OBVIOUS

Precisamos falar sobre escuta: você tem se escutado pra valer?


mensagem final dos artigos da Obvious

em outubro do ano passado morei um mês na praia e uma das primeiras coisas que notei ao trocar meu apartamento na indiscutivelmente barulhenta São Paulo por uma casa isolada em uma cidade litorânea foi a questão dos ruídos – que seguiram existindo, mas de forma diferente.

essa situação me fez pensar se é possível existir um silêncio absoluto ou se, na realidade, o silêncio é mais parecido com um acontecimento sobre o qual não temos total controle. quero dizer, o silêncio começa quando escolho não ter nada tocando ou rolando  – tv, podcast, música, um papo, uma ligação – mas o que resta depois desses estímulos serem extintos é bem diferente aqui e lá.

silêncios com sons diferentes.

aqui em São Paulo ouço carros, buzinas, meus vizinhos, seus cachorros, construções, lá escutava o vento, os sapos, insetos e mosquitos que não me deixavam dormir tanto quanto as buzinas. Toda essa introdução #reflexivah para chegar no ponto que eu realmente quero: que som tem o seu silêncio? você tem escutado pra valer? a si mesma, aos outros, o mundo ao redor?

esse exercício de botar reparo no silêncio é só a ponta do iceberg para que possamos falar de escuta: não aquela escuta mesquinha, que se sustenta em esperar nossa vez de falar, mas a escuta ativa, um conceito que a psicanálise me trouxe e que acredito não ser aplicável somente ao contexto psicanalítico. inclusive, muito pelo contrário, porque falar de escuta ativa é falar sobre presença enquanto o outro coloca de si e apesar de parecer simples, a gente precisa combinar que só parece mesmo.

 exatamente por isso, eu deixo aqui & agora indicações de conteúdos para você mergulhar no universo da escuta a qualquer tempo, porque escutar é valioso demais e sempre será, ouvir bem para se comunicar melhor…

esse podcast da Gama traz Dominic Barter, especialista em comunicação não-violenta, como convidado para falar sobre o tema. gosto particularmente do trecho em que ele diz que a comunicação não-violenta evita generalizações, porque essa afirmação pressupõe que toda fala sempre terá valor, independente do conteúdo já ser sabido ou já ter sido ouvido. afinal, a mesma coisa pode ser dita com múltiplas intenções e significados.

depende sempre de quem fala – e de quem ouve.

um diálogo é mais rico que dois monólogos

um amigo me recomendou o livro Diálogo: comunicação e redes de convivência e fiquei bem interessada em lê-lo depois de ter visto isso aqui, ó: “com texto simples, claro, fluente e pleno de oralidade, o autor se dirige diretamente a quem o lê, numa postura informal que faz o leitor se sentir atraído e acolhido. Não é outra, aliás, a intenção fundamental do diálogo – buscar o companheirismo e o compartilhamento de significados. Para Bohm, ‘diálogo’ significa bem mais do que o simples pingue-pongue de opiniões, argumentos e pontos de vista que habitualmente ocorrem entre dois ou mais interlocutores.”

escutar a si mesma

ouso dizer que antes de aprendermos a escutar o outro, precisamos aprender a escutar a nós mesmas. e, pra mim, não tem forma melhor de concretizar isso se não pela via da palavra: tanto escrita, quanto falada. por isso, sou defensora feroz tanto de uma boa rascunhada de palavras e sentimentos em uma folha em branco, quanto de uma conversa sincera, seja com alguém que você tenha intimidade, seja pela via da boa e velha terapia. Inclusive, esse post do @psicanaliedke traz algumas opções de terapia gratuita caso a grana seja um fator impeditivo para que você comece ou retorne a esse processo.

seu corpo fala, você tem escutado o que ele diz?

dando um passo adiante em relação ao tópico anterior, acho válido treinarmos a escuta para ouvir o que nosso próprio corpo diz. aqui, entra escutar desde aquela dor muscular que pode rolar depois de uma prática mais intensa de exercício, até os sintomas físicos que nosso corpo manifesta quando não dá conta de elaborar fatos e afetos.

para entender melhor sobre a psicossomática, área que se debruça na relação mente e corpo no que diz respeito às doenças que a primeira pode causar no segundo, vale assistir esse vídeo aqui pra aprender a escutar o outro. Christian Dunker, o psicanalista popstar kk, dando a letra quando o assunto é aprender a escutar o outro: claro que vale o play, né?

escutando nosso barulho mental

o trecho abaixo vem da newsletter da Vânia Goy e fez muito sentido pra mim tendo em vista que seguimos vivendo tempos pandêmicos de isolamento e reclusão. olha só:

“Trabalhar em silêncio e sozinha é também terreno fértil pro barulho mental. Penso muito, tenho mil ideias, poucos interlocutores, muitas dúvidas, pendências que só podem ser resolvidas por mim e ansiedade de tentar controlar o futuro. Tudo isso me cansa muito mais mental e emocionalmente do que antes, quando estava dando conta mais dos estímulos físicos do que desses, mais sutis.”

fez sentido pra você? então me conta, como você lida com o barulho mental? existem benefícios científicos comprovados em escutar músicas nova e esse podcast curtinho, de só 18 minutos, explica a ciência por trás dos benefícios para o cérebro que escutar músicas que você nunca tenha ouvido antes pode trazer como escutar o outro (de verdade)

por fim, quero te contar que o tema da newsletter de hoje surgiu, na verdade, a partir de um conteúdo que escrevi pro feed da obvious (esse oh!). a repercussão, troca e engajamento foi tão grande que achei que valia falar mais sobre o assunto por aqui. o texto propõe alguns steps para que escutemos melhor o outro, vê só se você concorda:

#1 não é sobre você

escutar é se abrir para outra pessoa. deixar suas certezas, opiniões e julgamentos em suspensão. porque um diálogo é sempre mais rico que dois monólogos.

#2 bye, bye interrompimentos

deixe a telepatia para as mistiquinhas, completar a frase ou raciocínio de alguém apenas não é legal.

#3 olímpiada de sofrimento? ou de razão?!

escutar e dialogar passa longe da disputa sobre quem está certo ou errado, sobre quem sofre mais ou quem carrega a verdade.

escutar transforma e, em situações complicadas, é possível responder com um simples: eu não sei o que te dizer, mas como posso te ajudar?

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