OBVIOUS

Além do meu trabalho, quem eu sou?


Em São Paulo a gente tem o hábito esquisito de se apresentar dizendo o que faz. “Ah, meu nome é Jeremias e eu coordeno uma equipe de pesquisa em biotecnologia.” Quê? Legal demais o seu cargo, Jeremias, caro amigo imaginário, mas quem É você? Parei para pensar muito sobre isso e em como eu exibo o meu lado CNPJ por aí (como andam dizendo no país, rs) e deixando de lado o meu CPF.

Eu sou a pessoa que prefere o Sol nascendo do que se pondo; que escuta música clássica toda manhã e quase sempre termina o dia dançando funk sozinha com o espelho; que valoriza muito mais o café da manhã do que a janta e que ama chá. Puts, taí! Dá pra desenrolar doze mil conversas sobre chá: de camomila para a cólica, de erva-cidreira quando alguém morre e as pessoas precisam se acalmar, preto para substituir o café. Tudo isso faz parte de quem eu sou além do meu trabalho.

Mas quem disse que eu mesma abraço isso? Sinto que todas as vezes que falho no trabalho, falho na vida. Que todas as vezes que opto por descansar um domingo inteiro ao invés de usar o finalzinho do dia para organizar a minha semana, tá errado. Sinto que me apeguei de tal maneira à ideia de ter controle total de pelo menos um segmento da minha que resumi tudo a ele.

Lembrei daquele termo cafona que as pessoas costumavam usar: workaholic. Na explicação do que a expressão significa, desenha-se alguém sem hobbies, com poucos contatos além do trabalho, e limitado quando esse é o assunto. Me surpreendi negativamente por me identificar com algumas dessas características, não quero ser assim. Será que rola um rehab pra isso? Talvez só botar pra fora aqui nesse papo já ajude.

Recentemente, eu parei para pensar em como eu falo do meu trabalho na terapia. Cumpri a meta, recebi um elogio, botei em prática uma mudança depois de uma crítica, tô escrevendo um projeto novo, fechei um publi… E o resto? Cadê a pessoa física por trás dessa persona trabalhadora & desenrolada que eu insisto em me autointitular?

Inclusive, eu perdi um boy nessa pira aí, o cara falou com todas as letras: “Você é muito legal, mas só fala de trabalho.” Meu caro, eu não tenho mais sobre o que falar! Sei lá quantos meses dentro de casa, a minha vida se tornou um loop de trabalho-surto-procrastinação-trabalho-mais um pequeno surto. Mas boto fé que talvez ele estivesse certo e que vale a pena dar uma cutucadinha no que eu sou além das minhas horas diárias de trabalho, por mais difícil que isso seja.

11 thoughts on “Além do meu trabalho, quem eu sou?

  1. Priscila says:

    Nossa, é exatamente isso! Parece que nossa existência só se resume ao trabalho, ao que fazemos no trabalho.
    E todo o universo que somos, fica esquecido, meio até que apagado.
    Lindo, obrigada por esse texto!

  2. Juliana Martins says:

    Obrigada por isso! Pequeno,curto e objetivo, eu amo o seu ” trabalho”, que se interliga muito em quem você é, existe uma camada de luta sobre como queremos ver o mundo, os nossos, que as vezes fica um tanto complexo e denso separar o que somos, do que fazemos. Nosso corpo constantemente existindo politicamente as vezes nos tira a dimensão, do quão e bom as vezes ser poesia, ser vida, existir para além da camada do enfretamento diário sobre a nossa também afirmação como seres, pessoas negras que se alimentam e se reinventam em seus hobbies. Tive um momento muito parecido com o seu na terapia, mas fui para uma dimensão sobre do nosso fazer diário, o quanto o chá de camomila, o samba, o descanso e a pausa, a paz , os dialogos e as conversas e dimensões mais leves ou até mesmo mais filosoficas não nós mostrar caminho para existir fazendo aquilo que a gente ama, acredita e relaciona tanto no trabalho, com na vida. Complexo, não se me fiz entender, sou um pouco prolixa.
    Mas obrigada pelo texto e escreva mais os sobre as curas na hora de tomar um chá de camomila.
    E mesmo que não seja sobre isso admiro muito o seu trabalho hehehh

  3. Lia Araruna says:

    Recentemente, tive uma aula do mestrado que a professora iniciou com a clássica solicitação de que a gente se apresentasse e tal qual foi minha surpresa quando ela disse: “Não quero saber do seu trabalho, quero saber quem é você”. Foi quase unanimidade o susto, o gaguejar sem saber o que falar. De fato, precisamos urgente pensar sobre isso e rever. Super necessária a leitura!

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