OBVIOUS

Pelo direito de não ser minha melhor versão


mensagem final dos artigos da Obvious

Hoje eu acordei e pensei: eu não quero ser minha melhor versão.

Não quero beber bastante água, meditar por 20min, acordar às 5:45 e definir metas para o dia. Aliás, mentira: eu tenho uma meta, a meta é não ter metas de ser uma pessoa melhor.

Eu sou uma maratonista: acordo todos os dias e faço um treino exaustivo de horas a fio para exercitar minha saúde mental. Esse músculo apelidado de o meu psicológico exige mais de mim do que fazer Kegel quatro vezes ao dia pra manter a pepeca forte. (PPKcare is the new skincare.) E, assim como correr, sair alguns dias da disciplina faz a gente voltar 4 casas no jogo da vida, digo, da atividade física. Mas, diferente de correr, não existe um dia de descanso.

Todos os dias, da hora de acordar até a hora de dormir, eu preciso correr essa maratona. Eu só quero maratonar Brincando Com Fogo na Netflix até meus neurônios desistirem de conversar entre si. No máximo, se estiver disposta, um De Férias Com O Ex. Mas não me vem com Big Brother: aí já é esforço mental demais.

A cadelinha de Pavlov condicionada por reforços positivos do poder do hábito que habita em mim saúda a cadelinha de Pavlov que habita em você. Com a minha moldavita presa no meu pescoço, eu mentalizo que não quero fazer nenhuma manifestação para ficar rica, mais saudável, hiper produtiva – eu sei, eu sei, segundo todos os livros de auto-ajuda, não, desenvolvimento pessoal, a culpa é toda minha. Desculpa, universo. Viva o pensamento negativo!

E se não é na yoga e nos cristais que está a resposta, talvez esteja na doutrina de otimização pessoal em uma velocidade semelhante à inovação tecnológica, promovida pelos Jim Jones do nosso tempo – mas, em vez do suicídio coletivo de quase 1.000 pessoas, estaríamos entregando nosso psicológico ao abate no altar de novos gurus do melhoramento pessoal?

Acho que esse é o momento da minha confissão: perdão padre, eu pequei, tenho uma coleção de cristais.

A culpa Cristã reembalada em cores vibrantes ignora contextos sociais, foca no indivíduo e na exigência da vida perfeita – ou pelo menos no caminho até lá. A cocaína agora vem junto com a couve, liberando a mesma dopamina que aparece quando a gente vê aquele avanço no gráfico do aplicativo que computa cada uma das nossas decisões e cada um dos passos que demos hoje, melhor ainda se tivermos superado aquele nosso colega com quem compartilhamos conquistas. Amém, Schadenfreude.

Hoje  eu vou pular o skincare, deixar de passar protetor solar, o que é algo que nunca faço, e se eu faço depois eu choro e me arrependo. Hoje, tem só uma coisa anotada no meu planner: pelo direito de não ser minha melhor versão.

46 thoughts on “Pelo direito de não ser minha melhor versão

  1. Raquel says:

    Tenho não vivido minha melhor versão há alguns dias e tem sido necessário demais. O mundo capitalista que lute, mas eu vou descansar sem culpa na consciência simmmmm.

  2. Duda says:

    texto mara!!!! muito importante lembrar que não somos máquinas 100% perfeitas e tem dias que só queremos não ser uma máquina e ficar na cama o dia todo 🙂

  3. Maria Fernanda says:

    Incrível!!! O que eu mais desejo é me permitir descansar de fato. Tão exaustivo ter sempre algo pra fazer e tão condicionante a forma como intitulam de “autocuidado” é de fato uma experiência de conexão com o seu corpo, mas quando se torna regra… Cansa!
    Pelo direito de não ser minha melhor versão hoje!

  4. André Lara says:

    Falou tudo! Exausto de tentar ser a minha melhor versão todos os dias nesse tempo de pandemia. Extremamente necessária essa leitura ❤️

  5. Rosiane says:

    Se a busca da melhor versão torna-se um peso, essa não é sua melhor versão!
    Desserviço levar a bandeira da estagnação pq na zona de conforto, infelizmente, ninguém se sente confortável

  6. Giovana Purcino says:

    Eu sou a pessoa mais “gratiluz” e “viva a produtividade e o autocuidado” que eu conheço. Mas hoje eu acordei exatamente igual a esse texto. E tá tudo bem, né? É sobre isso sz

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