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Banhos para dias febris e solidão


mensagem final dos artigos da Obvious

Mergulhar em si mesmo e abraçar a solidão parece aquela entrada no chuveiro quando a febre alta e você tem que tomar banho de água fria. Ou então aquele pulo na piscina, porque todo mundo tá nadando. Aí só entra, espera acostumar e fica lá, tremendo por um tempo. Será que a gente se acostuma? Eu não sei, tenho minhas dúvidas…

Numa conversa com uma amiga, falando sobre a nossa rotina rodeada de telas e toques virtuais, ela disparou: nunca me senti tão sozinha. E tem coisa que bate na gente num lugar muito específico e delicado, né? Assim como o pulo na piscina, que a gente conta até três, respira e vai. Penso que atravessar a solidão tem também um pouco disso. É preciso ter coragem para nadar de uma ponta a outra com a água fria. Mas será que a gente se acostuma?

 

Segundo a psicóloga Ana Carolina Toledo, “se pensarmos numa perspectiva do nosso desenvolvimento desde a infância, a solidão não é algo saudável.” Eu entendo, mas me assusto um pouco.  “Precisamos de pessoas que nos mantenham seguros para que possamos desenvolver, com plenitude, diversas capacidades físicas, biológicas e emocionais”, completa. Neste caso, eu vivencio a solidão como um sabor agridoce que toma a sala silenciosa do apê.

 

A autora britânica, Fay Bound Alberti, traz em seu livro ‘A biography of Loneliness’ o contexto histórico, político e econômico em que a solidão – palavra que surgiu em meados de 1800 – se dá. Estamos falando de um sentimento composto, a exemplo do que a gente aprende nas aulas da português e gramática: é a soma de palavras que já tem significado, mas que juntas indicam algo novo. Para Fay, estamos falando da soma de sensações e não é fácil identificar, menos ainda tentar corrigir isso.

Fico lembrando de qual foi a sensação que tomou conta de mim quando eu decidi abrir as asas e voar sozinha. Pareceu muito mais um lugar confortável para me ouvir, falar comigo mesma, não ter uma segunda opinião na decisão de qual comida vem do delivery ou qual será a cor do tapetinho da entrada. Mas falta alguém pra fazer uma piada no meio do dia, uma fofoquinha, dar uma segunda opinião na hora de pedir o delivery ou escolher a cor do tapetinho. Agridoce.

 

Uma pesquisa do Instituto Ipsos, aponta que 52% da população sente que a solidão cresceu no último semestre e quase metade desse percentual teme os efeitos disso para a saúde mental no futuro. Xi… Virei estatística. E aí vem a pergunta, será que a gente se acostuma?

 

Quando dizem que a gente se acostuma com a água gelada, do pulo na piscina ou de uma entrada no mar, realmente dá pra acostumar. E fica gostoso, né? Eu penso que a mesma coisa acontece com a solidão, quando a gente consegue, depois de um tempo, entender a soma desses sentimentos todos, ter consciência deles e, num mergulho ainda mais profundo, achar a solitude.

A solitude, diferente da solidão, é uma escolha. “Não há a sensação de abandono, você sabe que tem gente por perto se precisar, mas escolhe, por diversos momentos, gozar de sua própria companhia”, conclui a especialista. Então não, talvez a gente não se acostume, mas aprenda a viver na companhia da solidão e nos dias em que ela te tira pra dançar Tulipa Ruiz na sala de casa e se transforma em solitude. Tudo caminha de um jeito melhor. E a água parece bem menos fria.

6 thoughts on “Banhos para dias febris e solidão

  1. Bia I. says:

    Que coisa mais linda. Meu pai, que é um ótimo parceiro, adora dizer que “nasceu de dois, mas hoje está só. então faça sozinha”. ele diz isso num tom de brincadeira e ao mesmo tempo de aconselho para que eu me prepare sempre para o caminho de solitude que a vida é. embora entrelaçados com outros, é tão bom ter a si e se jogar nesse sentimento de agridoce. ficar em silêncio consigo, se conhecer, saber o que gostamos. enfim, estar em paz com a voz do nosso coração e ser uma pessoa única para si e assim poder somar para o mundo.. ih, acho que vou levar pra terapia! hahaha

  2. Vanessa says:

    não é fácil se sentir sozinha, no entanto, a solidão sempre irá nos acompanhar. Não importa se estamos num sábado a noite no quarto assistindo Netflix, ou num bar virando shot, no domingo de manhã o primeiro reflexo que você verá no espelho é de você sozinha e tá tudo bem.

  3. Fernanda Souza says:

    Estar sozinha não é o problema, a questão principal pra mim é sobre a “qualidade da companhia”. A solidão e a solitude são as duas faces da mesma moeda, sem mais nem menos, na minha opinião o problema surge quando se está cercado de pessoas e ainda assim permance a sensação de que “não tenho com quem conversar”. Ficar em casa aos finais de semana, lendo na sacada acompanhada só da minha gata me parece muito mais agradável do que a primeira situação. Sendo assim, o problema, pra mim Fernanda, não é estar só comigo mesma, porque me divirto na minha companhia e dou risada das minhas aleatoriedades e me abraço quando a carência surge (pelo menos tento), a solitude só vira solidão pra mim quando tem gente invadindo esse espaço só pra fazer barulho, sem acrescentar e agregar em nada.

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