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A pequena morte: redescobrindo o orgasmo pós-menopausa precoce


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Eis que um dia, um pouco antes de fazer 25 anos, eu acordei com uma surpresa: não conseguia mais ter orgasmos. Não foi uma maldição divina, mas genética – quer dizer, isso depende do seu ponto de vista: alguém manda doenças graves pra Terra? Pseudofilosofias à parte, eu tinha 24 anos e tinha acabado de entrar em menopausa precoce, de perder o útero, os ovários, a capacidade de ser mãe e, pior ainda, o orgasmo.

Eu assisti à Meredith Grey na décima segunda temporada de Grey’s Anatomy explicando que o trem do orgasmo tinha deixado a estação do seu corpo quando o marido morreu, e então mandava a cena pras minhas amigas, digitando “eu!!!!!!” com várias exclamações. Mas graças a Deus (e de novo isso depende do seu ponto de vista) essa não é uma história de superação e de uma existência possível pós-orgasmo.

Ainda bem.

Eu perdi a virgindade aos 17 anos, um anti-clichê ainda assim meio brega (mas confesso que no dia achei lindo): não foi com um namorado, mas ele colocou um quarteto de cordas de trilha sonora. Doeu pra caramba de um jeito meio bom e, como provavelmente cem por cento das mulheres menos a Blair Waldorf, eu não tive um orgasmo (e também não perdi a virgindade em uma limusine). Tudo bem: eu já tinha vivido um orgasmo várias vezes antes, sozinha, na cama de solteiro com lençol da Ariel no quarto escuro da minha casa.

Não é por acaso que o desejo de vida, para Freud, tem o nome do deus do erotismo e que seu discípulo, Reich, considerava o orgasmo como um divisor de águas entre doença e saúde. No meu caso, foi diferente: a doença, câncer bilateral de ovários, foi o divisor de águas entre meus orgasmos. 

A primeira vez que fiz sexo depois da minha cirurgia de histerectomia total, eu chorei. Não pela dor, quer dizer, também. Mas chorei de raiva de perder a mim mesma, chorei de raiva do meu próprio corpo, chorei de raiva de uma doença que me perseguia há uma década e não era capaz de me deixar em paz. Sentia meus orgasmos como as Marilyns de Andy Warhol, copiando a si mesmo tantas vezes que se tornaram uma cópia mal feita, borrada, até finalmente um borrão incompreensível. Eu queria ser Frank O’Hara e gritar “você é lindo e eu vou gozar”, mas de repente eu era Molly Bloom com um orgasmo tão complexo de entender que, dependendo de quem estivesse lendo, às vezes nem acontecia.

Eu não conseguia mais ter orgasmos.

Passei três anos sem unzinho orgasmo acompanhada, e raramente (digo, muito raramente) sozinha. Depois que me separei, entrei em uma jornada espiritual de auto-conhecimento que envolveu astrologia, tarot, meditação, psicanálise (que, tudo bem, faço há anos e anos) e vibradores. Como eu gosto de fingir que sou rica, eu varri a internet em busca de opções luxuosas. O mercado de luxury sex toys, as principais palavras-chave que usei, é gigante. O acessório, da mesma cor do meu Foreo Luna, foi escolhido tanto pela estética quanto pela funcionalidade e ajudou – foi escolhido tanto pela estética quanto pela funcionalidade e ajudou – mas não tanto assim, e entre dispositivos tecnológicos o meu favorito continua sendo o de skincare.

Falando em skincare: a menopausa precoce é uma vilã silenciosa que estraga aos pouquinhos pedaços da sua vida. Eu tive acne! E cansaço! E falta de libido! E calorões! Não quero assustar, mas foi terrível. E também passageiro. Achei que a solução seriam hormônios receitados pela minha ginecologista, depois achei que seriam os bioidênticos, depois a homeopatia, depois os florais de Bach. No lugar, foi uma boa dermatologista, uma dieta vegetariana, um ar condicionado potente e bastante terapia (mas isso sempre, pra qualquer problema, e até pra quem não tem problema nenhum). (E além disso sempre tentem hormônios e tudo que a sua médica mandar, não levem esse texto como conselho médico jamais!)

Tá bom, preciso me render aos clichês. Fugi deles por quase 10 parágrafos, mas chegou a hora. Esse foi o meu segredo: aos poucos, comecei a reconhecer minha nova casa, a respeitar esse novo espaço em que eu continuei a morar. Meu corpo mudou, ainda muda, é inegável – mas segue uma construção biológica surpreendente, que me leva a lugares, sensações e sentimentos. Minha psicóloga sempre falou que meu exagero intelectual era uma armadilha que me fazia separar mente e corpo. Talvez essa tenha sido a mudança, depois de 10 anos de análise. 

Mergulhei em mim mesma. Resolvi encarar de frente meus prazeres e descobri que, mesmo sendo feminista (aposentada), seguia proferindo um julgamento cruel sobre mim mesma. Entender e quebrar essas crenças pessoais foi a verdadeira mudança, que não precisou de nenhuma solução externa. Os orgasmos que vivi depois foram gigantes. Talvez eu nunca tivesse gozado de verdade – eu sabia que tinha, mas sempre deitada na cama. Agora, eu levitava, o corpo suspenso como em Jovens Bruxas, pela magia do orgasmo.

E falando na palavra: sua tradução, em francês, é petite mort: a pequena morte.

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