ela não vai conseguir, para Marcela que o trabalho dela não faz sentido e por isso elas são limitantes, porque elas limitam a gente. E eu fiquei pensando quanto a autossabotagem de cada uma, e cada uma tem um perfil, vai estar conectada com a sua crença limitante. Se você cresce acreditando que nunca ia ter um cargo alto, quando você chega em um cargo alto você se pega não entregando um trabalho e eu acho que isso é muito do inconsciente. Você já assistiu isso acontecer?

Luanda Vieira: Eu entendo completamente e acho que uma coisa muito comum na autossabotagem para todo mundo, é a questão da fraude. Você falou do cargo alto e eu me vi nisso, quando me promoveram para editora eu pensei “agora vão descobrir que eu sou uma fraude, ferrou. Não dá para eu me esconder atrás da minha editora, é a minha cara ali, não vou conseguir entregar esse trabalho”. E também por ser de capricórnio, eu tenho essa coisa da perfeição, não admito muitas falhas. E virou uma coisa na minha cabeça quase que paralisante, eu não queria me expor, mostrar que talvez eu não era pessoa para estar naquele cargo, assumir aquela editoria.

Marcela Ceribelli: E a visão mais comum é que procrastinar é estar no sofá, mas acho que se fosse tão simples quanto isso, seria fácil de resolver. Eu penso que a autossabotagem no trabalho tem relação com distração e não só distração do celular, passar o dia inteiro Instagram, é muito mais complexo na minha visão. A autossabotagem passa com você, por exemplo, quando você não consegue entregar algo “na verdade eu não consegui entregar porque eu estava muito conectado com outra coisa”, mas essa coisa nem era tão importante. Ás vezes você não teve coragem de entregar o trabalho maior do que deveria e eu acho que tem uma coisa de migrarmos a nossa atenção, isso é algo que eu tento me policiar, para onde está indo a minha atenção. Ás vezes você está pensando uma coisa que é micro, mas toma muito do seu tempo, enquanto tem outra coisa muito mais importante, mas você não está com coragem de fazer e tem muito a ver com se expor. Por exemplo, faz tempo que eu não estou no ambiente de empresa, só no home office, mas sabe a tensãozinha do trabalho, probleminhas de relacionamento, coisas que querendo ou não, demandam muito da gente e do quanto que você está de fato trabalhando. Como você consegue organizar para onde está indo a sua atenção no dia a dia para não deixar de fazer as coisas que são realmente importantes para você?

Luanda Vieira: Eu sou a pessoa que faz a lista no começo do dia, de tudo que preciso fazer, mas aquilo me gera uma angústia se não termino, começo a ficar desesperada com aquela lista e eu preciso terminar o dia com tudo que eu deveria fazer riscado. Ao mesmo tempo que eu sou digital, também sou manual, gosto escrever, de ir ticando, riscando no caderno. Quando é uma coisa muito importante eu começo a procrastinar, na minha cabeça, a minha ideia ainda não está totalmente pronta e perfeita para executar aquilo, então eu começo enrolar, penso que ainda não está bom, não está pronto e eu vou fazendo outras coisas porque eu quero me livrar rápido. Mas o que é realmente importante para mim, vou deixando até o dead line e quando não tem mais jeito, eu faço. E é uma insegurança de achar que o meu raciocínio não está pronto, não sou a pessoa pra fazer aquilo, sendo que eu sou, eu me preparei para isso. No ambiente de trabalho, no home office melhorou, mas eu sinto que tem a questão também da comparação. Ás vezes nem nos colocamos nesse lugar de se comparar com outro, mas alguém coloca, alguém faz uma comparação que você se questiona “será que eu sou a pessoa certa pra essa pauta mesmo?”, falaram tão bem da fulana e não é nada contra a pessoa, mas você vai criando isso na sua cabeça e vai se comparando sozinha com outro. É muito complicado.

Marcela Ceribelli: Acho que todo perfeccionista se compara muito, essa perfeição relativa tem a ver com comparação. E, eu não escrevo matéria, mas acabo escrevendo bastante, seja por projetos, para o podcast, eu coloco as minhas inserções e muitas vezes eu me pego pensando “eu não vou conseguir fazer perfeito, então eu não vou fazer agora, eu não estou pronta pra fazer perfeito ainda”. E tenho exercitado uma coisa que pode ser uma dica boa, tenho monólogos externos e falo “faz muito ruim, Marcela, mas faz” e se no meio do que eu estou escrevendo, vejo que está ruim, penso em fazer ruim mesmo e continuo. No final, eu sei que é uma frase muito clichê, mas o feito é melhor que o perfeito. Querendo ou não, existe o seu perfeito e você pode ir aprimorando.  Eu sou muito aflita de deixar para última hora, sei que muita gente funciona bem na pressão e está tudo bem, mas eu definitivamente não. Na escola, como você era Luanda?

Luanda Vieira: Eu era super nerdzinha, sempre fui aquela nerd descolada, que queria estar lá no fundão com a galera, mas no intervalo das aulas, porque na hora da aula eu queria estar prestando atenção. Tenho pavor de levar bronca, de que chamem a minha atenção, realmente sou a pessoa que quer estar sempre certinha, cumprindo as regras. A Stephanie me fala “Lu, calma, não precisa de tanto, está tudo certo, relaxa”. E o meu ascendente é de gêmeos, acho que se não fosse, eu já teria pifado, é onde eu encontro um pouco de calma.

Marcela Ceribelli: Eu amo ascendente em gêmeos, muito provavelmente, deve acontecer que pelo menos você consegue botar para fora, comunicar o que está passando. O perigo do capricórnio é que ele vai guardando pra ele, pelo menos o gêmeo extravasa um pouco. Mas você falou, até beirando um pouco lugar da síndrome da impostora, do lugar de assumir esse cargo alto. Tem algum processo, alguma ferramenta que você tem ou teve para passar por cima disso e entregar esse trabalho lindo que você entrega?

Luanda Vieira: Quando paro para pensar, eu vejo que depois de seis meses no cargo tive um wake up call. Estava me escondendo no poder de demandar, aquela coisa de ser perfeita e querer ser perfeita, eu estava demandando e só editava, corrigia, não dava a minha cara muito á tapa. Passaram seis meses, tirei férias e pensei muito sobre isso, eu sempre quis estar aqui, sempre quis ser editora e por que agora eu estou me escondendo atrás das minhas repórteres? Por que eu não estou colocando em prática tudo que eu gostaria de colocar?  Pensei muito durante as férias e voltei encorajada, acho que a palavra foi coragem. Quando eu voltei, conversei com a minha diretora e eu expus que precisei de seis meses para entender o que era o cargo, essa pessoa que estava lá não era eu e quando criei essa coragem de assumir todos os desafios e falar que precisei desse tempo, minha vida mudou completamente e foi quando consegui deslanchar. Acho que para um jornalista, a melhor coisa que tem são textos viralizados e foi quando eu consegui fazer textos incríveis e que as pessoas passassem a olhar para mim além da editora de moda da Glamour. Foi o momento que eu percebi que não podia ficar parada, isso não pode me paralisar, cheguei aqui e agora eu preciso mostrar para o que eu vim.

Marcela Ceribelli: É incrível você trazer coragem. Eu sempre falo que a duas palavras chaves de carreira para mim, são disciplina e coragem. Tem que ter algum momento que você pega aquela força, engole o choro e vai. E muito da pauta desse episódio veio de uma matéria que eu vi no El País, é uma entrevista da Margaret Atwood, do “Conto da Aia”. Ela falou um pouco sobre a relação dela com autossabotagem, achei incrível. Quando a gente começa a desenhar uma jornada de heroína, na ficção, a música começa acelerar, você consegue entregar de primeira, tem só um grande desafio no meio do caminho, mas depois dá certo. E acabamos pegando essa jornada da ficção e trazendo para nossa vida e é muito mentira. Eu li que a Margaret Atwood, antes de lançar o “Conto da Aia”, ficou anos lançando outros livros, porque achava que o que ela estava escrevendo era muito louco, ficou se autossabotando, postergando esse estouro dela. E é muito parecido com você, que depois de seis meses mostrou ao que veio. Eu acho legal trazer a autossabotagem nesse tempo de referências, por um medo de pensar que ninguém faz desse jeito, será que eu posso fazer assim? Você não sente que estamos viciadas em referências?

Luanda Vieira: Exatamente, em reproduzir as referências. Ás vezes temos uma ideia genial de algo que ninguém está fazendo e acreditamos que vai dar certo, mas pensamos “aquela jornalista que eu gosto nunca fez isso”. Viver em uma era de cancelamento traz esse medo, a palavra-chave é o medo, temos medo de nos expormos, de estarmos errados sobre qualquer assunto, tamos medo de falhar.

Marcela Ceribelli: Eu vou trazer o exemplo do Lauro, que está aqui no link, mas vou falar da vivência dele porque tivemos um diálogo esse final de semana. O Lauro tem um trabalho lindo, é o “sem foco”, são fotos quem têm a direção de arte com as espumas. E ele fez um de presente para a minha casa nova, que a moldura do espelho são as espumas e eu nunca tinha visto isso na minha vida, achei a coisa mais linda do mundo, porque ele é um artista mesmo. E falei “Lauro, você tem que vender esse espelho, é coisa mais linda que eu já vi” e ele falou que todo mundo estava fazendo. Mas todo mundo quem? Nunca tinha visto esse trabalho, falei para ele tomar cuidado nessa era da internet, não é porque você vê uma pessoa que fez aquilo que nós não podemos fazer.

Luanda Vieira: Tem uma coisa também da nossa bolha, podem estar fazendo na nossa bolha, mas fora dela não, então está tudo certo. Falando em bolha, me ocorreu algo na pandemia, por conta de autossabotagem e crise de ansiedade eu fiz ioga pela primeira vez. Eu sempre quis fazer, mas a minha bolha toda faz, então eu tinha vergonha de começar e julgada, na minha cabeça eu achava que estava com preguiça. Quando no fundo eu sabia que era vergonha de ser julgada, mas eu colocava a preguiça como a principal desculpa para não praticar ioga, mas sabemos exatamente o que nos paralisa.

Marcela Ceribelli: Maravilhoso. Isso é pauta para “chapadinhas de endorfina”. Talvez, na primeira aula de ioga você fica apavorada “como essa pessoa faz essa pose? Só pode ter menos músculo”. É muito difícil não se comparar, mas na ioga falamos que se você olha para o lado, você cai. Então você tem que focar em você.

Luanda Vieira: E a minha primeira pergunta para a minha professora, que é minha amiga de infância, foi para saber enquanto tempo eu ficaria ótima e ela falou que não é sobre isso “a primeira coisa que você precisa entender é que ninguém está aqui para ficar perfeito, para fazer aquelas poses perfeitas que vemos no Instagram. É para olhar para si mesma e só isso”. Eu fiquei até com vergonha de ter feito aquela pergunta.

Marcela Ceribelli: No esporte faz todo o sentido. Trazendo a nossa pauta, porque focamos muito no trabalho, a gente também tem uma autossabotagem que é de vida pessoal e relacionamento. Eu queria começar falando sobre amizade, acho que é muito comum nessa era em que estamos todos muito solitários, sentir essa solidão e reclamar dela, mas nunca deixar sair de um papo no WhatsApp. Você observa isso acontecendo, não necessariamente com você, mas com pessoas ao seu redor?

Luanda Vieira: Completamente, o que eu acho muito engraçado é que na quarentena, descobrimos o Zoom, FaceTime, que são formas de se comunicar que já estavam disponíveis. Eu mesma voltei a falar com amigas que ficávamos sempre a conversa de “ah, vou combinar. Vou ver e te aviso”. Sempre tivemos essa ferramenta e só paramos para pensar durante a pandemia, logo na primeira semana já estavam todos com saudade, querendo conversar por chamada de vídeo. Hoje eu tenho percebido que já relaxamos um pouco na questão de conversar por vídeo chamada e eu tenho sentido que a desculpa da pandemia é “eu tenho um zoom esse horário”, a pessoa nunca vai saber se você tem ou não. Acho que ao mesmo tempo que encontramos uma solução, achamos a solução para a solução.

Marcela Ceribelli: Total. Enquanto isso, a gente fica escolhendo para onde vai a nossa atenção e eu pensei muito assim. Quantas vezes na minha vida eu estava focada em fazer uma pauta de uma entrega no trabalho, e aí você tem diferentes perfis de amigas e está tudo bem, mas eu tinha uma tendência muito forte de quando estava muito afim de investir na minha carreira, ficar muito próxima ás minhas amigas que saiam de segunda a segunda, só que são duas coisas que não se não batem. Basicamente, o que eu quero dizer é que também existe uma curadoria nas amizades, eu digo isso com maior amor possível, porque acredito que somos a soma da média das cinco pessoas que mais convivemos, mas se você está em um certo momento da sua vida, talvez precise dar mais atenção para amizades que estejam ali te ajudando a construir algo. E de uma forma geral é super complicado, a Madama Br00na trouxe isso no episódio de detox de relacionamento, quem são as amizades que te sugam muito, mas não te ajudam a crescer junto? Como você é em relação a isso, você é daquele grupo enorme de amigas ou dos poucos e bons?

Luanda Vieira: Poucos e bons, com certeza. Quando nos destacamos no trabalho, no que fazemos, é muito complicado você manter aquelas amizades que, teoricamente, estão no seu círculo profissional e eu tenho sentido muito isso ultimamente. A Stephanie me chamou atenção para as minhas amigas de infância, que são amigas que quando eu estou realmente mal, a elas que eu recorro. Porque tem aquelas amizades que a gente faz ao longo da vida e que profissão traz, mas também temos essas amizades que vieram antes. E as minhas amigas fazem coisas completamente diferentes, são bailarinas, nutricionista, de áreas que não tem nada a ver comigo e é justamente isso que nos mantém fiéis. Porque elas não têm interesse nenhum em concorrer comigo, ter o meu cargo ou estar no lugar que eu estou. Então principalmente na pandemia, eu tenho sentido uma troca muito mais sensata, carinhosa e verdadeira com essas amigas que estão distantes, que eu não vejo há um ano, mas que eu converso sempre.

Marcela Ceribelli: Acho que essas são as amizades que trazem a gente de volta para nossa essência, você não é a Luanda da Glamour, você é só a Luanda.

Luanda Vieira: Para o universo delas, quando eu falo de alguma coisa do trabalho, elas ficam “ah, legal” e eu nem me sinto mal, eu entendo completamente. A Stephanie, por exemplo, que trabalha comigo na Condé Nast, eu conto tudo com maior drama, coloco toda emoção para falar de uma situação e para elas é “nossa, acontece isso na revista?” e passa, bola para frente, outro assunto. É muito bom.

Marcela Ceribelli: Eu também, amo as amigas não publicitárias. É ótimo conversar com a minha prima médica porque ela não se impressiona com nada e eu pergunto “mas e aí, salvou alguma vida hoje?”

Luanda Vieira: Exatamente isso. Eu tenho me conectado muito com essas amigas, é realmente quem tem me dado força pra continuar, ainda que não seja diretamente, não falamos sobre o meu trabalho porque não interessa, mas tudo que conversamos reflete no meu dia a dia profissional.

Marcela Ceribelli: Acho que quando estamos com pessoas que nos ajudam a ver as coisas de uma maneira mais clara, o que eu quero dizer, você pode se cercar de pessoas que quando você está falando elas mal prestam atenção e te falam uma coisa superficial e aquilo vai te satisfazendo porque você não está afim de se aprofundar, mas acho as conversas precisam ser incomodas, a gente precisa ter amizades que trazem momentos desconfortáveis, você vai ficar eternamente ouvindo o que você quer ouvir? Acho que isso é uma das boas análises de um grupo mais próximo, são pessoas que o tempo todo estão alimentando o que o seu ego quer ouvir ou é o que a sua essência e sua alma pedem? Faz sentido para você essa separação?

Luanda Vieira: Faz muito sentido e hoje eu encontro essa pessoa na Stephanie, ela é a pessoa que de fato quer eu me dê bem, que eu esteja feliz e ela coloca os meus pés no chão, por mais que eu já tenha, mas eu fico confabulando tanto na minha cabeça, se eu vou ou não, se tomo uma decisão ou não, o que é certo ou errado e ela tem sido essa pessoa próxima, que analisa tudo. E até quando eu estou certa do que quero, mas eu não quero assumir, é a Stephanie que coloca todos os pontos sem o menor pudor, sem massagem. É muito bom termos alguém que dê um choque de realidade, não é só sobre o que a gente quer ouvir.

Marcela Ceribelli: Eu acho incrível você trazer isso porque a minha próxima pauta é, justamente, relacionamento amoroso e uma das coisas que eu fiquei alimentando e pensando, é a autossabotagem no relacionamento amoroso. Faz muito tempo que eu estou em relacionamento, mas eu identificava quando estava solteira e começando relações. Várias vezes quando você não está em um momento bom de autoestima e de autoanálise, você não se sente digna de ser amada, fica constantemente encontrando motivos pra acabar o relacionamento e são coisas superficiais que na verdade, só reflete um pouco o seu lugar de auto amor. Você já esteve nesse lugar?

Luanda Vieira: Talvez antes de começar a namorar, estive durante a minha vida inteira. No meu caso, a gente entra na questão de raça e da solidão da mulher negra. Quando eu encontrei a Stephanie, ela é surreal, é uma pessoa que todo mundo quer ser amigo, todo mundo gosta da sua companhia e eu olhava para aquilo e pensava, como essa pessoa fica comigo? Não é possível, eu passei a vida inteira sem ninguém e de repente chega alguém que é super gente boa, muito legal e está comigo? Era uma situação que eu pensava que não merecia esse relacionamento, mas hoje sei que eu mereço.

Marcela Ceribelli: Quando foi essa virada pra você?

Luanda Vieira: Logo no começo. Estamos há cinco anos juntas. Falo da autossabotagem, mas antes da Stephanie eu era muito pior, foi ela que me ajudou a ver que eu ia paralisar se continuasse daquele jeito. Então foi no começo, depois de um ano de namoro eu entendi que estava tudo certo, que amor é isso mesmo, que estamos aqui pra dar carinho.

Marcela Ceribelli: Fiquei até meio arrepiada, acho muito bonito quando você escuta que uma relação está fazendo muito bem, apesar de ter certos desafios. Tem muito a ver aquela frase de “as vantagens de ser invisível” sobre você aceitar o amor que você acha que merece, que amor é esse que você está procurando? É baseado em quê? Quando a gente está falando em relações que começam baseadas em aplicativos, eu não tenho problema com aplicativos de paquera, mas se a primeira coisa que você está olhando é se você acha pessoa bonitinha ou não, está tudo certo começar assim, mas venho de um tempo em que a primeira coisa que a gente via era a conversa, a química. Então você vai construir essa relação baseada em quê? Será que você também está se autossabotando ali? Já está pronta uma relação? São vários questionamentos e principalmente, eu vou sempre trazer isso, será que essa relação realmente faz bem para você ou está só alimentando o seu ego? Porque para mim, um dos maiores aprendizados da meditação e da minha devoção, amor da Monja Coen, é de quando que eu estou agindo com ego e quando é o Zazen, acho muito importante.

Luanda Vieira: Sim, acho que é o que já falamos, inclusive quando agimos com ego é quando estamos com uma pessoa que me fala só o que eu quero ouvir e não é sobre isso.

Marcela Ceribelli: Sem contar as coisas que são ego, como querer mostrar pro ex namorado ou namorada como você está bem.

Luanda Vieira: E são nesses momentos que percebemos que não estamos bem.

Marcela Ceribelli: Exato, tinha que tocar uma sirene da autossabotagem. Mas que gostosa a nossa conversa e bom dia dessa vez, antigamente gravávamos á noite e você é a primeira gravação que eu faço de manhã.

Luanda Vieira: Foi bom dia real, você curtiu começar o dia com um Bom dia, Obvious?

Marcela Ceribelli: Eu amei. E para finalizarmos e começarmos o nosso dia, você falou muito da pandemia, queria saber se teve algum perfil no Instagram, livro, filme, documentário, que te ajudou nesse período e pode estar relacionado ou não com essa pauta de autossabotagem.

Luanda Vieira: Vi recentemente um TedTalk, ele tem quatro anos, mas fez muito sentido para mim, é o da Shonda Rhimes do livro “o ano em que disse sim”, eu me vi em cada frase, tem tudo a ver com a questão da autossabotagem e dessa luta contra o medo. Foi um divisor de águas ter assistido, eu indico e tenho indicado pra todo mundo.

Marcela Ceribelli: Já vi que tem o livro, vou comprar, deve ser é muito bom. Lu, muito obrigada, que prazer.

Luanda Vieira: O prazer foi meu! Fiquei emocionada com o convite e muito feliz, nesse tempo todo em que eu tenho dado entrevistas é a primeira vez, pasmem, que não falo sobre raça, quando falei pra Stephanie ela falou “Lu, a Obvious é foda, né?!” E de fato.

Marcela Ceribelli: Agora eu vou chorar, fico muito feliz. Nem cogitei falar sobre raça, a gente sabe que você é muito além disso. E é claro que toda vez que trazemos uma mulher negra você vai fazer um recorte racial, mas não precisa ser só sobre isso.

Luanda Vieira: Teve um momento em que eu precisava falar sobre ser mulher negra, mas não era uma conversa pautada e torço todos os dias para que todo mundo entenda que é só sobre isso.

Marcela Ceribelli: Fica aqui o recado. Obrigada, Luanda.

Luanda Vieira: Obrigada, eu que agradeço.

Marcela Ceribelli: Muito obrigada também a você que escutou até aqui, mas a nossa conversa não tem fim, continuamos semanalmente na nossa Newsletter que você pode se inscrever no www.obvious.cc  no Instagram @ObviousAgency e com comentários, sugestões sempre com carinho no [email protected] . Bom dia, Obvious.

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