OBVIOUS

Aprendi com meus pais a odiar meu corpo


À minha frente tem uma foto dos meus pais. Bem novinhos, eles sorriem dentro de uma piscina meio suja em que meu pai tinha jogado minha mãe e depois entrado para buscá-la no colo. Eles eram bem magros. Minha mãe então, nem se fala. Ela adora nos lembrar como pesava 51 quilos na juventude. Pouca pressão.

Hoje, uma foto deles dois já seria um pouco diferente: algumas linhas de expressão emoldurando traços, um tanto de cabelinhos brancos e uns bons quilos a mais. Eu não diria que meus pais hoje são gordos, mas eles também não são magros. Ao longo dos últimos 23 anos cada um deles deve ter ganhado umas dezenas de quilos a mais.

Cresci sendo uma criança bem mirradinha e pequena. Tive uma fase gordinha também, mas ninguém enche o saco de uma criança inchada de corticoide, então até aí tudo bem. Eu comia aos montes e engordava em paz. Até que me curei, fui crescendo e ouvindo meus pais se maltratarem por se transformarem fisicamente. Observar um casamento envelhecer tem suas particularidades. O tempo costuma unir ou afastar as pessoas, mas pouca gente fala do que acontece enquanto o nosso corpo se modifica.

Meu pai definitivamente não é um homem em desconstrução. Na verdade, ele é o exato oposto e ama dizer como não é politicamente correto. O mesmo vale para minha mãe, mas aqui podemos ver mais nuances, afinal estamos falando de uma mulher. O tempo correu e as críticas pegaram carona na transformação de jovens longilíneos em adultos com curvas.

Então sim, eu cresci ouvindo que é errado ser gorda. Ouvi que ninguém me amaria ou se sentiria atraído por mim caso eu tivesse minhas dobrinhas e fui internalizando isso cada vez mais. Meu pai ama dizer como minha mãe engordou e eu quando mais nova a defendia fervorosamente. Como pode alguém apontar o corpo de alguém dessa forma? Ele pensa que não engordou também? Mas os anos vieram e com eles um bocado de maturidade e hoje vejo que meu pai é tão prisioneiro de seu corpo quanto minha mãe de seus comentários.

Acontece que meu pai também não ama sua forma física e usa o exercício como punição. Acorda às 04:00 e anda 80 quilômetros de bicicleta algumas vezes por semana, parece até invenção minha, mas nem é. Fora isso, ele faz musculação, o que odeia, e também vive sentindo a culpa de comer o pudim dos domingos e as goiabadas das sobremesas. Quando focamos apenas nos resultados e nos forçamos a parecer de um certo jeito, nos perdemos no processo e em todo o prazer que pode vir de nos mover.

Chegando na minha mãe temos uma bagunça maior ainda: imagine ser magra a ponto de ser considerada pequena durante toda sua vida, ela era, e aos meus olhos continua sendo, uma bonequinha. Até que ela teve duas filhas biológicas e viu seu corpo se expandir de formas inimagináveis. Adicione nessa panela as barras da vida, um teco de depressão e a pressão para parecer e ser a esposa perfeita. A água ferveu, né?

Em vez de a acolher com gentileza, a forma do meu pai de incentivo se traduziu em insultos e partiu até para ameaças. Emagreça ou eu te deixo, ele dizia. Ao que ela retrucava: tá bom, que coisa mais fútil da sua parte. E eu de camarote ouvindo as queixas de ambos os lados. Já experimentaram ser mãe e terapeuta de seus pais? Não recomendo.

A retrucada confiante da minha mãe foi o suficiente para assustar meu pai. Apesar de ela seguir insatisfeita com seu corpo, o trata com mais gentileza e não aceita que outros façam diferente. Hoje ela redescobriu o exercício físico e quer saber de mais uma coisa? Faz por saúde e porque ficar chapadinha de endorfina é uma delícia.

Quanto a mim, sigo tentando me equilibrar nessa corda bamba louca e desaprender tudo que aprendi com os meus pais. Quem foi que disse que eles sempre sabem o melhor para a gente? Será que consigo desaprender até chegar na próxima geração?

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