OBVIOUS

Direto do fundo do poço, com Manu Gavassi


mensagem final dos artigos da Obvious

Marcela Ceribelli: Choro no banho, nada de fome ou fome infinita. Sem chão. Sem ar. Se esconder do mundo. Block no Instagram, block na vida. Duda beat, obrigada por tudo. Taylor, seja minha madrinha. Vontade de não fazer nada, vontade de fazer tudo ao mesmo tempo. Se você já entendeu que o tema dessa semana é fossa, é porque já teve seu coração partido nessa vida. Bom dia, Obvious. Eu sou Marcela Ceribelli, CEO e diretora criativa da Obvious e estou com Manu Gavassi para falar sobre fossa, direto no fundo do poço.

Marcela Ceribelli: Bom dia, Manu.

Manu Gavassi: Eu amei, quero tatuar esse monólogo.

Marcela Ceribelli: Manu, todo mundo fica pedindo para falarmos de relacionamento e eu sou muito ruim para falar sobre isso, mas sou boa para falar de fossa, você é boa para falar de fossa?

Manu Gavassi: Acho que eu sou melhor com fossa do que com relacionamento.

Marcela Ceribelli: Para mim a fossa é muito bem dividida por fases e como já descobri que você é capricórnio com virgem, você vai gostar desse método.

Manu Gavassi: Eu amo, você organizou até planilha da fossa.

Marcela Ceribelli: Vamos pensar na fase um, você acabou de terminar, o que faz?

Manu Gavassi: Então, eu não termino chorando, termino decidida do que eu quero, sem lágrimas, expondo meus pontos ou mandando textão. Termino dessa maneira, parecendo extremamente madura e segura de mim, cinco minutos depois que a pessoa sai, começa a fossa real, arrastar na parede chorando, ligar Taylor Swift, fazer escândalo, quebrar tudo da casa. Eu tenho esse momento que gosto.

Marcela Ceribelli: Eu sou extremo oposto, eu engasgo, sou capaz de me jogar no chão e sofro. Eu sou câncer com peixe, talvez esse seja o meu podcast mais vulnerável, o pior de mim é um término. Se eu vou terminar, faço questão de colocar um batom vermelho e tenho até um look para isso. Mas os pés na bunda sempre foram mais inesperados, não estava preparada e sou das que mais sofrem.

Manu Gavassi: Mas eu acho que nos encontramos em algum lugar, porque a minha Vênus é em peixes, então eu sou uma fortaleza, mas é só uma camada, eu sofro muito.

Marcela Ceribelli: Uma das minhas melhores amigas tem Vênus em peixes, você idealiza muito?

Manu Gavassi: Eu dou um beijo e já imagino nossos filhos na Bahia. Eu só idealizo. O que eu estou aprendendo com a vida e com a idade, para não sofrer tanto, é parar de idealizar. Eu sou completamente pé no chão no meu trabalho, na minha vida, sou muito decidida e sei o que quero, sei me posicionar e sei falar bem. Só que eu tenho esse parafuso a menos chamado Vênus em peixes, eu idealizo e sofro muito com relacionamentos que apenas eu idealizei.

Marcela Ceribelli: Eu vi um story seu, falando que você é fiel a crush.

Manu Gavassi: Muito fiel.

Marcela Ceribelli: Mas para você, só tem fossa quem leva no pé na bunda ou quem termina também?

Manu Gavassi: Quem termina também, eu sempre termino e a fossa é minha. Eu tenho a força de terminar, de saber que algo está errado, que não funciona, mas não quer dizer que eu não vou sofrer por conta disso.

Marcela Ceribelli: Eu tenho uma teoria de que quem termina sofre antes, porque decidir terminar é uma barra. Você ainda está com a pessoa, você não sabe mais se quer e pessoa vem te beijar e você pensa “ai meu Deus, desculpa já já eu vou te destruir”. Então você sofre antes e quem toma um pé na bunda é depois. Não é justo quando falam que só quem tomou um pé na bunda sofre. Se você termina, você sofre nas duas fases?

Manu Gavassi: Acho que eu sofro depois também, porque eu termino achando que eu terminei, mas foi só um susto, agora ele vai mudar e vai correr atrás de mim, porque agora eu me posicionei. Ele vai entender que não dá para viver sem mim, só que muitas vezes não acontece, essa pessoa simplesmente entende que é um término e te supera.

Marcela Ceribelli: Você gosta dessa dinâmica de terminar e voltar?

Manu Gavassi: Eu acho que não gosto, fui condicionada dessa maneira, porque eu escolhi um pouquinho mal meus ex, era uma coisa meio tóxica, você nunca acha que terminou. Eu sofro depois porque acho que a pessoa sempre vai voltar, idealizo nosso amor e às vezes a pessoa realmente não quer. Sofro duas vezes, quando eu decido terminar e quando acabou.

Marcela Ceribelli: Eu acho que deveria ser proibido por lei voltar relacionamento, é péssimo voltar. Uma vez terminado, vamos viver essa fossa e seguir em frente. Mas, lá no momentinho que acabou de terminar, quais são os primeiros socorros?

Manu Gavassi: A música, sem sombra de dúvidas. Tanto que, alguns álbuns me lembram de um término. A música me ajuda a digerir, é bom sofrer um pouquinho, você tem que botar para fora. Eu odeio reprimir o que eu sinto, eu falo mesmo, choro e vivo. A música faz você soltar e se identificar, ver que todo mundo passa por isso e tá tudo certo, se ele sobreviveu e está milionário com a música, por que não eu?

Marcela Ceribelli: Eu tive essa conversa outro dia, estava no carro e escutamos muitas músicas, falei “cara, todo mundo deveria ser terminado ou traído uma vez na vida”, se não, você não vai entender a arte e nem a dor, ser traído é uma dor insana.

Manu Gavassi: Mas artisticamente é maravilhoso. Acho que passamos por coisas que é difícil repetirmos. A primeira fossa é a mais terrível, depois você vai ficando vacinada. Eu sinto uma mini saudade da maneira que eu sentia as coisas tão intensamente e transformava em arte de um outro jeito. Acho que agora nada mais me surpreende tanto assim, você vai crescendo e ficando calejada.

Marcela Ceribelli: É que a primeira fossa, naturalmente, nós éramos muito novas, então parece o fim do mundo. A minha primeira grande fossa, eu devia ter 13, 14 anos.

Manu Gavassi: Eu comecei cedo também e o pior é que lembro o álbum que eu sofria escutando e vocês vão rir muito, era da Lindsay Lohan e sofria aos meus 14 anos com esse álbum.

Marcela Ceribelli: E eu lembro que passei o dia inteiro longe do MSN, “não vou entrar mais cedo, eu não quero ver que ele está on-line”. Lembro muito dessa tarde. Os meus primeiros socorros são, eu não posso dormir sozinha, preciso que alguém venha me acudir, se não, eu fico muito mal.

Manu Gavassi: E quando você está falando com outra pessoa, você disfarça um pouco, não está pensando nisso sozinha e enlouquecendo. Música e companhia, acho que é um bom combo.

Marcela Ceribelli: Você é a favor de já pegar um vinho e um sorvete, ou você acha que não? Às vezes, eu acho que é meio um sadismo, eu estou arrasada não quero fazer disso um ritual do sofrimento.

Manu Gavassi: Quando eu fico muito triste, não como, não tenho apetite, tenho que me policiar para lembrar de comer, estou mal demais. Mas tem gente que ama comer quando está mal, que pega um pote de sorvete e acaba com ele.

Marcela Ceribelli: Inclusive, tivemos esse papo no escritório, nos dividimos em dois grupos, entre os que fazem disso um ritual, ficam triste e se jogam e o grupo, que eu pertenço, “já estou muito triste, não preciso de um ritual”.

Manu Gavassi: Eu fico sem tomar banho três dias e sem comer.

Marcela Ceribelli: Eu já fui colocada no banho pela minha mãe.

Manu Gavassi: Eu também, é uma prova de amor, nossas mães jogarem a gente com 20 poucos anos no chuveiro, é super legal.

Marcela Ceribelli: E tem uma questão que é ser feminista e hétero, você pensa que não deveria estar sofrendo assim por um homem. Você também tem isso?

Manu Gavassi: Acho que não tive, toda essa fossa foi de quando era mais nova. Nos dois últimos anos eu tenho me descoberto, percebido a minha força, entrado em contato essa questão de feminismo e me fortaleci. Não tive mais nenhum término tão terrível, nada que abalou meu coração dessa maneira. Mas é algo a se pensar. Acho quando estamos no calor do momento, você não pensa em nada, é só sentimento. Não se julgue, existe seu momento de sofrer, o que importa é o que você vai fazer com isso, rastejar ao pé do macho? Não.

Marcela Ceribelli: Estar dentro da sua zona de amor próprio. Mas se você quiser se humilhar um pouquinho, você pode.

Manu Gavassi: Não está prejudicando o seu processo, são deslizes, é necessário.

Marcela Ceribelli: Eu tenho certeza que cada fossa faz a gente melhor, tenho aqui também a mensagem da psicóloga Sandra Baldacci.

Sandra Baldacci: Na verdade, temos que considerar que os términos normalmente causam uma tristeza muito grande. Então muitas vezes tem um impacto de um luto na vida de uma pessoa, mas cada um de nós vai vivenciar esse término de uma maneira e com intensidade muito diferente. Sentimentos como negação, raiva, culpa, tristeza, são muito comuns, inclusive em uma intensidade forte, se eu sou uma pessoa que quase nunca choro, de vez em quando, vou me ver chorando muito, se eu sou uma pessoa que sai muito, estou sem vontade de sair, passo a dormi mal por alguns dias, posso ter um pouco de falta de apetite. Tudo isso é considerado normal quando temos uma perda, a ideia é que a cada dia a frequência e intensidade desses sintomas diminuam, mesmo que com recaídas. Mas quando o tempo começa passar e eu não saio daquela mesma roda de pensamentos e sentimentos, continuo tendo vários desses sintomas ou alguns deles com intensidade enormes, não consigo mais levar o meu dia de maneira normal como eu fazia antes, é porque está na hora de pedir ajuda.

Marcela Ceribelli: Tem uma coisa que ela falou e é muito verdade. Quando terminamos, ficamos esperando acordar um dia e estar bem, quando vai ser o dia que eu vou perceber que eu estou bem. Na verdade, é aos poucos.

Manu Gavassi: É um processo, temos que pensar que a sua vida existia antes dessa pessoa, não importa quão longo foi o namoro e quão marcante. Você já existia, estava tudo bem. As pessoas deixam marcas na nossa vida, que fazem parte do nosso processo de evolução e temos que tentar olhar para isso de uma maneira mais madura, não é caso de vida ou morte, não é uma dependência. Você tem que olhar com mais gratidão, respirar fundo e lembrar de como você era antes e sair mais forte disso, ver tudo que você aprendeu com relacionamento, se não, realmente é muito difícil sair dessa. Estávamos brincando falando disso, que tem que viver a fossa e tem mesmo, acho que no primeiro momento é isso que você tem que fazer, não se julga, mas respire fundo e lembre de quem você é. As pessoas vêm e vão das nossas vidas, amizade, relacionamento, tudo. Eu comecei a pensar sobre isso, o valor que damos para a amizade e o peso que colocamos em um relacionamento. Amizades da vida inteira, têm um puta valor, às vezes, muito mais que o relacionamento e vai ficar para resto da sua vida. E quando você se afasta um pouco de um amigo, está tudo certo. São fases, você se afasta, depois volta, você guarda com carinho aquela fase que aquele amigo esteve ao seu lado. Por que nos descabelamos, enlouquecemos, quando olhamos para um relacionamento amoroso? Tem que encarar o fechamento do ciclo.

Marcela Ceribelli: Eu lembro que uma vez que eu estava muito mal, uma amiga fez uma analogia que me ajudou muito, ela falou, “Marcela, imagina que você está na praia e tem esse barco que está partindo pela costa, nesse momento ele está muito grande. Esse barco é a sua dor, só que ao longo do tempo esse barquinho vai se afastando da costa, quanto mais ele se afasta, mais ele está ficando pequenininho, até sumir. Então tenha paciência, agora parece muito grande, parece que você não vai conseguir, mas eu te prometo que vai ficar muito pequeno e sempre fica”.

Manu Gavassi: Tanto que conseguimos lembrar da fossa e dar risada, lidar com humor. Você vai se afastando aos poucos.

Marcela Ceribelli:  Inclusive, estamos rindo aqui, porque não estamos na fossa. E eu consigo rir de coisas que já fiz em fossa.

Manu Gavassi: E eu amo dramalhão mexicano na fossa, chorar no banho, escorregar na parede, é legal viver isso, colocar para fora. Acho que quem não coloca para fora tem problemas, quem fica reprimindo acaba protelando esse sofrimento.

Marcela Ceribelli: Talvez quem não supere é quem não vive a fossa, é uma forma de cura. Por isso é meio perigoso engatar muitos relacionamentos, você precisa de um pequeno momento de reciclagem.

Manu Gavassi: Você não vive a fossa se engata um relacionamento. Você substitui a pessoa, todo aquele sentimento, aquela expectativa e aquele amor que você colocou em uma pessoa, está colocando na outra. Eu nem confio quando vejo um cara que só namora, que namorou a vida inteira. Ele está cheio de pepinos para resolver e vai jogar em cima de mim. Eu tenho essa visão, para mim foi muito importante esse tempo sozinha, me conhecer, entender quem eu sou e tomar essa força, porque eu sei o quanto sofro e idealizo e sei o quanto isso foi importante para mim. Acho que isso é um ponto bem importante, saber quem você é sozinho e não ficar substituindo dores e amores.

Marcela Ceribelli:  Eu tive relacionamentos longos, então o que eu descobri na fossa foi muito bom, foram os meus tempos de autoconhecimento, querendo ou não, quando você está em um relacionamento, você está se doando muito. Eu lembro da primeira vez que percebi que estava gostando dessa coisa de estar sozinha, foi quando estabeleci uma relação comigo muito boa.

Manu Gavassi: E além de se doar, você acaba misturando muito a sua personalidade, seus gostos e seu estilo de vida. Quando me vi completamente sozinha, morando sozinha, eu nem sabia mais o que eu gostava na minha casa. Você não sabe mais se amava ouvir aquele tipo de música, ou se estava acostumada. São várias coisinhas pequenas que eu não sabia mais se gostava, eu fui me descobrindo.

Marcela Ceribelli: Igualzinha. Eu descobri, por exemplo, que gosto muito mais de ficar em casa e sempre namorei com caras da rua.

Manu Gavassi: E eu posso sim namorar com alguém que gosta de sair, posso ceder e pode ser muito legal, mas tenho segurança e sei quem eu sou, sei que vou preferir ficar sozinha e está tudo certo.

Marcela Ceribelli: Uma coisa que eu acho muito injusta é que assim que você termina, o nosso cérebro dá uma leve sabotada, parece que estava uma merda, aí você termina e só pensa coisa boa.

Manu Gavassi: Romantizar o fim.

Marcela Ceribelli: E eu vejo isso em amigas minhas, a relação estava muito ruim e quando elas terminam falam que ele era maravilhoso.

Manu Gavassi: Você tem que se policiar e é muito perigoso, te faz ficar voltando em relacionamentos que não acrescentam em nada e você sabe que não acrescentam, mas você não consegue passar por esse período sozinha, qualquer coisa é melhor do que lidar com essa dor, então a pessoa volta. Tem muita gente que lida dessa maneira, eu lidei dessa maneira quando era mais nova e, para mim, sua liberdade é conseguir sair disso. Lembro que estava lendo um livro, “As vantagens de ser invisível” e uma das frases era que aceitamos amor que achamos que merecemos. Se você está aceitando o que não te faz bem, isso tem a ver com a sua autoestima e não com outro.

Marcela Ceribelli: É por isso que é muito arriscado você entrar em um relacionamento com a sua autoestima ruim, você tem que entrar em uma relação muito bem com você mesmo.

Manu Gavassi: É um processo, nunca estamos perfeitos, nunca vai ser “agora eu tenho full autoestima, vamos namorar”, não é isso. É um processo de vida, mas só de você estar ciente disso, estar sempre se policiando e se percebendo, já é um grande avanço.

Marcela Ceribelli: E falando em amnésia, uma das minhas formas de cura é praticar amnésia total do relacionamento, não que seja saudável, não sou psicóloga, mas eu gosto de ir deletando da minha vida coisas que me lembram a pessoa, porque são muitos gatilhos. Então, parar de assistir série, parar de ouvir música, dou mudo em todo mundo do universo da pessoa. Acho que funciona um pouco.

Manu Gavassi: Entendo, sou igual a você, somos bem parecidas na fossa. Eu faço a mesma coisa, até tenho dificuldade em ver pessoas que continuam no mesmo grupo de amigos. Mas acho estranho, eu realmente preciso desse tempo, porque dói muito, se não, você fica revivendo aquilo diariamente. Amigos em comum tchau, essa para mim é divisão de bens, escolhas suas batalhas.

Marcela Ceribelli: Vamos ler a segunda mensagem da Sandra.

Sandra Baldacci: Como sair dessa tristeza pós término, como encontrar um caminho para não sentir mais isso que eu estou sentindo? É muito difícil, acho que a primeira coisa que temos que entender e respeitar, são as nossas emoções, reconhecer que nós estamos tristes, que foi uma perda e chorar por essa perda, para que aos poucos, na medida que vamos entendendo que essa perda aconteceu, possamos também entender que a vida é feita de ciclos. Uma coisa que eu acho que pode ajudar é não ficar pressa em esquecer a pessoa, quando queremos muito esquecer essa pessoa, de uma certa forma, nós estamos presos a ela, apegados naquela relação, eu fico tão preocupada, preciso esquecer, não quero mais pensar nisso, que eu já penso. Deixem as coisas acontecerem aos poucos, sem se preocupar em esquecer, deixar as coisas fluindo e tentar retomar sua vida, fazer coisas que te ajudem na sua autoestima, que dizem respeito ao seu autocuidado, faz um corte de cabelo novo, vai comer em um lugar gostoso, se permita encontrar pessoas legais que talvez você tenha esquecido de procurar durante o tempo em que estava nesse relacionamento. E nos momentos de recaída, não se preocupe, pode chorar sem culpa, é normal sentir saudades, aos poucos nós iremos retomar as nossas vidas e muitas coisas boas que estavam esquecidas podem retornar também.

Manu Gavassi: Acho que estamos indo bem nas dicas, falamos muita coisa que a psicóloga falou. Uma das coisas que eu fiz no meu primeiro término foi cortar o cabelo, acho que isso tem a ver, você muda a imagem que você tem de você mesmo, passa outra imagem para o seu cérebro, de uma nova fase que começa agora.

Marcela Ceribelli: Vale eu falar também que eu me mimo muito. Tem amiga minha que fala, “como você consegue ir fazer exercício na fossa?”, claro que eu consigo, eu amo. Na verdade, a tristeza, também é biológica e química, eu preciso dar um pouquinho de dopamina para o meu corpo, preciso correr, pedalar, pelo menos biologicamente eu acabei de dar um pouquinho de felicidade para o meu corpo. Eu gosto de me mimar mesmo, não importo de me dar um jantar sozinha. Já que o que sobrou foi a minha relação comigo, vou fazer dessa a melhor relação que eu já tive.

Manu Gavassi: E você fez muito pelo outro durante todo esse tempo, então por que agora não fazer só para você? Para mim, o visual conta muito, porque eu mando uma mensagem para mim mesma, “cara, é uma nova fase, vou marcar essa nova fase”, acho que ajuda você se olhar no espelho e ver o que quer mudar e encarar isso como um novo capítulo da sua vida, ver quem você deixou de lado. Não cabe tudo na vida, acho que retomar contato com essas pessoas e fazer programas que você fazia antes é muito incrível e vai fazer a dor ficar menor, porque não tem tanta importância, já existiu um momento da sua vida em que aquilo não era prioridade.

Marcela Ceribelli: Agora chegando naquele momento em que você começa a perceber que está ficando melhor, você gosta de “Sex in the city”?

Manu Gavassi:  Eu nunca vi.

Marcela Ceribelli: Tem um episódio que a Carrie, em um dos términos com o Big, está nesse período de fossa e ela passa o episódio inteiro vendo sósias dele na rua e fala que você pode fazer qualquer coisa, menos ousar a parar de pensar nessa pessoa, porque no segundo que você para de pensar nela, você encontra com essa pessoa. E eu acho que é uma história verídica. Para você, como é o primeiro reencontro com a pessoa?

Manu Gavassi: É super tenso, mas faz muito sentido, acho que vai de encontro com o nosso processo de se encontrar e quando você está conectada e comprometida com você mesma, o universo te dá uma protegida, tipo “não vou fazer essa coitada encontrar ele agora, deixa esperar mais um pouquinho”.

Marcela Ceribelli: Mas às vezes você não encontra, é nessa fase que você pensa que está bem e vai dar uma olhadinha no Instagram da pessoa. Não dê, dói. Mas nesse momento, quais são gatilhos que te fazem voltar para a fase anterior, o que você não pode fazer de jeito nenhum?

Manu Gavassi: Eu acho que stalkear é muito perigoso. Hoje em dia, as pessoas têm a vida completamente exposta, você entra nos stories e existe uma vida acontecendo ali, pode ser um caminho sem volta. Então resista. Acho que muita gente faz fake para fuçar, não faça fake, pelo amor de Deus.

Marcela Ceribelli: Mas isso, para mim, é autoagressão

Manu Gavassi: Eu era meio louca nos términos, tive que entender que isso não levava a lugar algum, nunca mais fiz nada parecido. Hoje em dia temos um acesso à vida do outro que não é para ter, não é saudável.

Marcela Ceribelli: Imagina uma fossa nos anos 80, que delícia.

Manu Gavassi: Maravilhoso, seria um sonho. Eu falo com a minha mãe, que incrível, você termina e não precisa ver mais a pessoa, não tem nem celular.

Marcela Ceribelli: Hoje em dia, não. Rapidamente, você já tem uma foto dele com outra no Instagram.

Manu Gavassi: A princípio, acho que o mais difícil, que pode te agredir mais, é ficar stalkeando, ficar em contato com a vida dela, sabendo o que ela está fazendo, é uma autoagressão.

Marcela Ceribelli: Eu acho que tem um dizer que é, “cabeça vazia, oficina do diabo”. O eu quero dizer é, ocupa a sua cabeça com outras coisas, que oportunidade maravilhosa para baixar Duolingo e aprender italiano, esse tempo pode ser ocupado por coisas que vão te fazer uma mulher mais incrível.

Manu Gavassi: E a gente adora se contentar com migalhas, “ele viu meus stories”.

Marcela Ceribelli: Eu sou muito contra isso, tem amiga minha que fala “ele viu meus stories”, eu dou um tapa na cara. Isso não é amor, é se contentar com migalhas, migalhas digitais. Não significa absolutamente nada. Duda Beat, rainha da sofrência, mandou uma mensagem para lermos.

Duda Beat: Oi, Marcela. Oi galera da Obvious. Aqui é a Duda Beat falando e se tem uma coisa que eu sou especialista é em fossa, até fiz um disco falando sobre todas as minhas fossas, todos os meus problemas de amores não correspondidos. A maior dica que eu poderia dar para alguém que está na fossa, está sofrendo com isso, é viver totalmente o luto, o fundo do poço é muito importante, é até um pouco chocante, mas é importante você viver a sua tristeza, para chegar um belo dia e você decidir que não quer mais ser triste, ter força total para levantar. A gente sempre sai do fundo do poço melhor e mais forte do que quando entramos. Outra dica, que melhorou muito a minha vida, era fazer planos, eu acordava de manhã e mesmo triste eu falava, “vou trabalhar para juntar dinheiro, para conseguir viajar, para conseguir comprar tal coisa, para conseguir o meu apartamento”. Então, é muito importante fazer planos futuros e se dedicar a isso, para tirar um pouco a cabeça dos problemas amorosos, essas são as minhas duas dicas, espero que funcione para vocês também, um beijo.

Manu Gavassi: Que fofa! Eu queria morar nessa mensagem da Duda.

Marcela Ceribelli: A Duda é demais.

Manu Gavassi: Maravilhoso o que ela falou no começo, sobre viver. Realmente, você colocar o pé no chão, pensar “para onde eu vou agora” e traçar uma meta.

Marcela Ceribelli: Acho que se é um fechamento de ciclo, qual vai ser o próximo? Está tudo na sua mão e é muito mágico esse momento. Eu não acho que assim que terminamos conseguimos fazer muitos planos, então não se cobre muito. Mas ao perceber que está começando a ficar bem, é mágico quando a dor começa ficar menor, o barquinho está ficando distante.  Eu foco muito na minha carreira, sempre foi assim.

Manu Gavassi: Se você trabalha com arte, é um combustível incrível, é terapêutico. E mesmo sem trabalhar com arte, você pode usar isso como a maneira de superar. Para mim, desde muito novinha, o que sempre me encantou eram histórias, amo quem conta história, amo ouvir histórias, amo viver histórias. Até porque eu idealizo muito, eu invento histórias desde muito nova, comecei a escrever músicas com 13, 14 anos e era inventando história, sonhando. Escrevi sobre relacionamento a minha vida inteira, acho que isso me faz não enlouquecer. Curto viver o calor do momento, amo um drama, mas eu nunca caio totalmente, porque estou colocando isso constantemente para fora, estou falando sobre e expondo. Tem um EP que eu lancei, “Cute but still phsyco” que tem muito a ver com esse tema. A última música chama “Te assusta” é uma música super pessoal, foi super difícil até para mim, para encarar que eu vivi mesmo aquela parada. Eu não ia colocar ela no álbum, tinha vergonha dela e eu mostrei para o Lucas Silveira, produtor dessas três músicas, ele falou que eu tinha que lançar ela, é uma história que vale a pena ser contada. Essa história não é mais minha, é de todo mundo que está ouvindo e se identifica com ela. E eu fiquei muito feliz quando ouvi o álbum da Duda, são músicas que trazem conforto.

Marcela Ceribelli: Acho que nesse momento, quando tudo parece meio fora de ordem, é bom quando conseguimos encontrar um ponto de referência, ela passou por isso e sobreviveu.

Manu Gavassi: É você abraçar sua vulnerabilidade.

Marcela Ceribelli: Que é a coisa mais importante. Acho que quem sofre mais é quem tenta fingir que está tudo bem. Bom da minha parte, se alguém estiver ouvindo e estiver sofrendo muito, eu queria dar só uma palavra de apoio, é o princípio básico, deixar ir para deixar vir, foi por conta de muitas fossas que eu vivi, que hoje estou no melhor relacionamento da minha vida. Então, vai dar certo.

Manu Gavassi: É legal rir de você mesmo e lidar com humor, fica mais leve. E o segredo é não reprimir, está tudo bem, todo mundo passa por isso, abraçar a sua vulnerabilidade é uma coisa linda, te faz mais forte.

Marcela Ceribelli: Manu, eu amei. Você é muito engraçada, eu passo mal com você.

Manu Gavassi: Eu também amei.

Marcela Ceribelli: Comentários, críticas e sugestões sempre com carinho no e-mail [email protected] . Bom dia, Obvious.

Clique na imagem para escutar o episódio <3

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